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quarta-feira, 19 de outubro de 2005

A superioridade moral da esquerda

Isso existe? Existe e detecta-se a cada passo do discurso político identificado com alguns sectores da esquerda tradicional, partidária ou não.

Tem fundamento? Talvez não tenha, mas o que pretendo saber é o que o justifica.

O problema não é despiciendo: se atentarmos no tipo de campanha moralista do BE e os elementos centrais do seu discurso político, se recordarmos o fundamental do discurso do PCP (honestidade, transparência, competência, …) e da ala esquerda tradicional do PS (Alegre, Soares, etc.) com invocação repetida dos valores e da ética políticas, aceitaremos que uma certa “moral” ou “ética” da conduta política são cada vez mais invocados para marcar uma identidade de esquerda. Esse tipo de discurso é tão atractivo que o próprio PSD, na busca de uma “credibilidade” supostamente perdida e com o objectivo de recuperar alguns estratos sociais identificados com o centro-esquerda, tem vindo também a invocar certos valores morais como orientadores da sua conduta política.

Mas qual a origem dessa expressão de uma “identidade moral” da esquerda?

  1. Em primeiro lugar, do seu idealismo. A esquerda de há muito que pretende passar a tese de que se move por ideais e por utopias, enquanto a direita tende a orientar-se por interesses, por uma visão pragmática da política e pelo exercício do poder como expressão da dominância de classe.
  2. Em segundo lugar, por uma “fé” num progresso teleológico, supostamente sustentado pela ciência. É esta “fé” que os faz sentir “do lado da história”, que mais tarde ou mais cedo lhes “dará razão”. Para a esquerda, a direita limita-se a resistir e a adaptar-se ao sentido da história, a esquerda “faz” a história: uns ainda raciocinam na lógica da luta de classes, outros pelo que designam de “dinâmica dos movimentos sociais”, outros ainda pelo aprofundamento das “liberdades”, da “cidadania” e da educação como instância privilegiada da formação do “homem novo” e de uma sociedade sem desigualdades sociais. A esquerda de há muito que adoptou o “progressismo” liberal do século XIX, tornando-o um referencial a que chama seu.
  3. Em terceiro lugar, porque se julgam representantes tutelares dos mais fracos, dos explorados, dos mais pobres, das minorias e dos que sofrem. Neste domínio, a esquerda não prescinde do “social” como alicerce da sua identidade. A função do Estado tende a identificar-se com o mito “Robin Hood”, tirar aos ricos para dar aos pobres, de forma a concretizar a “engenharia social” conducente ao “fim da história”.
  4. Em quarto lugar, porque é anti-capitalista, sistema que considera corrupto, degenerescente, injusto e opressor, numa palavra, “imoral”. A direita é assim intérprete dessa “imoralidade” a que se juntam “esquerdistas” convertidos, geralmente designados por “neo-liberais”.
  5. Em quinto lugar, mais do que laica, essa esquerda tende a ser “jacobina”, continua a pensar que a “religião é o ópio do povo” e que a Igreja é um dos instrumentos fundamentais da dominação burguesa.
  6. Por fim, sem esgotar uma lista que poderá ser mais longa, a esquerda tende a assumir-se como “culturalista”, o que não deixa de constituir uma prática de identidade e distinção face a uma direita considerada inculta, trauliteira e tradicionalista.

Estes são os mitos que sustentam a chamada “superioridade moral da esquerda”, os quais acabam por ter um efeito reprodutor dessa particular maneira de pensar a sociedade. Manuel Villaverde Cabral escrevia há uns anos que se é “antropologicamente de esquerda”, ou seja, que essa identidade vai muito para além da adesão ideológica racional e tende a estruturar-se em torno de práticas sociais e “culturas” próprias. Não negando a ideia de MVC, cada vez mais a esquerda, depois da queda do Muro de Berlim, tende a exacerbar a sua dimensão moral e a esgrimi-la no combate político. Por isso terá mais sentido dizer, que se é "moralmente de esquerda" o que revela bem a limitação dos seus próprios argumentos.

Deixo o resto para os comentários.

5 comentários:

portugal da silva disse...

Repare, meu caro, essa dicotomia esquerda/direita está ultrapassada!
Investir tempo de reflexão nela é pura perda de tempo.
E perda de oportunidade de termos espíritos cultos a contribuirem para soluções políticas que olhem p'ra frente...

Tonibler disse...

Bem, a esquerda tem que diferenciar-se da direita de qualquer forma. Como diz o meu camarada cmonteiro, no fundo somos todos 'canhotos'. Aos poucos, todos os partidos vão seguir o caminho do BE, todos vão defender bandeiras morais. Porque, infelizmente para os partidos, não há duas medidas certas diferentes. Uma é certa e outra é errada.
Ao fim do dia, teremos os morais e os amorais que, de certa forma já temos hoje, os morais dos extremos e os amorais do centro.

Pinho Cardão disse...

Caro David Justino:
Foi um bom esforço esse, o de sintetizar os falaciosos argumentos dos que sustentam essa tal "superioridade".
Falaciosos, porque tomando como irrefutáveis "qualidades" não provadas,que atribuem à esquerda, negam-nas à direita!..
Tudo isto não passa de slogans, sem qualquer significado.
Ainda ontem folheava uma publicação do BCP, onde se justificava a sua nova campanha publicitária, com base no P. Abrunhosa e no slogan "Eu estou aqui!..."
Segundo a Agência de publicidade, este slogan visa "mostrar uma personagem que está sempre presente nos momentos decisivos da vida de alguém, criando um paralelismo entre o papel do Banco no dia-a-dia das pessoas e o papel de uma pessoa na vida de outra".
Muito bem, mas isto pode dizer-se de qualquer Banco que se preze, não é exclusivo do BCP.
Mas a publicidade tende a tornar essa imagem "exclusiva" do Banco BCP.
De igual forma, também a "nomenklatura" cultural, com amplo acesso à comunicação social, tem vindo sistematicamente a reproduzir o slogan da "superioridade moral da esquerda".
A forma de vender o produto e de convencer as pessoas é a mesma: repetir, repetir, repetir!...
Só uma mudança cultural profunda, de que o país bem necessita,pode tornar as pessoas mais críticas e, portanto, insensíveis,a absurdos como o desse slogan!...

David Justino disse...

Um comentário a Portugal da Silva:
a dicotomia esquerda-direita só está ultrapassada ao centro e, mesmo assim, apenas disfarçada. Quer queiramos ou não ela existe e não vale a pena negá-la. Que essa dicotomia se revela menos importante na acção política, poderei aceitar. Mas ela continua a existir no domínio das representações, das culturas e na forma como cada força política cria a sua identidade. Enquanto as sociedades democráticas assentarem o seu funcionamento nas organizações partidárias, existirá sempre esquerda e direita.
Meu caro Portugal da Silva indique-me, por favor, uma sociedade democrática onde essa distinção não exista.
Cumprimentos

O Reformista disse...

Prof. David Justino.

Excelente a racionalização daquilo que todos sentimos.

Em Portugal para se ganhar as eleições é preciso uma de duas coisas : Ser de esquerda (e para isto, por muito burguês que se seja, basta ser do PS- Soares, Guterres, Sampaio, Socrates)ou, ainda mais importante, ter origens humildes (Eanes e Cavaco)

Só nas alturas de crise as pessoas correm a abrigar-se na segurança do chapéu de chuva do patrão (Sá Carneiro, Durão Barroso). Note-se que a AD de Sá Carneiro esteve lonje da maioria absoluta dos votos.

É por isto que eu penso que Marques Mendes apesar da sua baixa estatura fisica, e para lá das muitas qualidades políticas, verdadeiramente profissionais que tem , terá neste momento maiores possibilidades de sucesso junto do eleitorado que por exemplo António Borges. É que um tem uma aparência "popular" e o outro parece ser um simbolo do elitismo.
Note-se que não se está a dizer quem seria melhor Primeiro Ministro nem que as circunstâncias sociais de cada são absolutamente determinantes. Está-se apenas a valorizar quem tem mais hipóteses elitorais sob o prisma deste tema.

Finalmente há ainda um determinado tipo que não sendo de direita ou de origem popular pode ter sucesso. É o do caciquismo populista e demagógico que retoma a ideia (e os reflexos condicionados)do Senhor que zela pelo bem estar das suas gentes (Fátima Felgueiras)