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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Juntam-se a fome e a vontade de comer

Um burlão digno desse nome é minucioso na sua arte de enganar, toma todas as precauções para iludir a sua vítima e para isso usa a fraqueza do outro, os seus pontos fracos ou, por outras palavras, usa sem cerimónia a vontade que o outro tem de ser enganado. E de onde vem ao burlado a vontade de ser enganado, é porque é tolo? Não, é porque se julga muito esperto. Julga-se tão esperto que espera poder tirar um proveito a que não teria acesso fácil ou ao qual não teria sequer direito nenhum. Quer isto dizer que nunca há só um burlão, há sempre dois, um que percebeu o que o outro quer e não pode ter, ou porque não existe ou porque é muito caro ou difícil, e este porque quer alcançar o que o outro lhe oferece de bandeja, sem lhe exigir o preço ou o esforço que o cobiçado resultado exigiriam. O espertalhão é burlado com facilidade, julgando que os que não viram a oportunidade são estúpidos, ou pouco lestos, adianta-se a todos, aproveita com sofreguidão, nem acredita na sorte que lhe tocou, vangloria-se intimamente com a sua glória, ah!, quando os outros souberem, ou quando eu anunciar, o burlado é vaidoso, ou trouxa, como dizia o meu avô, e um vaidoso humilhado ou um trouxa apanhado pela sua credulidade sentem raiva ou sofrimento mas não inspiram pena.
O povo traduz esta teoria arrevezada de forma muito simples: “Junta-se a fome com a vontade de comer”. É por isso que as burlas são, em regra, tão perfeitas na sua execução e tantas vezes ocultadas ou negadas pelos burlados, porque denunciam duas artinhamas ridículas depois de descobertas.



5 comentários:

Bartolomeu disse...

E qual é o melhor ponto do globo terrestre para um burlão se estabelecer, cara Drª. Suzana?
Yessss!!!
Portugal!
Esse maravilhoso protectorado à beira-mar plantado, que acolhe com boçal deslumbre, e tratamento extra-VIP, tudo o que seja burlão, pantomineiro e vigarista. Graças à prolixidade da nossa organização politicojudicial, e ao sonho incumprindo da vinda de um tal Sebastião não-sei-das-quantas qualquer fulano com aptidões mínimas para a golpada e para o parlapié, vem a conhecer, neste ameno jardim, com surpreendente rapidez a que não é elheia a ajuda inestimável dos orgãos de comunicação social, o sucesso que outros, os realmente formados e com especialização nas matérias, algum dia alcançarão.
Paz às nossas vistinhas curtas e a nossa estreita pequenez de nos encontrarmos.

jotaC disse...

É verdade. De modo geral a burla pressupõe sempre duas vontades “gulosas” de obter proveito, embora distintas: a do burlão totalmente consciente do seu ato, e a do burlado cega pelo proveito fácil. Tinha razão o seu avozinho, quando dizia - “junta-se a fome com a vontade de comer”.

Portanto, podemos concluir que a burla engloba sempre duas ou mais vontades, e tanto pode ser o conto do vigário da cautela premiada, como o conto do vigário mais requintado do diploma de doutor...

Mas muita gente tende a considerar falcatrua e burla a mesma coisa. Eu discordo!.

Falcatrua pressupõe, quase sempre, um esquema elaborado e complexo de extorsão indistinto, tanto pode ser ao estado, como à sociedade (estou a lembra-me do esquema BPN, e do esquema Álvaro dos Reis do Séc. XIX)...

Bem, não vale a pena continuar a desfiar o rosário. Nós, apenas temos veia de artistas de coro, por isso termino este comentário desejando-lhe a si, aos seus colegas e comentadores, um excelente ano de 2013 (no que toca a saúde), pois quanto ao resto…

Suzana Toscano disse...

Não sei, caro Bartolomeu, não teremos o exclusivo mas é capaz de haver um ambiente preconceituoso que facilita as coisas aos burlões, é fácil perceber quais são os nossos pontos fracos, basta ver como funcionam os "títulos" acasdémicos ou outros, algumas palavras mágicas, como "ser rico", ou ser "coordenador" ou "conceituado no estrangeiro", então os estrangeirados é qualquer coisa de mítico que as nossas viagens marítimas e as que se fazem hoje por dá cá aquela palha não resolveram de modo nenhum, o que é difícil de explicar.
Tem razão, caro jotac, burla e falcatrua não são a mesma coisa, a extorsão ou o roubo facilitado pela confiança ou a ingenuidade são bem diferentes, daí também o absurdo de haver quem quer recorrer aos tribunais para punir certas burlas tontas.
Desejo aos meus amigos e sempre atentos comentadores um Ano Novo cheio de alegrias e boas surpresas e, claro, bom humor e capacidade de ir contornando as dificuldades. Com um abraço amigo.

Bartolomeu disse...

Cara Drª. Suzana, agradeço-lhe as alegrias as surpresas e os bons humores, que tão amigável e amávelmente me deseja.
Pela minha parte, farei os possíveis por cumpri-los, esperando desde já, a sua cumplicidade, e dos restantes amigos tertulianos/quartarepublicanos.
;)
Para todos, um excelente 2013!

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
Bela descrição do negócio de burlões. Acrescentaria um aspecto também curioso que vai mais além da negação, é que normalmente os burlões - o que burla e o que é burlado - quando a "careca" é descoberta vitimizam-se. E depois é assistir a um rosário de desculpas e argumentos sem pingo de vergonha.