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domingo, 16 de outubro de 2005

Fitas portuguesas!...


Fitas!...
Uma entrevista publicada num jornal de ontem com o realizador António Pedro Vasconcelos deu-me o mote para este texto.
Como é sabido, os filmes portugueses têm enormes apoios estatais e, em geral, audiências reduzidíssimas.
Há filmes, altamente subsidiados, que não chegaram a ter um milhar de espectadores ou pouco passaram disso e a maioria não chega sequer aos 10.000 espectadores.
As coisas chegaram mesmo ao ponto de um famoso dito realizador, que, inteligentemente, se habituou a viver subsidiado através das “fitas” que fazia, respondendo a uma questão sobre as razões da ausência de espectadores aos seus filmes ( um deles terá tido, por junto, 300 espectadores), limitou-se a dizer: “no dia em que fizesse filmes para serem vistos, estaria a prostituir-me…”!...
Houve mesmo um filme recente, obviamente subsidiado, cuja acção ficou a meio, porque o realizador, por capricho inclassificável, resolveu colocar um pano preto na câmara, enquanto continuava a filmar, ficando assim a preto metade da obra!…
Como é sabido, alguns críticos consideraram o filme genial e apodaram de incultos todos os que se atreveram a dizer que o subsídio devia se devolvido !...
Chama-se a isto “cinema de autor” !...
Conhecendo, embora, os argumentos, ainda não consegui perceber por que razão toda esta vergonha aconteceu e continua a acontecer e não há um Governo que , com os diabos, tenha a coragem de dar uma vassourada na situação!...
E as coisas vão continuar pelo mesmo caminho!...
O realizador António Pedro Vasconcelos, que tem feito alguns bons filmes, propiciadores de boas audiências, superiores a 100.000 espectadores, sem ser puro cinema comercial, vem-se queixando da situação.
Referiu A.P. Vasconcelos: “O Sr. Secretário de Estado da Cultura disse que se tem que financiar prioritariamente o cinema de autor. Quando o Governo insiste neste equívoco, nesta dicotomia absurda…que há um cinema de autor que é o que não tem público e que o cinema que tem público é comercial, nós estamos a aumentar o fosso que nos conduziu à situação actual…”
Acho muito bem que um realizador queira fazer filmes confidenciais, mas faça-os à sua custa e não à nossa!
Também nem acho nem bem nem mal que um realizador não planeie o seu trabalho, seja incompetente ou faça filmes de qualidade miserável, mas já não admito que viva à custa deles, o que significa à nossa!...
Depois digam que não há dinheiro para o Estado Social!
Com tais prioridades e outras quejandas, não há, nem nunca haverá!...

10 comentários:

Manta de Retalhos disse...

Caro Pinho Cardão

Completamente de acordo, e mais não digo, porque melhor não consigo.

Cumprimentos

cmonteiro disse...

Também podemos perguntar-nos se quem tem sucesso e créditos firmados precisa de apoio?...

Nesse aspecto, o ex-ministro da cultura Carrilho cortou a direito no teatro: La Feria sem subsidios, porque La Feria tem sucesso e dinheiro para produções.

Admito o seu ponto de vista, mas na realidade não creio que um realizador com uma carreira de sucesso deixe de fazer cinema, ao invés de muitos jovens promissores realizadores que têm avançado mesmo sem esses apoios, e curiosamente têm tido salas cheias.

Onde seria melhor aplicado um subsídio?

La Feria continua a encher salas, e Fernando Fragata, realizador do seu primeiro filme ,"Sorte Nula", o filme português mais visto de 2004 e um dos mais vistos de sempre anda por aí, porque gastou o dinheiro das receitas a pagar dívidas.

Suzana Toscano disse...

É uma questão de critério. Uma coisa é andarmos a subsidiar quem tem jeito e arte para comunicar e merece uma oportunidade para fazer filmes (ou teatro) para os outros verem, seja qual for o público-alvo. Outra coisa, a que temos assistido e que o Pinho Cardão tão bem retrata, é andarmos a pagar diletantismos intelectuais de quem desdenha do público e quer mesmo assim que lhes paguem. Quem atribui os subsídios é que tem que saber avaliar se eles se vão tornar úteis para todos e não só para quem o recebe.

cmonteiro disse...

Não é linear. De qualquer modo o Branca de Neve constitui um exemplo perfeito do que foi referido no post inicial, mas não constitui a regra. Essa é muito mais subjectiva.

Mas o senhor em questão já não reclamará mais subsídios, não se preocupe.

Pinho Cardão disse...

Caro CMonteiro:
O problema é que há muitos outros, que não se limitam a reclamar...mas arrogantemente exigem!...
Exigem o quê?
Que nós lhe paguemos as miseráveis fitas que fazem...invocando a cultura e tomando por inculto cavernícola quem não concorda!...
Basta ouvi-los, nalguns dos mais luxuosos restaurantes de Lisboa!...
Também lá vou, por vezes, mas não à custa de subsídios do Estado ou do dinheiro dos contribuintes!...

cmonteiro disse...

Caro Pinho Cardão,

Estamos a ir por um caminho em que podemos rapidamente cair na demagogia.

1- A questão dos subsídios: O subsidio atribui-se não para ajuda pessoal do criador, mas para a promoção cultural. Tal como na economia.

2- O critério do subsídio: É vago. Pessoalmente concordo consigo no caso em questao, embora eu ache que o meu caro esteja a extrapolar. Numa famosa discussão entre um cineasta francês e um americano, o francês dizia que cinema é cultura. O americano contrapôs que cinema é "entertainement". Se não nos cingirmos à tradução directa, constatamos que o cinema americano tem produzido as obras cinematograficas mais maravilhosas. O exemplo que eu dei do Fernando Fragata é lapidar: fez um bom filme de "entertainement" que vendeu como nenhum.

3- O caminho errado da nossa conversa: Os jantares na Bica do Sapato. Desde que não estejam a ser pagos com o subsídio, não faço juizos morais...

(também, ir a um restaurante que tem uma cadeira de cada nação...bah!)

Pinho Cardão disse...

Caro CMonteiro:
Podemos, de facto, cair na demagogia e aí concordo consigo.
Mas que a história dos últimos 30 anos do cinema português, salvo algumas e boas excepções, é de sacar, sacar, sacar...disso não tenho qualquer dúvida!...
Em termos culturais ou de perenidade das obras, qual o balanço custo benefício?
Simplesmente carastrófico!...

cmonteiro disse...

Isso não é totalmente verdade, alguns realizadores têm tido obras muito válidas e com algum sucesso internacional (José Pedro Vasconcellos), e o muitíssimo conhecido, Manoel de Oliveira.

Neste caso, nem diferimos muito de países como a Espanha, tendo em certames internacionais já tido tanta projecção como eles. É claro que Almodovar constitui um caso, mas não é a regra do cinema em Espanha.

Ia referir o Japão, mas seria claramente um exagero meu.

Agora, o facto de sermo um país culturalmente periférico é incontornável. Quando num ano temos tantos eventos culturais como Paris num mês, não dá.

Não esperava uma nova Hollywood por aqui, pois não?...

Não nego no entanto que deveria haver um outro critério na atribuição de subsídios, mas não acredito que a coisa vá ficar assim tãããõ diferente do que temos.

Pinho Cardão disse...

Caro CMonteiro:
António Pedro Vasconcelos, Fonseca e Costa e mais um ou dois e, noutro plano, Manuel de Oliveira, são andorinhas que não fazem a primavera!...
O resto é o inverno do nosso descontentamento!...
Para mim, claro, respeitando a sua análise serena!...
Mas este interessante debate relembrou-me que, aqui há uns anos, bastantes, fiz parte, na qualidade de cidadão independente da actividade cinematográfica, de um órgão que pomposamente se chamava Conselho do Cinema e funcionava junto do então Instituto Português do Cinema.
Vou vasculhar alguns papéis da altura e julgo que teremos oportunidade de mais algumas trocas de impressões interessantes!...

cmonteiro disse...

Opss... vou ser esmagado.

P.S.: "António Pedro Vasconcellos" e não "João". Era para ver se estava com atenção! :-)