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domingo, 30 de outubro de 2005

Os rostos de Jano


Janus era o deus dos portões e portas. Era representado por uma figura com duas faces olhando em direcções opostas. O seu nome é o radical da palavra inglesa "January" que significa Janeiro (o mês que "olha" para os dois anos, o que passou e o novo ano).

A campanha para as presidenciais centra-se agora na personalidade dos dois principais candidatos e na comparação entre os manifestos que um e outro apresentaram. O que tenho lido e ouvido sobre o assunto trouxe-me à memória o deus romano Janus, um lado a olhar para trás, outro para a frente, num dilema permanente entre o que passou e o que o o futuro nos pode trazer.
Todo o discurso de Mário Soares evoca o passado, levanta fantasmas há muito arquivados na nossa memória colectiva, agita bandeiras contra a "direita revanchista" e "visões economicistas" contrapondo uma esquerda humanista, boazinha, "em busca do elo afectivo", único elixir capaz de "evitar a crispação política e a grande conflitualidade social". Com Mário Soares em Belém, garante o próprio, "os portugueses sabem que podem dormir tranquilos".
Cavaco Silva recusa firmemente o discurso paternalista do passado, agita as consciências, olha para a frente, identifica os problemas e apela à coragem, ao trabalho e à capacidade dos portugueses. Ele não vem tomar conta de ninguém, não reconhece terrores nem medos, não desculpa o nosso atraso - afirma a sua liderança num projecto de desenvolvimento que exige sacrificios que é necessário enfrentar para se poder vir a viver melhor.
Esta perspectiva é muito evidente na entrevista que Mário Mesquita, da Comissão Política de MS, dá ao "Expresso", onde acentua o maniqueísmo bons-esquerda;maus-direita, de uma forma muito original. De acordo com MMesquita, Sócrates tem um lado mau, "centrado numa certa visão financeira", que precisa de um papel moderador, sem o que desatará a fazer mal, qual Maquiavel, sem nunca chegar a fazer o bem. Ou seja, o "lado bom" de Sócrates só se revelará se MS for Presidente, graças ao interesse deste "pela sociedade e pelo mundo" e uma "sensibilidade social mais aguda" que serão o garante de que não se farão mais maldades aos portugueses, que o que precisam é que não os preocupem. Uma entrevista virada para o passado, receosa das ameaças do futuro, assumindo que os ímpetos socráticos, ainda que passageiros, devem ser neutralizados pela esquerda humanista e social...
O passado ou o futuro, os rostos de Janus, a escolha que teremos que fazer. Em Janeiro...

2 comentários:

Pinho Cardão disse...

Excelente análise, cara Susana.
Mas o que verdadeiramente me espanta é que, no Ano da Graça de 2005, ainda possamos ser metralhados pela prosa balofa, velha e bafienta de Mário Mesquita!...
Para evitar uma verdadeira conflitualidade social têm que se ir fazendo reformas, não pode ficar tudo como está...
As reformas obrigarão a algumas noites mal dormidas, é certo, mas evitarão os pesadelos que um continuado dormir tranquilo seguramente iria trazer!...
Diz bem a Susana que a entrevista de Mário Mesquita é virada para o passado.
É isso e é o eco de ideias ultrapassadas e mesmo reaccionárias.
Mas também está virada para o futuro...
É que Sócrates fica a saber o que o espera, se Soares fosse eleito...
Todavia, faltar-lhe-à, creio-o bem, o apoio do povo português.

Adriano Volframista disse...

Confesso que a história (ou será estória) da Carochinha sempre me deixou perplexo. Nunca compreendi como é que a menina podia "não ver" os dentes do lobo e "confundi-los" com os da avozinha.
O mesmo se passa com os acólitos do cidadão Mário Nobre Lopes Soares, o único problema é que querem contar a "estória" ao eleitorado; será que ele compra?
Penso que não, aliás,tenho para mim que nestas eleições se irá demonstrar e criar um novo conceito de política caseira: o pragmatismo do eleitorado. Se ele (Cavaco) ganha à primeira volta para quê uma segunda? Ou mais prosaicamente, o Soares já lá esteve, tem de dar lugar a outro! (Já ouvi esta versão em tons muito mais coloridos).
Podem ter razão, porque se não fôr a explicação do pragmatismo tenho alguma dificuldade em,usando as chaves tradicionais, explicar que , nas últimas legislativas, o eleitorado "deu" a maioria ao PS sem que:
O CDS/PP tenha sofrido com a governação conjunta;
A CDU não tenha perdido votos;
O BE ganho apoios substanciais e
a Abstenção tenha diminuído.
Não acham que o "pragmatismo" do eleitorado foi no sentido de:"vamos deixar o tipo governar".
Cumprimentos e parabéns pelo comentário

Adriano Volframista