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sábado, 22 de outubro de 2005

A Mochila

Há dias, estava eu numa fila de trânsito, comecei a observar as pessoas dentro dos carros à minha volta, para me distrair e assim arranjar o necessário suplemento de paciência para a demora. Ao meu lado estava um carro com uma família - pai, mãe, duas crianças. O que estranhei foi a quietude lá dentro, ninguém falava, os pais olhavam fixos para a fila interminável, os filhos nem se mexiam no banco de trás. Foi então que notei que, à frente dos olhos de cada menino, estava um pequeno écran preso nas costas de cada banco da frente, onde passavam imagens que os mantinham entretidos.
Li hoje numa revista (Courrier internacional) um extenso artigo chamado "O Fim da Televisão em Família" que nos anuncia uns novos televisores portáteis, uma coisa tão simples e prática que podemos levar na mochila para todo o lado. Nada mais simples, ao mínimo tédio, à mínima espera, é só tirar da mala e aí está com que nos entretermos sozinhos.
Esta nova era torna-se doentia no apelo à solidão, à absoluta falta de comunicação. E, o que é pior, torna as pessoas, desde pequenas, completamente dependentes da acção exterior, do programa da televisão, da música no rádio, do jogo de computador. Não é preciso encontrar com quem conversar, nem ter temas para discutir, nem fazer o esforço para se tornar interessante. O próprio não precisa e os outros também não sentem a falta. Fica-se a olhar para o écran e chega.
Fazer uma viagem em família devia ser uma oportunidade para se criarem formas de aproximação, quantas vezes lá vinha o jogo de quem é capaz de contar os carros azuis,(primeiro discutia-se a cor a escolher...) que forma tem aquela nuvem, já viste como as casas aqui são diferentes?, ou então as histórias intermináveis, até um cair de sono e o outro ficar a exigir mais imaginação. São laços que se criam, pequenas teias, lentas e exigentes como os afectos. A contrapartida é a formação de espíritos curiosos, atentos, com autonomia suficiente para não se deprimirem perante os vazios do tempo ou da insatisfação.
O silêncio daquele carro lembrou-me a saudável zaragata das viagens em família que hoje podemos recordar como momentos em que tinhamos forçosamente que dar espaço uns aos outros, nem que fosse negociar quem é que ia à janela. Se tivéssemos tido um écran para cada um, não havia partilha nenhuma, só o vazio de um momento igual a tantos outros que não acrescentaram nada.
Hoje podemos sair de casa com uma televisão na mochila, os bolsos cheios de telemóveis, os auscultadores na cabeça com a música só para nós, o computador portátil a pesar no braço. E a olhar para o relógio de forma neurótica, exasperados por o tempo demorar tanto a passar.
Os carros têm as mesmas pessoas, mas é como se fossem vazios.
O importante vai na mochila.

6 comentários:

cmonteiro disse...

Cara Suzana,

Também diziam o mesmo da Internet e aqui estamos nós a conviver, a trocar ideias, a debater. De uma forma diferente, mas estamos. O tempo se encarregará de arranjar alternativas, porque o bicho Homem é um animal comunitário e sociável (excepto o meu vizinho da porta da frente)

Salvador Massano Cardoso disse...

Não posso deixar de concordar com a análise da Suzana. Discordo no entanto com a afirmação final de que "o importante vai na mochila". O importante não vai na mochila! Nem lá cabe. Já agora coloquem o vizinho do cmonteiro dentro de uma mochila...

Suzana Toscano disse...

Caro cmonteiro, exactamente por o Homem ser um animal societário e sociável é que se levanta a questão de estarmos cada vez mais virados para dentro e incapazes de comunicar uns com os outros. Isso não tem nada que ver com o acesso quase infinito e instantâneo à informação e com a possibilidade de se contactar com uma infinidade de gente que não se conhece, como já acontecia com os jornais. Aí o espaço era limitado e o acesso também, mas o tipo de comunicação que se estabelece não é muito diferente. O que eu queria salientar era a questão da "dependência" do entretenimento exterior, cujo progresso é sempre no sentido de individualizar, tornar cada vez mais dispensável a acção dos outros ou para os outros.Será cómodo e tentador, claro, corresponde até à lei do menor esforço, mas falar na internet com quem não se conhece, por muito interessante que seja, poderá substituir ou equivaler a ir ao café com os amigos? Há um nível de comunicação que é superficial, ocupa mas não preenche e não obriga nenhuma das partes - talvez por isso tenha tanto sucesso; e há outro, a que me referia no texto, que é pessoal, implica interesse e compromisso, que se deve aprender de pequenino porque mais tarde é muito mais difícil. Não será por acaso que as doenças psicológicas estão em crescendo na Europa, onde a abundância e a qualidade de vida deveria ter o efeito contrário.
E,já agora, os blogs não serão já uma "terapia de substituição" das tertúlias, dos clubes, ou dos serões na casa de uns e de outros?

cmonteiro disse...

Cara Suzana,

Então agora não me conhece? A mim, o cmonteiro!?

:-)

Esta é uma prova que são apenas novas formas do mesmo de sempre: comunicar. Paralelismos pode encontrar sempre se procurar bem, porque no fundo tudo gira à volta do mesmo: pessoas a falar.

Existem registos de que na pré-história existiu esse receio quando um Neanderthal descobriu um giz e ocupou dias e dias ininterruptamente a desenhar sem falar com ninguém.

E trazendo para aqui um post do Blog do José Bandeira (bandeiraaovento.blogspot.com - vale a pena a visita)
"mais importante que saber se o Neaderthal falava, é saber se, falando, dizia alguma coisa de jeito"

Penso que deveria residir aqui a nossa principal preocupação.

Uma boa noite para si.

Suzana Toscano disse...

Caro cmonteiro,tenho muito prazer em conhecê-lo através do ciberespaço!a internet tem muitas vantagens e o seu "optimismo comunicacional" quase me tira os meus receios. Obrigada por isso e uma boa noite para si também!

Miguel Sousa disse...

em tempos o que nos preocupava era haver televisão aberta na hora da janta..hoje parece que isso já nem interessa e a caminhada para o "abismo" do inidivual parece não ter retrocesso...e a culpa não é só da evolução da tecnologia..todos nós temos a nossa cota parte. Famílias onde os pais não arranjam tempo para uma boa história, governantes que não regulam a comunicação social, com medo que estes não os apoiem nas próximas eleições, economistas que só conhecem a especulaçlçao como via de fazer dinheiro...enfim..que se espera distio?