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terça-feira, 31 de maio de 2005

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A Comissão Europeia publicou hoje o valor actualizado do Indicador Mensal do Clima Económico (“Business Climate Indicator”) que regista a quarta quebra consecutiva das expectativas dos consumidores e produtores europeus. Este indicador antecipa de forma muito rigorosa os índices de actividade económica e revela a configuração dos respectivos ciclos. Conclusão: o melhor é esquecer qualquer retoma sensível para os próximos tempos. Depois de uma ligeira e tímida (mas visível!) recuperação registada entre a Primavera de 2003 e o Verão de 2004, a tendência inverteu-se e tende a consolidar-se com o NÃO francês e a anunciada queda do SPD alemão que o índice ainda não reflecte. Imaginem agora o que representa um aumento significativo de impostos num clima que é claramente recessivo.
Máxima popular dirigida ao Governo e ao PS: “pela boca morre o peixe!” que tanto criticou a política pró-cíclica de Manuela Ferreira Leite e agora vai ter de fazer o mesmo ou, o que é mais provável, pior.

Anestesia total

Portugal está um país anestesiado e já nem sequer se indigna!...
É óbvio que a primeira medida,para não dizer a única, com vista a começar a resolver a questão do défice devia ser a diminuição da despesa do Estado.
Ora em 2005, e segundo o próprio Ministro das Finanças, não haverá qualquer redução: disse-o numa entrevista à Rádio Renascença, em que confirmou que a redução do défice de 6,83% para 6,2% se deve “ essencialmente à receita dos impostos”.
Por mim, indigno-me.
E não só contra o Governo, mas também contra os Economistas bem pensantes, que sistematicamente vinham admitindo a necessidade de subir impostos.
O Governo encontrou uma boa justificação: a opinião dos Economistas!...
E tão boa, que até se dispensou de cortar na sua despesa, optando por cortar nos rendimentos dos cidadãos e das empresas!...
Qual a lógica de transferir mais dinheiro para o Estado?
Só vejo uma: fazer com que o Estado gaste mais!...
Como a cultura vigente estabeleceu que a despesa é sagrada, os Economistas que defendem a diminuição de impostos, por razões de crescimento económico, mas também para o Estado gastar menos, são Economistas mal pensantes!...
Foram eles ouvidos por algum órgão da comunicação social, dos que são pagos por todos? Esta é a nossa maldição, a de não ser possível uma nova "cultura"!
Por isso, o verdadeiro “défice” é o défice cultural que consegue justificar uma despesa pública igual a metade do PIB e um país por desenvolver!...
Onde está o bom senso?

Torre de Babel

Sempre me impressionou muito o episódio da Torre de Babel e o modo como a incapacidade de falarem uma língua comum pôs termo à ambição dos homens construirem uma torre que chegasse ao céu. Continuamos, persistentemente, a tentar construir torres que nos conduzam ao Paraíso (ou ao poder?) mas o obstáculo de encontrar uma linuagem que nos una continua intransponível.
A construção de uma Europa mais e mais alargada, com princípios de bem estar e de desenvolvimento social cada vez mais inclusivos, é um sonho de que não podemos desistir, mas a língua que julgámos comum já quase não é entendida por ninguém - sobram algumas palavras que já não encontram eco em muitos que se sentiram confiantes e e os discursos que se ouvem são já tão estilizados que não se apreende o sentido.
Por coincidências da vida profissional, estive estes últimos dias em Paris e pude assistir "ao vivo" ao ambiente que rodeou este referendo, uma espécie de "detonador" de um descontentamento latente, uma espécie de raiva surda que esconde a impotência ou o medo. Impotência para mudar e, em simultâneo, conservar o que se tem. Medo de ter que avançar sem saber ao certo se o futuro é esperança ou desespero. Os debates a que assisti, alguns muito interessantes e com pessoas muito bem informadas, mostram bem como é complexa a encruzilhada em que nos encontramos e o esforço imenso que será necessário para progredir num caminho comum. Será que, como conta uma história índia, andámos depressa demais e o nosso espírito ficou para trás? Ou estaremos condenados a desistir de uma língua comum e abandonar a ambição que nos movia?

segunda-feira, 30 de maio de 2005

"A Liturgia do Sangue"


.......................................................................
Ó deus do sangue! deus de misericórdia!
Ó deus das virgens loucas
Dos amantes com cio,
Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas,
Unge os nossos cabelos com o teu desvario!
Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,
Fustiga-nos os membros como um látego doido,
Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,
Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.
Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,
Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,
Atapeta de flores a estrada que seguimos
E carrega de aromas a brisa que nos toca.
Nus e esnsaguentados dançaremos a glória
Dos nossos esponsais eternos com o estio
e coroados de apupos teremos a vitória
De nos rirmos do mundo num leito vazio.

Ary dos Santos, A Liturgia do Sangue, Lisboa, 1963.

O NÃO francês e o futuro da Europa

Se tivesse que resumir numa pequena ideia o que se retira do que aconteceu ontem em França, diria que o modo e o ritmo a que se construiu a União dos Estados não pode ser o mesmo a que pretende construir a Europa dos Cidadãos.
Não importa se o que motivou o voto maioritário do Não terão sido outras razões que não as do projecto europeu expresso no Tratado. Não importa especular sobre o papel do Governo francês ou o da Comissão Europeia no empolamento dos descontentes. Importa tão só reconhecer que este não é o tempo, nem o modo para dar mais um passo decisivo na construção europeia.
O sistema de estados europeu tem as suas raízes na Idade Média, afirmou-se decisivamente no século XVI com o falhanço das ambições europeias de Carlos V e consolidou-se com os movimentos nacionalistas do século XIX e XX. Todas as tentativas de construção de uma Europa Unida impostas de cima para baixo, ora através das armas ora de uniões dinásticas, falharam. O que o actual processo de ratificação do TCE representa, desde já, é o anunciado insucesso de uma solução que se pretendia democrática, mas que potencia, pela sua natureza, o risco de dominação burocrática. Tal como as anteriores, de cima para baixo.
Estamos muito longe de concretizar a Europa do mercado único – as reacções proteccionistas à directiva dos serviços ou à salvaguarda do esclerosado modelo social são disso atestado – e muito mais longe estamos da Europa dos Cidadãos. Há uma enorme margem de progressão no actual quadro institucional.
Os calendários definidos quando não se antevia a profunda e prolongada crise em que estão mergulhados alguns dos países europeus e o próprio modelo de desenvolvimento das últimas décadas, subestimaram o potencial de contestação e de reacção. Não querer perceber esta realidade e tentar fugir em frente, poderá, aí sim, constituir um desastre irrecuperável.
É esta mesma reflexão que deveria orientar a estratégia referendária do PS e do PSD. Querer forçar a simultaneidade com as autárquicas é um erro grave que enferma do mesmo autismo e arrogância, agora derrotados em França.

A arrogância em todo o seu esplendor

É por estas e por outras que cada vez mais se avoluma o número dos que desconfiam da bondade desta constituição europeia.
A arrogância no seu melhor!

domingo, 29 de maio de 2005

Áreas Protegidas - VII - Parque Natural da Arrábida



"Os olhos meus dali dependurados,
pergunto ao mar, às plantas, aos penedos,
como, quando, porquê foram criados"
Frei Agostinho da Cruz

É Reserva Biogenética assim classificada pelo Conselho da Europa.
Sítio da Rede Natura 2000.
Nasceu no papel em 28 de Julho de 1976, pelo Decreto-lei nº 622. E tem, como nenhuma outra área protegida, vivido sob o signo da constante polémica. A Arrábida constitui o laboratório de todos os conflitos de interesses que a conservação da natureza e da biodiversidade inevitavelmente suscitam. Mas a Arrábida tem sido o paradigma da hipocrisia. Passaram a "amá-la" subitamente muitos dos que, por razões de pura defesa da fazenda pessoal mas também por razões de conveniência política, têm empunhado as bandeiras do ambientalmente correcto. À sombra dessas bandeiras se têm protegido e defendido interesses que nada têm que ver com os que justificaram a criação do Parque.
Os episódios - alguns recentes - acerca da protecção ambiental da Serra da Arrábida e sobre estes eco-amores subitamente declarados, constituem testemunho do que tem sido o ambientalismo em Portugal. Mote excelente de investigação se alguém seriamente estivesse interessado em fazer a análise da história da conservação da natureza em Portugal nos últimos anos.
A este assunto e a propósito do Parque Natural da Arrábida (que até viu nascer associações ambientalistas para defesa de edificado clandestino!), voltarei - talvez - um dia, embora suspeite que o espaço de um blog não sobrará...
Até à aprovação do Plano de Ordenamento, o Parque continua a abranger uma área de mais de 16500 ha, nos Concelhos de Setubal, Sesimbra e Palmela, dos quais 5700 do domínio marítimo, esperando-se a (já tardia) efectiva criação do Parque Marinho Professor Luiz Saldanha onde está recenseada numerosa flora e fauna marinhas de elevado valor conservacionista.
A parte terrestre do Parque estende-se pelo momumental maçico calcário, coberto por significativas associações floristicas mediterrâneas, com especial relevo para o maquis e a garrigue. Algumas espécies da fauna, igualmente de relevo, marcam ali presença.
Como sempre ali marcou presença o Homem. O Parque é também o resultado da ocupação humana, e a sua importância deriva dos sinais passados e actuais dessa presença. Testemunhos de épocas muito remotas como são os imensos vestígios pré-históricos; ou mais próximas dos nossos dias, como é o caso do misterioso Convento da Arrábida, dependurado numa das encostas sobre o mar.
Mas é também o repositório de culturas, de actividades e de produtos tradicionais como o moscatel de Setúbal ou o queijo de Azeitão.
Do topo da Serra do Risco que abruptamente se precipita 400 metros sobre o mar, olhando a paisagem, entende-se a interrogação de Frei Agostinho da Cruz...

Cebolas




São cebolas? São! Fazem bem, mas também fazem chorar.
A vida tem muitas "cebolas"...




sábado, 28 de maio de 2005

Gota de Água


Foto de Rui Vieira

Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
as lágrimas são minhas
mas o choro não é meu.

António Gedeão

“Contentores hospitalares vão transbordar de crianças mortas”…

Não consigo compreender como é que algumas pessoas com responsabilidades sociais e religiosas são capazes de afirmações tão baixas a tocar a própria obscenidade. Recentemente, três autoridades religiosas vieram a terreiro de uma forma pouco consentânea com o seu estatuto. Um a ameaçar a torto e a direito, através de anúncio, as pessoas que apoiassem o aborto ou que utilizassem práticas contraceptivas. Outro, a fazer afirmações sobre o valor da vida humana, hierarquizando-a em função do momento em que se encontra, com prioridade para os embriões! Agora vem um terceiro a afirmar que, fruto das legislações, irão ocorrer abortos aos milhões e que os contentores hospitalares vão transbordar de crianças (é verdade, disse crianças) mortas e corpos esquartejados de bebés, lançados em lixeiras. Mas que loucura, meu Deus! Será que estamos perante um caso de insanidade? Será que os médicos são animais ou carrascos e os hospitais matadouros?
Há uma corrente de fundamentalismo religioso traduzida pelo comportamento de alguns responsáveis. É certo que a proporção de mentecaptos, perversos, loucos, desonestos, entre outros aspectos menos positivos, é uma constante em todas as classes e grupos profissionais. Mas há classes que, pelas suas elevadíssimas responsabilidades sociais, deviam ter mais tento na língua e comportarem-se à altura do seu ministério. No mínimo o que posso afirmar é que estamos perante uma baixeza ofensiva da dignidade dos seres humanos.
Compreendo que hajam correntes que se oponham a certos comportamentos. É legítimo e é de respeitar, desde que se comportem com elevação.
Relativamente ao assunto do aborto, chamo a atenção, apenas, para o seguinte pormenor: pratica-se aos milhares entre nós, infelizmente, reconheço. Conheço muitas mulheres que o praticaram. Muitas, mesmo. Os médicos são depositários de segredos muito importantes. Que me lembre, todas, sem excepção, são mulheres extraordinárias, muitas, católicas praticantes, socialmente influentes, maternalmente competentes, femininas, respeitadoras e consideradas nos diferentes empregos. Não me compete apregoar o quer que seja, em termos morais, ao comportamento e motivo das senhoras. Nada. Recordo-me das palavras de um eminente escritor norte-americano sobre os médicos. Aos médicos não compete apregoar qualquer tipo de moral, mas sim dar a absolvição a todos quantos os procuram.
Para mim, as senhoras que me confiaram os seus segredos, merecem o máximo respeito e consideração.
Escrevo este pequeno desabafo, porque o que tem sido dito é uma ofensa para muitas mulheres. São dignas. Pelo menos aos meus olhos.

Concurso de Professores

Um dos comentários feitos ao meu “post” anterior pede-me que esclareça a minha posição face à notícia do custo adicional de 20 milhões de euros que resultou dos erros do concurso de professores. Tenho por hábito apenas comentar o que sei e conheço, reservando qualquer tomada de posição sobre o que desconheço, no todo ou em parte. Eu sei que há muita gente que tem por hábito “achar”, dar opinião sobre o que sabe e o que não sabe. Eu não tenho esse hábito.
Continuo a aguardar a publicação do relatório da Comissão de Inquérito sobre o apuramento de responsabilidades no processo de concurso de professores para o ano lectivo de 2004-2005. Esta comissão, pela composição e forma como foi constituída dá-me garantias de isenção e rigor. A conclusão do seu trabalho foi assinalada pela emissão de um comunicado da então Ministra da Educação em que de forma sintética anuncia a abertura de procedimento disciplinar para um conjunto não identificado de altos funcionários do ME. Admito que o sigilo necessário ao seguimento do processo se justifica. Mas não se justifica que o cidadão comum continue sem ter conhecimento de quais as causas, os erros e as responsabilidades que cabe a cada um. A não publicação do relatório até ao presente tem como efeito que se continue a especular sobre o que não se sabe e a lançar a suspeição sobre todos os envolvidos no processo.
Convém lembrar que a elaboração deste relatório da Comissão de Inquérito foi precedida de um outro relatório elaborado pela Inspecção Geral de Finanças que em auditoria feita ao processo, iliba completamente a equipa ministerial de responsabilidades no sucedido e identifica claramente outras responsabilidades apuradas.
Mas há algo mais que eu sei. Sei que os erros de colocação não têm nada a ver com os erros de seriação (essa sim da responsabilidade da minha equipa, logo minha, mas devidamente rectificados nas listas publicadas em meados de Junho). Sei igualmente que a decisão de contratar os professores indevidamente colocados, gerando um número imprevisto de “horários zero”, foi tecnicamente errada, mas não foi da minha responsabilidade.
Sei também que houve uma preocupação generalizada de responsabilizar a minha equipa e a mim, pelo que fiz e pelo que não fiz. Por isso julgo indispensável a publicação do relatório da Comissão para que de uma vez por todas se esclareça quem é responsável por quê. Sempre lutei por esse esclarecimento, mas pelos vistos, há quem não queira esclarecer e ser esclarecido.

Há mais duas coisas que eu sei. Que um membro da equipa que me sucedeu assumiu publicamente, perante as câmaras da televisão, por finais de Agosto passado, que a responsabilidade da equipa anterior cessava com a publicação das listas definitivas de graduação e ordenação. O que é correcto e merece reconhecimento pela honestidade revelada. Mas nessa altura todos esperavam que tudo corresse bem. Como não correu, tratou-se de arranjar culpados fora.
Por último, tenho já conhecimento de uma descrição detalhadíssima e rigorosa de todo o processo que será tornada pública na próxima segunda-feira pelo Dr. Abílio Morgado, através do um livro-testemunho de grande interesse e qualidade. Quero manifestar publicamente que me identifico com o fundamental das ideias expressas e subscrevo por inteiro a parte respeitante ao processo do concurso de professores.

O verdadeiro deficit



Entretidos com as comuns histerias dos nossos deficits e com a pequenez da nossa política, passa-nos ao lado a dimensão de outros deficits bem mais dolorosos.
O primeiro post deste blog foi fruto de um impulso motivado pelo choque provocado pelo trabalho de crianças sem infância que testemunhei em pleno centro de Nova Deli.
No Brasil são 12 milhões as crianças que trabalham. Mais do que toda a população portuguesa.
Eis o retrato feito in consciencia.net:
"Entre os trabalhadores infantis, 7,5 milhões têm entre 10 e 14 anos e 4,5 milhões entre 14 e 17 anos. A exploração é tão grande que 57,8% não recebem nada pelo seu trabalho. Segundo divulgação recente do IBGE, meio milhão de crianças entre 5 e 9 anos trabalham no Brasil. Dessas, 92,2% trabalham de graça e são submetidas a uma jornada de 40 horas semanais, sem condições de frequentar a escola".

Fascismo fiscal

Retirei do Correio da Manhã o seguinte excerto a propósito do fim do sigilo ( e não "sígilo" como vem na notícia) fiscal:

Assim, qualquer cidadão poderá ficar a conhecer quanto é que o seu vizinho ou colega de trabalho ganha por ano, basta para tanto consultar a ‘net’ e verificar se os seus rendimentos dão para pagar o carro de luxo e a casa de campo...

Em entrevista ao ‘Jornal da Noite’ da SIC, Campos e Cunha destacou esta medida – a abertura do sígilo fiscal – do conjunto das medidas de combate à fraude e evasão fiscais. Através desse método, disse o ministro, “será conhecido o rendimento bruto de cada cidadão e a partir daí as pessoas podem ver se aquilo que ele declara para os impostos está em conformidade com o nível de vida que ele tem. Se ele tem, por exemplo, carros de luxo e depois declara salário mínimo”.

Já imaginaram no que isto poderá descambar? Eu sei o que representa a "transparência" dos cargos políticos, sei o que representa ter a vida privada completamente vasculhada por jornalistas curiosos e ávidos de encher colunas de jornal. Era a última coisa que eu desejaria para o cidadão comum do meu país. Porque isto é fascismo fiscal e só revela a incapacidade e incompetência do Estado em fiscalizar os rendimentos dos contribuintes.

Porque não recorrem aos registos públicos de muitos sinais exteriores de riqueza? Para que servem então o levantamento do sigilo bancário ou os registos das conservatórias?

A Esperança


A Esperança (do Tríptico A Vida) de António Carneiro, 1872-1930
Fundação Cupertino de Miranda
Vila Nova de Famalicão, Portugal
“A esperança adquire-se. Chega-se à esperança através da verdade, pagando o preço de repetidos esforços e de uma longa paciência. Para encontrar a esperança é necessário ir além do desespero. Quando chegamos ao fim da noite, encontramos a aurora.”
(Georges Bernanos)

sexta-feira, 27 de maio de 2005

Últimas sondagens...

...sobre os referendos em França e na Holanda à denominada constituição europeia, no Margens de Erro, de Pedro Magalhães. Tendência consistente para o NÃO.

Esperança


Irish hope
Esta rosa tem o sugestivo nome "Irish hope".
Alguém consegue encontrar a "Esperança portuguesa"?

Não sejam cínicos!

É no mínimo ridículo e tradutor de uma ausência de verdadeiro sentido de estado, o Governo justificar o aumento do imposto do tabaco para colmatar o défice do Serviço Nacional de Saúde. Será que os governantes desconhecem que o tabaco é um dos principais factores de morbilidade e mortalidade? Desconhecem que uma das causas do tal défice tem a ver, precisamente, com o consumo do tabaco? A melhor maneira de ajudar o défice neste sector é combatendo o mesmo. Espero, com toda a sinceridade, que o aumento do imposto contribua para a redução significativa dos fumadores em Portugal. E que seja mesmo muito significativa, a ponto de ser acompanhada, naturalmente, de uma redução substancial das receitas do imposto. É que assim fosse, os lucros seriam substanciais! Estamos perante um bom exemplo de uma má justificação. Querem dinheiro, não querem? Sendo assim, porque é que dão estas justificações sem sentido?
Não sejam cínicos!

quinta-feira, 26 de maio de 2005

O Basilisco


Basilisco

O rei das serpentes que afugentava todos os seres inclusive as próprias cobras. Queimava tudo e o simples olhar matava qualquer um. Aqueles que iam à sua caça usavam um espelho, já que o olhar da sua imagem reflectida era a única forma de o matar.
De acordo com o ditado, “tudo tem o seu inimigo”, também o basilisco tinha o seu: a doninha, que além de não se intimidar chegava a lutar. Para tratar as suas feridas tinha que socorrer da única planta que não fazia murchar: a arruda.
Na obra “Ricardo III”, de Shakespeare, Lady Ana responde ao galanteio de Ricardo acerca de seus olhos, da seguinte maneira: "Fossem eles os do basilisco, para te ferir de morte!"

Serenata de Belisa



Por las orillas del río
se está la noche mojando
en los pechos de Lolita
se mueren de amor los ramos.

Se mueren de amor los ramos!

La noche canta desnuda
sobre los puentes de marzo.
Belisa lava su cuerpo
con agua salobre y nardos.

Se mueren de amor los ramos!

La noche de anís y plata
relumbra por los tejados.
Playas de arroyos y espejos
anís de tus muslos blancos.

Se mueren de amor los ramos!

Frederico García Lorca

Limites

Passo os olhos pela catadupa de opiniões sobre as medidas para enfrentar a "surpresa" deste déficit.
Recordo os tempos em que o PS na oposição criticava o clima de depressão, os estímulos negativos lançados sobre o mercado e a crise de confiança instalada nos investidores.
Interrogo-me se em Portugal, hic et hoc, ainda haverá por aí alguém com vontade de criar riqueza...

Notas sobre o debate parlamentar – 8

Para que não fiquem dúvidas sobre o conteúdo das Notas 1 e 6, recorro à edição do Público de hoje para precisar a declarações de José Sócrates: “[O défice público português] será muito acima dos 5% e próximo dos 6%”. Entrevista a Judite de Sousa, RTP1, dia 4 de Abril de 2005. Se assim era a proporção da surpresa não terá ido além de 0,8% a qual é facilmente justificada pelas revisões em baixa do crescimento económico e pela auscultação das previsões da despesa por Ministério. Para este valor nem vale a pena falarmos das cativações.

Etat modeste, Etat moderne...

…assim se chama um livro editado em 1987.
Reflecte sobre a realidade do Estado francês sem se eximir à comparação com outras realidades, e é da autoria de Michel Crozier (por muitos considerado o pai da sociologia das organizações em França), edição da Fayard.
Por estes dias lembrei-me dele e fui recolhê-lo da estante onde repousava desde um longínquo trabalho académico para o qual serviu de preciosa inspiração.
Apesar de terem passado 18 anos sobre o diagnóstico nele feito, as ideias e proposições parecem manter-se particularmente actuais e acertivas.

“La conquête de modernité que será le passage à l´Etat modeste ne pourra s´accomplir que si nous réussissons parallèlement à remener la politique elle-même à la modestie. Un État modeste, respectueux des citoyens au service desquels il accepte d´ouvrer, supose en effet une politique modeste qui ne prétende ni changer la vie, ni même fonder à nouveau la société.
Malheureusement, l´ambition de modestie, même si elle répond au désir des citoyens, paraît naïve et utopique dès qu´on la formule de façon positive.
Convertir au bon sens un État arrogante et une politique mégalomane ne serait possible qu´au prix d´immenses efforts. Or quelles chances autait-on de rassembler les énergies nécessaires à de tels efforts quand le but proposé semble si trivial?”

Sindroma pós-traumático

Estou mesmo preocupado com a actual situação. Compreendo que devem ser tomadas medidas concretas e mesmo radicais. Faltam ainda tantas! No entanto, confesso que tenho uma certa dificuldade em compreender o discurso dos actuais governantes. Tive a oportunidade de conviver com tão distintas personalidades na Assembleia na última legislatura. Mas agora começo a temer pela minha saúde mental. Será que são os mesmos? Mudaram assim tanto? O discurso que ouvia não se sobrepõe ao actual. Às tantas sou eu que estou a perder qualidades. Devo estar a sofrer de qualquer síndroma pós-traumático provocado pela anterior oposição socialista!

quarta-feira, 25 de maio de 2005

No Japão, o Sr. Presidente de todos os Portugueses, falando do défice, apelou a um despertar colectivo!...
É mais um despertar tardio do Sr. Presidente que, há uns tempos atrás, desconsiderava as medidas para combater o défice, dizendo que havia vida para além do dito!...
Tivesse ele apoiado essas medidas com todo o seu poder institucional e as coisas não estariam como estão.
O que é que entretanto mudou? Foi o Governo, antes apoiado por uns portugueses e agora apoiado por outros, estes últimos porventura mais do agrado do Sr. Presidente.

Notas sobre o debate parlamentar – 7

Primeiro-ministro: “O aumento do IVA é um IVA social que ficará afecto à Segurança Social e à Caixa Nacional de Pensões”. Voltámos à consignação das receitas? O problema está em saber se o acréscimo da receita se adiciona às transferências já existentes ou se as substitui. Entre uma e outra hipótese há uma diferença considerável. Estamos perante uma operação de cosmética orçamental, só para que não se diga que o Governo não tem preocupações sociais.

Debate com o 1º Ministro

Creio que o Eng. José Sócrates perdeu uma grande oportunidade para se afirmar como Estadista.
Com a despesa pública a rondar os 50% do PIB, o que devia afirmar era a necessidade e urgência de a diminuir e o que devia salientar é que essa diminuição é um bem em si. Devia justificar a diminuição pela positiva.
Ao contrário, veio a justificar a diminuição pela negativa e pelos erros alheios e, no fim, ainda veio a entoar loas à despesa do Estado!...
O 1º Ministro não age por convicção, mas por necessidade, o que é mau.
Por outro lado, aumenta os impostos, o que dá mais uma folga à manutenção da despesa pública em nível elevado.
E não usou uma argumentação séria, ao evocar o Governo anterior.
A Drª Manuela Ferreira Leite tinha que apresentar resultados imediatos, por força do PEC: daí o recurso aos impostos.
Sócrates tem um período mais largo, por força da revisão desse mesmo PEC: devia actuar sobre a despesa e não chamar mais impostos.
Mais impostos é um travão ao crescimento, um castigo para os cumpridores e um prémio para quem não paga!...
Riem-se os donos das 153000 empresas que nunca pagaram um cêntimo para o fisco, o milhão e cem mil agentes económicos que produzem uma colecta média inferior a 80 euros e riem-se os 588.000 empresários em nome individual ou profissionais liberais que geram uma colecta média inferior a 190 euros.
Riem-se pela simples razão de que nunca sustentaram os gastos do Estado ou para a sua cobertura contribuem apenas simbolicamente.
E riem-se, porque ficam mais à vontade para distorcer a concorrência, já que os cumpridores continuarão a pagar. Até quando?

Notas sobre o debate parlamentar – 6

Estou a ouvir Francisco Louçã e recordo-me o que escrevi na Nota – 1. Está, implicitamente, a chamar mentiroso a José Sócrates, ao lembrá-lo do conhecimento que tinha do deficit (qualquer pessoa atenta e conhecedora da matéria sabia que ele andava, pelo menos pelos 6%) aquando da campanha eleitoral e da promessa de não aumentar o IVA. Na “mouche”!

Notas sobre o debate parlamentar – 5

O PSD deveria assumir claramente o apoio, de princípio, a todas as medidas de contenção da despesa e a rejeição de qualquer aumento dos impostos. Estou convencido que, se alguma melhoria financeira se obtiver, ela vai ser obtida à custa das receitas e pouco, muito pouco, à custa da redução da despesa. A consequência é evidente: menor crescimento económico e maior desemprego.

Notas sobre o debate parlamentar – 4

A proposta de Marques Mendes de um plano plurianual com objectivos e metas para as contas públicas não tem qualquer sentido. Esse mecanismo já existe e chama-se PEC (Plano de Estabilidade e Crescimento) que se sujeita regularmente a Bruxelas e passa pela AR. O que é urgente é um compromisso relativamente a medidas a tomar, ministério a ministério, sector a sector, visando a redução da despesa. Apostar em metas e não esclarecer as medidas necessárias para as atingir, é trabalho inglório.

Notas sobre o debate parlamentar – 3

Marques Mendes detectou bem o silêncio de José Sócrates sobre as SCUT’s. É impensável adoptar as medidas de contenção da despesa que foram anunciadas e manter o princípio do “utilizador não pagador”, mesmo como incentivo ao desenvolvimento de regiões mais carenciadas. A situação do país não se compadece com este tipo de políticas que introduzem mecanismos de discriminação insustentáveis.

Notas sobre o debate parlamentar – 2

Não ficou clara a medida de suspensão das “progressões automáticas”, sem prejuízo “das promoções baseadas no mérito e competência dos funcionários públicos”. Esta questão é complexa. Na administração pública não há, tecnicamente falando, progressões automáticas. Mesmo no caso das progressões nas carreiras dos professores do ensino básico e secundário e das educadoras de infância, não há progressões automáticas. Estão sujeitas ao respeito de critérios definidos pela lei. Se assim for, a medida é claramente inócua. Ou a medida é extensiva a todas as progressões ou não é exequível. Mesmo assim, não se trata de “suspensão” ou “congelamento”, antes a não contabilização do tempo (1 ou 2 anos, por exemplo) para efeitos de admissão a concurso ou processo administrativo conducente a progressão.

Em todas as situações trata-se sempre de uma medida transitória que não resolve o problema da despesa pública.

Notas sobre o debate parlamentar – 1

A grande preocupação de José Sócrates foi a de convencer quem o ouvisse de que a situação financeira é pior do que o estimado há alguns meses atrás. Era este o ponto fraco do Primeiro-ministro: durante a campanha eleitoral, ou sabia da gravidade da situação e mentiu aos portugueses ao propor as medidas eleitoralistas que todos conhecem, ou não sabia o que revela a sua incompetência nestas matérias. Eu estou convencido que José Sócrates sabia.

Marques Mendes passou ao lado deste problema, preferiu invocar as responsabilidades do passado. Mal!

terça-feira, 24 de maio de 2005

"Incerteza"


"Uncertainty"
Simon P. Cote (1999)



Este quadro, com o sugestivo título “Incerteza”, obriga-me associá-lo à actual situação do país. Será que “vamos” por as contas e a casa em dia? Sinto uma sensação esquisita depois de ouvir e ler tantas e categorizadas opiniões. Queria ter a certeza de que somos capazes, mas…

A quem não interessa a diminuição da despesa?

Há dois grandes mistérios para mim na sociedade portuguesa: o primeiro é a resistência à diminuição de impostos; o segundo é a resistência à diminuição da despesa pública.
Começo por esse último mistério.
A necessidade de diminuir a despesa pública é uma coisa óbvia, mas parece não interessar a ninguém.
Não interessa aos que, por razões ideológicas, querem sempre mais e mais Estado.
Não interessa aos membros do Governo, de qualquer Governo, para quem governar se resume a distribuir o dinheiro público.
Não interessa às empresas que sempre têm vivido à sombra dos dinheiros públicos, nem aos Sindicatos da função pública ou aos outros, temerosos de restrições salariais.
E é indiferente para muita gente:
• para os donos das 153000 empresas que nunca pagaram um cêntimo para o fisco
• para o milhão e cem mil agentes económicos que produzem uma colecta média inferior a 80 euros
• ou para os 588.000 empresários em nome individual ou profissionais liberais que geram uma colecta média inferior a 190 euros, pela simples razão de que nunca sustentaram os gastos do Estado ou para a sua cobertura contribuem apenas simbolicamente.
No entanto, a diminuição da despesa:
• é uma exigência de 43% das empresas que actuam correctamente no mercado e originam a totalidade da colecta
• é também um acto de justiça para os 7,5% de cidadãos (cerca de 274.000 titulares, entre 3,65 milhões) que pagam 63% do IRS!..
Mas estes últimos são manifestamente poucos para contrariar a aliança dos Governos com os incumpridores. Aliança que se dá por motivos eleitorais e é potenciada por razões ideológicas de quem quer sempre mais Estado para, irónica e cinicamente,o colocar objectivamente ao serviço de quem não cumpre.

Alto Comissário

A escolha do novo Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados recaiu num português. Ainda bem para o português escolhido, pela distinção deveras honrosa que a designação inequivocamente representa.
Quanto à importância para Portugal desta designação, os cínicos dirão que a ONU resolveu ao PS um problema, e o país, nesta perspectiva, foi definitivamente poupado à candidatura presidencial do Senhor Engº Guterres.
Cinismos à parte, só uma perspectiva romântica da política internacional é que poderá levar a pensar que este facto muda alguma coisa no que respeita ao peso e influência de Portugal junto das principais instâncias internacionais. Não muda. Há algum tempo atrás o presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas era português, o actual ministro dos negócios estrangeiros que reclama ser esta nomeação uma "vitória da diplomacia portuguesa". Nesse período nada se alterou, nem sequer a situação de Timor que se viu invertida não pela influência de qualquer português, mas pela mudança estratégia da politica norte-americana em relação ao problema.
A crença de que estas nomeações modificam a posição nacional no condomínio internacional são ilusões típicas de um país pequeno (que não, obviamente, de um país menor, coisa diferente...).
Mas anoto aqui a mais hilariante reacção à designação do Senhor Engº Guterres. Foi protagonizada pela impagável Ana Gomes, deputada europeia. Ressuscitada por uns momentos, veio dizer, entre outros dislates do género, que esta nomeação era uma lição "para as forças da Direita" porque significava um reconhecimento do papel da ONU posto em causa pelo envolvimento de Portugal no conflito do Iraque no tempo de Durão Barroso! Assim mesmo...
Com mais algumas destas tiradas ainda veremos o exílio europeu de Ana Gomes transformar-se em pedido de asilo junto do novo Alto Comissário. Refugiados precisam de quem os acolha...

6,83%

Como já havíamos escrito, o valor do deficit “apurado” não surpreende. Pode ser dramatizado, pedagogicamente promovido, politicamente responsabilizado, mas não traz nada de novo aos que nos últimos meses têm estudado com atenção este problema. O que surpreende é a reacção de algumas instituições e partidos políticos.

A começar pelas declarações do Governador do Banco de Portugal. A sua surpresa surpreende e só pode ser entendida como uma forma particular de alertar o país para a gravidade da situação a que chegámos. Prefiro pensar que tenha sido essa a preocupação e não outra qualquer. A precisão das centésimas é, no mínimo, ridícula e revela apenas a preocupação com uma imagem de rigor, quando estamos perante uma estimativa para 2005 e não um deficit apurado.

A reacção do PSD, através da vogal da Comissão Política Nacional Dulce Franco, também não abona quanto à muito promovida e ansiada credibilidade. Não reconhecer que a dimensão do problema vai muito para além da sucessão dos governos e remeter exclusivamente para a herança guterrista a responsabilidade da situação não é a melhor forma de ganhar credibilidade. Há que assumir o enorme esforço do XV Governo e reconhecer que o facto de ele não ter sido continuado foi um erro grave. Também é necessário dizer que um programa de consolidação das finanças públicas não se concretiza num ano ou numa legislatura. Vai muito para além disso.

A reacção do PS, através do testemunho de Jorge Coelho, é inaceitável. Voltou-se ao argumento do “cavador” (expressão de Sousa Franco) e à visão “trauliteira” dos problemas do Estado. Assim, não vamos lá.

Estranha, esta súbita preocupação presidencial

Não me surpreende este clima de histerismo provocado ao redor do deficit de um orçamento que vai a meio da sua execução. Era inevitável que um partido que na campanha eleitoral prometeu medidas de apoio a tudo e a todos, tenha agora de dramatizar. Cria-se o também já esperado ambiente para as medidas impopulares que já se sabia serem inevitáveis e que amanhã serão divulgadas.
Também não me surpreende o papel nesta novela desempenhado pelo Senhor Governador do Banco de Portugal. Basta recordar as suas intervenções nos primeiros dias da governação socialista, claramente no sentido de poupar às primeiras censuras o Executivo até então inerte.
Muito menos fico admirado com o bom serviço prestado pela generalidade da comunicação social que, no interesse do PS e do Governo, se tem deixado pilotar por uma eficaz e, desse ponto de vista, irrepreensível política de comunicação governamental, assim contribuindo para preparar o terreno e o clima para o que aí vem.
O que me espanta é a muita preocupação agora manifestada pelo Senhor Presidente da República para quem, até há bem pouco tempo, o combate ao deficit não era a essência da vida. Esqueceu-se, porventura, que foi ele Presidente que, após ter decidido dissolver a Assembleia da República, acabou por viabilizar este orçamento, bem sabendo que seria outro o governo que teria a responsabilidade de o executar, tendo como alternativa a bem mais lógica solução de manter a execução duodecimal do orçamento de 2004, que permitiria controlar, com algum automatismo, as eventuais derrapagens.
Mas mais: não foi o Senhor Presidente da República quem anunciou, salvo erro na posse do Governo de PSL, que seria particularmente vigilante das acções do novo Executivo para que não se inutilizasse o esforço de consolidação orçamental - e os pesados onus que implicou para os cidadãos - levado a cabo nos dois anos anteriores?
Não ficaria mal ao Senhor Presidente, se entende que é grave a situação do deficit anunciado, assumir a sua quota de responsabilidades. Pelo menos ficar-lhe-ia melhor do que esta inconsequente
súbita preocupação.

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Prós e Contras

Estive a assistir ao programa Prós e Contras e vejo com perplexidade que se discute o defice e as dificuldades governativas que ele impõe como se de grande novidade se tratasse! Será que muda muito o panorama nacional saber se o drama mede 5, 6 ou 7%? Porque é que se esperou 2 meses para deixar que este tema voltasse à prioridade absoluta da política nacional?
Só há uma explicação séria para isso: é que, por critérios de "gestão política", se deixou arrefecer o clima de preocupação e a necessária preparação de todos para a mudança que essa situação implica.
Em resumo, andámos a perder tempo, a andar para trás.
É claro que o Governo apresenta o cenário que mais lhe convém para depois poder mostrar como excelentes os progressos que conseguir (e oxalá consiga!) alcançar. Se baixar para 5% já é uma grande vitória, diz a mensagem subliminar, e só isso já mostra como nos afastámos do objectivo que estava traçado e que era de 3%.
Este "pára-arranca" é demolidor de qualquer confiança dos cidadãos, que ora se angustiam com cenários negros, ora se deixam embalar por contos de fadas que tudo prometem e nada pedem em troca. Ou seja, estamos a pagar os custos da instabilidade política, não é por acaso que os nossos vizinhos espanhóis, como bem lembrou o Dr. Catroga, conseguiram equilibrar as contas públicas e dar o salto de progresso que para nós é uma miragem cada vez mais distante.
Não é nada importante encontrar culpados, a não ser por masoquismo estéril e apaziguamento de consciências que não deviam estar assim tão descansadas. O que é essencial é encontrar os erros e, sobretudo, as omissões - o que é que tinha que ser feito e não foi? Que comportamentos devemos corrigir? Essa lição, lamentavelmente, não se tira. Continuamos a discutir nomes, pessoas, como se fosse possível alguém sozinho fazer alguma coisa de definitivo, ainda por cima aos sobressaltos. Não há milagres, sem coragem, persistência e políticas claras capazes de captar a confiança das pessoas não há como progredir. Já perdemos tempo demais e isso paga-se muito caro.

Pabéns ao Benfica

De um indefectível portista, casado com uma adepta sportinguista e com dois filhos benfiquistas, vivendo em perfeita harmonia…(concedo que aos fins de semana há sempre alguma algazarra, por causa dos árbitros…esses malandros!...), aqui vão os parabéns ao Benfica e aos alguns milhares de benfiquistas pela vitória no Campeonato.
Mais que vencer o dito, a grande honra é suceder ao glorioso F.C.P.!...
Usufruam, usem…mas não abusem!...
Parabéns.

Ler e pensar

A recuperação de um velho texto pouco conhecido de John Stuart Mill não me deixou resistir a partilhar uma ideia nele expressa. O texto, intitulado “Civilization” e publicado em 1836, pretende teorizar sobre as noções de progresso e civilização. Para Mill o estado de maior ou menor avanço de uma civilização estaria dependente do nível de massificação da posse de bens e do conhecimento adquirido através da educação e da comunicação. Entretanto, os efeitos dessa massificação não seriam só por si isentos de perversidades. Uma delas seria observável nas práticas da leitura:

“The world reads too much and too quickly to read well. When books were few, to get through one was a work of time and labour: what was written with thought was read with thought, and with a desire to extract from it as much of materials of knowledge as possible. But when almost every person who can spell, can and will write, what is to be done?”

Dissertations and Discussions. Political, Philosophical and Historical. London, 1859, p.185.

Se Stuart Mill imaginasse o que se escreve e o que se lê um pouco por tudo o que é mundo e por tudo o que é meio, decerto que se espantaria como é possível ainda existirem ideias. Talvez se torne um dos bens mais escassos no meio da incomensurável abundância de informação.

domingo, 22 de maio de 2005

Venham lá essas medidas impopulares

... que o Benfica é campeão! Aproveitem durante os próximos 15 dias, com o final da Taça pelo meio.

Momento



"Não há animais injustos, não sejas imbecil. Não há inundações injustas ou desabamentos da maldade. A injustiça não faz parte dos elementos da natureza, um cão sim, e uma árvore e a água enorme, mas a injustiça não. Se a injustiça se fizesse organismo: coisa que pode morrer, então, sim, faria parte da natureza" - Gonçalo M. Tavares, in 'Um Homem: Klaus Klump'

Sexta, 22 de Maio (1908)



Vento desabrido, nervos derrancados, a alma lobrega.
A Augusta espera-me. Que vou eu lá fazer neste estado de espírito? Que culpa tem ela disto? Porque há-de essa criatura ligar-se a mim, ela que não tem culpa nenhuma de eu ter nascido deste modo?
E quando é que hei-de eu conseguir dominar esta carne indisciplinada e ser espírito, apenas espírito?


Afinal sempre fui a casa da Augusta. Para quê? para quê? para quê? Para a torturar – sem querer, o que é horrível.


Manuel Laranjeira in “DIÁRIO ÍNTIMO” (Colecção Nemésis)


Há 97 anos, neste dia, Manuel Laranjeira, escritor, médico e suicida, sofria, mesmo num momento de prazer, manifestando o desejo da procura da morte.

Os Marcianos

Segundo tive conhecimento, por informações fidedignas, o Supremo Magistrado da Confederação dos Povos de Marte, o Chefe do Governo Federal Marciano, o Governador do Banco Central Federal Marciano e todo o Governo Federal ficaram perplexos e muito preocupados, quando o Governador do Banco da Lusitânia, no Planeta Terra, em visita oficial a Marte, lhes apresentou os últimos dados sobre o Orçamento do Estado lusitano e o défice de 7% esperado para 2005.
Essa perplexidade foi tanto maior quanto, segundo mensagens diplomáticas relativamente recentes recebidas do Embaixador de Marte na Lusitânia, o Presidente deste remoto país do sistema solar referia que havia vida para além do luso orçamento, o 1º Ministro, então na Oposição, criticava os cortes orçamentais do Orçamento para 2005, que agravavam os dos anos anteriores, sendo estes já os responsáveis pela crise económica que se vivia, e o Partido que agora sustenta o Governo exigia aumentos generalizados de dotações para os diversos Ministérios.
Foi ainda muito notada a afirmação do Governador do Banco Central Federal Marciano, a mais terráquea das individualidades marcianas, quando referiu que, face ao relatado pelo Governador do Banco da Lusitânia, tinha constatado uma situação bem mais gravosa do que aquela que tinha pensado.
As Autoridades Marcianas recomendaram ao Governador do Banco da Lusitânia que transmitisse ao seu Governo que marcianos eram os habitantes de Marte, o que deixou, por sua vez, bastante perplexo o Governador, por não ter entendido cabalmente a mensagem, situação que se repetiu, aliás, com o Presidente da Lusitânia e com todo o Governo, quando a mesma lhes foi transmitida.

Pouco e mal

O Correio da Manhã antecipa hoje algumas das medidas de consolidação orçamental que o Governo irá discutir na próxima terça-feira. Aumento de impostos, antes de mais. Cativação das dotações dos Ministérios. Esta última medida constitui prática corrente nos últimos anos, não encerrando qualquer novidade. Não quero acreditar que as medidas se ficam por aqui. O aumento da receita do reajustamento fiscal (IVA, IA, tabaco, etc.) e a cativação da despesa não são suficientes para recuperar mais do que 1,5% do PIB. De certo que não vão cativar salários e aquisições indispensáveis. O que resta já está muito rapado.

Quanto ao aumento de impostos e à excepção do imposto sobre combustíveis, convém pensar que aumentos mal calculados poderão provocar um aumento da fuga (exemplo do tabaco, ou da restauração).

A confirmar-se a notícia, só poderemos tirar uma conclusão: o Governo PS não quer mesmo fazer reformas estruturais. Prefere o custo político de contrariar o seu programa, sem ter o benefício de resolver o problema. Quer apenas aguentar, com paliativos.

Comer com as mãos ou com faca e garfo?

Este fim-de-semana, tive que me deslocar ao Sul do país, a fim de efectuar uma conferência numas jornadas de saúde.
O tema que me propuseram era aliciante: “Sabe bem, mas faz mal”. Preparei-a com muito cuidado e carinho, porque achei que estava perante uma matéria suficiente provocante e capaz de desencadear alguma polémica. Os restantes três assuntos eram, igualmente, estimulantes: “Sei, mas não me lembro”, “Tremo, mas não caio” e “Cresço, logo existo”. Ou seja, quatro variações sobre um tema. A abordagem exigia que se respeitasse certos contextos; os erros alimentares e estilos de vida, a demência no idoso e as suas implicações na estrutura familiar, o cancro da mama como causa de sofrimento físico e psicológico das mulheres e as alterações físicas e psicológicas do crescimento e desenvolvimento infantil e juvenil.
Devo felicitar o autor ou os autores que propuseram os temas.
A jornada não se dedicava exclusivamente a profissionais de saúde, mas também à população em geral.
Como é do conhecimento geral, nestas iniciativas há sempre uma cerimónia de abertura com diferentes autoridades, locais, regionais e até do governo.
Pessoalmente considero que a cerimónia tem de se revestir de uma certa solenidade. As razões são mais do que óbvias. Acontece que alguns responsáveis, convidados para estes eventos, não se preparam convenientemente. Chegam, sentam-se, levantam-se, dizem algumas banalidades e, pronto, já está! Não pode ser assim e muito menos fazer aquilo que hoje assisti. Uma autoridade de saúde a dizer constantemente que estava com problemas de voz. No intervalo para o café não detectei qualquer problema. Um presidente da câmara em plena campanha eleitoral, falando de saúde, aos soluços, como se estivesse engasgado ou com falta de gasolina, metendo a mudança errada, com frases sem nexo, sem um fio condutor, numa verborreia caótica onde, por mais de uma vez, afirmou que “a saúde mental, a saúde psicológica e a saúde neurológica” eram muito importantes, entre outras. Mas, houve mais. O senhor governador civil, inchado com o seu novo cargo, esclareceu-nos qual foi o seu primeiro pensamento quando foi nomeado: teria, de ora em diante, de falar sobre tudo, como se fosse um verdadeiro especialista em generalidades. Neste momento, já não consegui disfarçar alguns sorrisos. Mais um técnico de ideias gerais! Só me faltava uma destas. Logo a seguir, iniciou um improviso tentando jogar com os títulos dos quatro temas. Começou por dizer: - Bom, quanto à conferência “Sei, mas não me lembro” não me preocupa muito, “porque eu também não me lembro de muitas coisas, mas só daquelas que não quero. Só me lembro daquilo que me interessa”. – Meu Deus! Pensei logo. - E agora? O que é que vai dizer a seguir? Quanto ao temo “Cresço, logo existo”, disse: - Quanto a este aspecto, já não me diz respeito, porque não cresço mais. – Admirável! Pensei de imediato. O homem precisa mesmo de crescer, não em estatura, mas noutras dimensões. Em seguida, quando abordou o tema “Tremo, mas não caio” teve esta tirada: - Bom, eu ainda não tremo e nem caí. Foi o suficiente para desencadear uma reacção instantânea, fruto de três anos de Assembleia, um aparte: - É só uma questão de tempo! O senhor governador apercebeu-se, tarde, do que tinha dito, mas mesmo assim largou uma sonora gargalhada acompanhada por muitas mais provenientes de um auditório quase que exclusivamente feminino. Quando chegou ao tema “Sabe bem, mas faz mal” afirmou: - Este sim. É um assunto que me interessa. Lá tive que enviar um segundo aparte: - Pois é! Mas esse é meu!
Conto esta história, apenas para afirmar que certas cerimónias têm de ser respeitadas. Os intervenientes na solenidade não são obrigados a falar do assunto em causa. Deus me livre ouvir o amável governador civil, um dia destes, na abertura de um congresso de Física Nuclear, de Egiptologia, de Escolaticismo da Idade Média, ou numa reunião de Heavy Metal. Não é preciso falar sobre tudo. É preciso dar dignidade aos actos, transmitindo mensagens adequadas relativamente ao contexto do evento.
O mesmo alimento pode ser comido à mão ou com faca e garfo. Temos de saber quando se utiliza um e outro. Reconheço que, desta vez, apesar de não fazer parte da mesa, utilizei o garfo, mas a culpa foi dos simpáticos e ultra informais senhores governador civil e presidente da câmara…

Árvores do Alentejo

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Horas mortas ... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido ..., e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca, Poesia Completa, Publicações D.Quixote, Lisboa, 2001, p.336

sábado, 21 de maio de 2005

Reparologia

De acordo com a TSF on-line, Fernando Medina, Secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional apresentou o seu plano de acção para combater o desemprego.
Estou a dizer mal, apresentou 3 planos de acção. Ei-los:
- um plano de acção preventiva junto das empresas: agir, antes de as empresas fecharem, de forma integrada…e agir em proximidade.
- “um plano de acção preventiva junto das pessoas…: a situação é frágil, mas a nossa intenção é forte…”
- uma terceira via relacionada com a acção reparadora para aqueles que já se encontram no desemprego.
O Secretário de Estado garantiu à TSF on-line “ que o Governo vai começar o plano criado para contrariar esta situação.”
Entendi dos planos preventivos que o Governo, agindo em proximidade e de uma forma integrada, vai actuar junto das empresas, antes de estas fecharem e vai também agir junto das pessoas, aqui com forte intenção!...
Caso a prevenção não resulte, o Governo passa à fase da reparação!...
É de esperar uma avalanche de reparadoras, de acções de formação em reparação e um número infindável de tratados de reparalogia!...

Dia Internacional da Diversidade Biológica



As Nações Unidas declararam 22 de Maio como dia dedicado aos problemas da biodiversidade no mundo.
É uma ocasião para refletir num dos mais sérios problemas que afecta o planeta: o rápido desaparecimento de habitats e espécies, apesar de algumas proclamações políticas no sentido da conservação e do restabelecimento no quadro do que se convencionou designar por desenvolvimento sustentável.
Na Assembleia Geral de 2000, Kofi Annan reclamou por uma avaliação ecossistémica à escala planetária.
O relatório final dessa avaliação, efectuada entre 2001 e 2005 e na qual participaram 1360 especialistas de 95 países, retrata uma situação de empobrecimento acelerado do património genético do planeta. E traça uma prognose muitíssimo preocupante para as próximas décadas.
Preocupante, porque a população humana é totalmente dependente dos ecossistemas, que são as fontes vitais de bens e condições essenciais à saúde, e em última análise à sobrevivência, como são os alimentos, a água consumível ou a regulação climática, sendo que o consumo desses bens aos níveis verificados nas últimas décadas, aponta para a insustentabilidade não a muito longo prazo.
Do relatório, ressaltam os aspectos do diagnóstico que revelam a extraordinária aceleração da capacidade destrutiva do ambiente e de alguns importantes recursos naturais não renováveis em nome de um desenvolvimento que não consegue, pelos vistos, conciliar-se em especial com a preservação da pluralidade biológica:

"Nos últimos 50 anos, o homem modificou os ecossistemas mais rápida e extensivamente que em qualquer intervalo de tempo equivalente na história da humanidade, na maioria das vezes para suprir rapidamente a crescente procura de alimentos, água potável, madeira, fibras e combustível. Isso acarretou uma perda substancial e, em grande medida, irreversível, para a diversidade da vida no planeta.
As mudanças que ocorreram nos ecossistemas contribuíram com ganhos finais substanciais para o bem-estar humano e o desenvolvimento económico, mas esses ganhos foram obtidos a um custo crescente, que incluiu a degradação de muitos serviços dos ecossistemas, maior risco de mudanças não lineares, e exacerbação da pobreza para alguns grupos da população. Esses problemas, a menos que tratados, reduzirão substancialmente os benefícios obtidos dos ecossistemas por gerações futuras.
A degradação dos serviços de ecossistemas pode piorar consideravelmente na primeira metade deste século, representando uma barreira para a consecução das Metas de Desenvolvimento do Milénio"

sexta-feira, 20 de maio de 2005

A dança das cadeiras

A instabilidade política provou ser um mal e por isso a possibilidade de o parlamento e o governo concluirem as legislaturas afigura-se - julgo que para a grande maioria dos interessados pela coisa pública - essencial para consolidar políticas e prosseguir objectivos de médio prazo. Mas mais iníqua do que a instabilidade política, é esta permanente "dança das cadeiras" a que é sujeita a administração pública escassos meses após eleições. O desgaste que provoca. A fraqueza das lideranças a que conduz. O desânimo que gera nos mais capazes e preparados, tudo isto actua como um verdeiro cancro sobre o organismo administrativo.
Ora, não há governo capaz que se não apoie numa administração pública saudável, assente no reconhecimento do mérito e da competência.
Não se pense, todavia, que só ao nível dos altos cargos e da gestão de empresas públicas é que a legião dos disponíveis "gestores" e "dirigentes" ataca. Em cada pequena urbe, onde haja um serviço local do Estado cuja chefia é nomeada discricionariamente, logo se perfilam os apaniguados do partido governamental que vêem finalmente chegada a sua vez de partilharem o poder e ocuparem a ambicionada cadeira. Acabei de ler o jornal da santa terrinha e lá vinham os nomes dos novos "indigitados" para o Centro Regional da Segurança Social, para o Centro de Emprego, para a delegação do Instituto, para o agrupamento escolar. Com direito a fotografia e tudo, que revelava, aliás, os efeitos desgastantes da espera.
É esta uma doença muito grave que atinge há muitos anos a nossa administração pública. Pela qual, é necessário dizê-lo, são responsáveis todos os partidos do arco governamental.
Oxalá as tão badaladas regenerações partidárias e a recuperação da credibilidade dos políticos também passem por aqui.
Já é evidente que Sócrates não está a ser mais feliz do que Guterres na sua versão do "no more jobs for the boys".
É de esperar que, na oposição, o PSD reflita sobre o tema no sentido que apontou aqui a Suzana Toscano. Mas que também bata no peito e, humildemente, faça o seu acto de contrição...

Fiquei a saber quem era o Paulo Coelho!...

Sou economista e tenho do português, não uma visão especializada, mas a visão de um cidadão que preza a sua língua e a considera um dos grandes activos do povo português.
Por isso me confrange a impreparação na língua portuguesa dos que, com grau universitário ou não, entram na vida activa e no mercado de trabalho.
É nesse contexto que deixo a seguinte história da minha vida profissional.
Durante 12 anos da minha actividade profissional de economista e gestor, fui membro da chamada “Alta Direcção” de um grande Grupo Bancário nacional e administrador do Banco de Investimentos e de outros Bancos do Grupo.
Nessas funções, aí 3 ou 4 vezes por ano, competia-me fazer a entrevista final aos candidatos a colaboradores que já tinham ultrapassado as fases anteriores do processo de selecção.
Durante a entrevista, interessava-me sobretudo saber quais os conhecimentos gerais, a cultura do candidato, o seu grau de preparação, a sua apetência profissional.
Na "cultura do Banco", a formação e o dia a dia se encarregariam do resto...
Dos conhecimentos especializados interessava-me apreender aqueles que o poderiam recomendar para uma área específica do Banco, quando para tal surgisse oportunidade.
Nesse contexto, procurava saber qual o “relacionamento” do candidato com a literatura, a história, a filosofia, a música, as artes e, em geral, com a cultura.
Confesso que a experiência foi desastrosa.
Das centenas de entrevistas feitas, poucos, mas muitíssimo poucos, candidatos eram capazes de indicar, de imediato, o nome de dois escritores portugueses.
Quando Saramago ganhou o Nobel, foi a sorte grande: quase todos o indicavam, por obra de ouvirem na televisão.
E nomes de livros? Uma verdadeira desgraça!
Conheciam algum livro de Herculano, ou de Camilo, ou de Namora, ou de Torga?
Era o zero quase absoluto!...
Aliás, a grande maioria nunca tinha lido um livro completo.
Perguntados se não havia livros de leitura obrigatória na Escola, respondiam que liam os resumos, de modo a poderem responder alguma coisa aos professores.
Aprendi então que havia resumos no ensino secundário, os quais substituíam os livros recomendados!...
Confesso também que uma vez fiquei embaraçado, quando uma candidata me referiu, depois de uma ligeira pausa, o nome de Paulo Coelho. De facto, eu não conhecia o escritor. Procurei que ela me dissesse algo mais, mas, para além do nome, nada mais sabia, a não ser que era o livro que uma prima que viera do Brasil andava a ler.
Muitos candidatos eram licenciados, alguns muitíssimo bem preparados em matérias específicas.
Raramente ficava nada tranquilo com os pareceres que dava.
Se eram negativos, estava a vedar a entrada do candidato numa profissão.
Se eram positivos, estava a fazer admitir futuros tecnocratas, sem cultura ou qualquer visão minimamente global do homem: não estava certamente a fazer admitir bons colaboradores.
Da experiência ganhei uma coisa: fiquei a saber quem era o Paulo Coelho!...

quinta-feira, 19 de maio de 2005

Os maus resultados de Matemática e de Português

Com os exames em curso, lá volta o tema.
Fui, já lá vão bastantes anos, professor de cálculo financeiro, disciplina que exige uma sólida preparação matemática.
Verificando as dificuldades dos alunos, procurei saber as causas.
A Matemática, na sua formulação algébrica, é uma linguagem simbólica: traduz-se em transformar a linguagem corrente em símbolos e, depois, operar com eles.
A transformação em símbolos algébricos da linguagem corrente, oral ou escrita, por exemplo, na equacionação de um problema, não é possível, se o aluno não compreender essa mesma linguagem, isto é, se não a souber decompor e distinguir nos seus diversos elementos.
Sem isso, nunca conseguirá navegar na matemática.
Concluí assim que a principal dificuldade dos alunos advinha, pasme-se, de não saberem ou dominarem mal o português!...
Por isso, ao propor, oralmente ou por escrito, qualquer exercício, a primeira coisa que passei a exigir aos alunos era aquilo que, no tempo em que aprendi, se chamava divisão das orações.(Agora, se esta prática não for ainda anti-pedagógica, terá, pela certa, nome bem mais complexo!...)
Dividida a oração, obrigava os alunos a saberem onde estava o sujeito, o predicado, os complementos, etc, etc. (Julgo que a esses conceitos correspondem agora outras palavras, como sintagma verbal para o predicado, entre muitas igualmente eruditas!...)
Chegados a este ponto, mandava traduzir em símbolos matemáticos as diversas orações, ligando os elementos conhecidos com aqueles que se pretendia conhecer, as incógnitas.
A colocação de um problema em equação, por exemplo, tornava-se assim razoavelmente simples.
Às regras da operativa matemática dava semelhante tratamento.
Confesso que os resultados me espantaram!...
O problema não estava na Matemática, mas no Português.
Por isso, não me causa qualquer espanto que os maus resultados de matemática andem associados aos de português.
Sendo inevitável que assim seja, aqui deixo uma leve sugestão: aponte-se para o que é básico e ensine-se bem português, para que os alunos comecem por saber e compreender português, para poderem compreender e saber matemática!...

"Pecado"


Vida:

Pequei por não te ter amado?

(Mas a Vida também me não amou!...)

— Ó pecador! Qual foi o teu pecado,

Se a Vida é que pecou?!

Pedro Zargo

Posted by Hello

Instabilidade e desperdício

Passada a euforia das eleições, a novidade dos nomes que seriam escolhidos para esta ou aquela pasta, a denúncia mais ou menos escandalosa deste ou daquele acto do anterior governo, eis que a dura realidade volta a abater-se sobre o País.
Descemos nos últimos 5 anos 13 lugares no "ranking" da competitividade; o desemprego aumenta assustadoramente e não se vislumbra como voltar a inverter a situação; o défice, essa "maníaca preocupação" por tantos desdenhada, aí está com redobrada violência...
Julgariam as pessoas que os males desaparecem só por não os querermos encarar? Que misteriosa força deveria intervir para nos evitar o esforço, o trabalho e a persistência que aos outros foi indispensável? Não há optimismo nem esperança que valha a quem cruza os braços ou persiste em manter comportamentos que conduziram a tão mau porto.
Um dos factores identificados como muito negativo é a instabilidade das políticas e a interferência política nos serviços públicos. A Administração Pública, esse inevitável bode espiatório das nossas desgraças - e com bastante razão - é permanentemente sujeita às flutuações de orientação e a mudanças dos quadros dirigentes. Que empresa resistiria a esse ritmo de sobressaltos?
Sendo este um facto de mediana evidência e talvez um dos problemas de mais fácil resolução, seria de esperar que se pusesse termo à prática sistemática de escolher como primeiro alvo de actuação política a mudança mais ou menos generalizada dos dirigentes de topo, procurando preservar alguma estabilidade e permitir a continuação do trabalho realizado. No mínimo, seria de elementar sensatez avaliar o desempenho dos responsáveis e só em caso de ele ser insatisfatório se proceder àsubstituição.
Mas não.A que assistimos agora, uma vez mais? À fase das demissões e das nomeações, listas e listas de novos gestores, dúvidas ameaçadoras sobre a permanência dos que ainda não terminaram as suas comissões de serviço, enfim, uma instabilidade generalizada e uma desautorização em todas as frentes.
Fala-se dos objectivos que estavam previstos e do que não foi realizado? Fazem-se balanços das actividades e pontos de situação dos institutos e direcções gerais? Não fala. Fala-se de nomes, de perfis, de curricula dos indigitados, alguns apresentados como evidentes porque já tinham estado nos mesmos cargos, outros porque despontaram entretanto para a política e já ganharam notoriedade suficiente para serem "indigitáveis".
Fazemos de conta que os lugares são apenas isso - lugares, espaços a ocupar. O pior é que não são, é suposto corresponderem a uma actividade com sentido útil para os cidadãos, é suposto terem assegurado funções concretas e - o mais importante - é de admitir que houvesse a preocupação em garantir que essa função fosse desempenhada com a máxima competência.
Sempre considerei lamentável e politicamente condenável esta falta de respeito pelas instituições (e já em falo das pessoas em causa) e pelos cidadãos que julgavam que os "seus" serviços públicos estavam bem entregues.
É que, das duas, uma: ou estavam lá as pessoas certas, a cumprir bem a sua missão, e então é uma irresponsabilidade grave mudá-las só para satisfazer clientelas políticas do momento; ou quem tinha assumido o cargo não estava a ter os resultados que se exigiam, e por isso são substituidos.
Em qualquer dos casos, era essencial que se fizesse e desse a conhecer essa avaliação para fundamentar as decisões e dignificar os cargos dirigentes e a função dos serviços.
Assim, nesta dança de cadeiras e neste turbilhão de nomes, ficamos todos a perder - os que sairam, porque não se fez justiça ao seu trabalho; os que entram, porque sabem que o que vão fazer não será valorizado. E o País porque continua a ver degradar-se a qualidade dos serviços e a assistir impotente e de certa forma conformado ao desbaratar de tanto trabalho pago com o dinheiro dos contribuintes.

“O Senhor Doutor Juiz”

O meu avô ensinou-me coisas muito importantes. Uma delas diz respeito à justiça. Quando era pequeno passávamos muitas vezes em frente do Tribunal Velho. Afirmava que era naquela casa que um homem honrado sentia o verdadeiro significado do respeito. Lá me explicou que, quando alguém sentisse que tinha sido injustiçado, era ali que encontrava a reparação, enquanto os maus apanhavam os castigos. Para mim o juiz passou a ser a pessoa mais importante. Nem o médico, nem o padre, nem o professor, nem o chefe da estação, nem os guardas chegavam ao calcanhar daquele homem. Não tinha medo e gostava de o ver. Parecia-me diferente de todos os outros. Afinal, havia alguém que nos protegia e eu conhecia-o. Se houvesse algum problema o juiz resolvia-o. Até cheguei a pensar dizer-lhe que andava aborrecido, porque já me tinham roubado mais do que uma vez os meus queridos piões. Mas havia sempre um familiar que me comprava um novo. Mas não era a mesma coisa, porque não tinha ainda uso e sem uso é diferente.
Estas memórias emergiram quando li a notícia do inválido Joaquim Seco condenado a uma pena de prisão de 30 dias por não ter pago uma multa de uma centena de euros. Chocou-me. Mas o choque ainda foi maior quando a juíza (julgo que era uma senhora) não permitiu o pagamento em mais do que duas prestações, porque isso “descaracterizava a pena”. Será que a juíza não conhecia a situação do doente? Será que a justiça tem de ser mesmo “cega”? O melhor seria abrir os olhos.
Um par de dias depois é noticiado o arquivamento (por prescrição) do caso das mulheres intoxicadas com hormonas de emagrecimento. Algumas estiveram em coma e ficaram com lesões irreversíveis. Neste caso, as Ordens dos Médicos e dos Farmacêuticos actuaram e aplicaram penas disciplinares, ao passo que a justiça deixou impunes os responsáveis.
Quando penso nestes casos, e em muitos outros, sinto uma saudade do Senhor Doutor Juiz dos meus tempos de criança. Com ele nunca aconteceria atitudes destas. O senhor Joaquim Seco não seria condenado e os médicos e farmacêuticos que prescreveram e prepararam os medicamentos teriam sido punidos….

“Abaixo o Reitor, abaixo as propinas, abaixo Bolonha, abaixo o Governo, o actual e qualquer um que venha a surgir no futuro…”

A comunicação social tem relatado que, hoje, iria decorrer uma manifestação dos estudantes de Coimbra na Reitoria pedindo a demissão do Senhor Reitor.
Como o meu gabinete goza da particularidade de dar para a Porta Férrea, estava atento às movimentações e à algazarra que é habitual nestas andanças. Às 16:10 minutos comecei a ouvir o barulho e debruço-me de uma das janelas a ver o que se passa. Algumas dezenas de turistas, com as suas máquinas e câmaras, ficaram surpresos com as faixas e gritos de ordem dos manifestantes. Deve ter sido um bónus extra ver aquele espectáculo. De futuro, nos seus locais deverão explicar como é uma manifestação de estudantes em Coimbra a pedir a demissão do reitor. Não deve abundar por esse mundo académico fora manifestações a pedir o abandono do dirigente máximo do seu cargo. Faixas e palavras de ordem contra as propinas, contra a actual acção social, contra Bolonha, contra o Reitor, contra o actual governo (não sei se contra o próximo também!) eram os alvos da dita cuja. Lá foram pela Couraça de Lisboa, dirigindo-se ao Governo Civil, a protestar, a protestar, a protestar, com as câmaras de televisão e fotógrafos jornalistas atentos à procissão dos devotos académicos. Ah! Esquecia-me de dizer que foi muito breve a manifestação. Pudera. Não sei se atingia uma centena de manifestantes e isto numa Universidade com 25.000 estudantes…

O drama anunciado

Poucos poderão falar sem alguma resignação dos números do desemprego, ontem anunciados pelo INE : 412,6 mil indivíduos correspondentes a 7,5% da população activa. Já o havíamos previsto aqui denunciando, ao mesmo tempo, a irresponsabilidade das propostas do PS. Mesmo que se registasse uma recuperação forte da actividade económica, diz a história das últimas décadas, que o desemprego só abrandaria dois a três anos após a retoma. Imaginem agora o que nos espera nos próximos tempos.

O drama do deficit

Sem escrever um único número, Pacheco Pereira conta a história do deficit como poucos o sabem fazer. A não perder, na edição impressa do Público.

Vetos autárquicos

Parece confirmar-se a decisão da Comissão Política Nacional do PSD em vetar alguns candidatos autárquicos propostos, no respeito pelos estatutos, pelas secções concelhias e aprovados pelas Distritais respectivas. O problema agora está do lado dos candidatos alternativos, aqueles que têm a confiança política do líder: querem ser candidatos, mesmo sabendo que vão perder e sem disporem do apoio das bases. Chama-se a isto perder a qualquer custo.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

A História repete-se - continuação

“…Trocadas as descomposturas preliminares, sobre a questão da fazenda, decide-se que é indispensável, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se novo empréstimo. No dia seguinte averigua-se, por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo do ano anterior não há outro remédio senão recorrer ainda mais uma vez ao país e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit-por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência- aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo, já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado…
Pela parte que lhe respeita, o país espera. O quê? O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste, por não haver mais quem pague...”

Ramalho Ortigão- Farpas-1882

Depois disto, ainda há economistas e políticos que continuam a sustentar que mais despesa pública promove o desenvolvimento, sem criar outros constrangimentos que o impedem!...Deveríamos estar desenvolvidíssimos!...
Ah! Mas houve o "salazarismo", que o impediu!...
Manda a verdade, no entanto, dizer que foi, nesse período de equilíbrio das contas públicas, que o País mais cresceu.Não é um julgamento político, mas estatística.
Tal facto em nada defende ou branqueia esse regime, tanto que estou convencido que um regime democrático, com preocupações de boa gestão da coisa pública, obteria, certamente, melhores resultados.

terça-feira, 17 de maio de 2005

Palavras, Palavras….

Segundo o Diário de Notícias de hoje, dia 17 de Maio, o Governo “ao contrário do que tinha garantido, já está a proceder a substituições de dirigentes em diversos organismos”, quando as novas regras só serão discutidas no Parlamento na próxima semana.
Tem que se ver o aspecto positivo da coisa.
O actual Governo legisla para o próximo, que nessa matéria terá a vida facilitada: limitar-se-á a revogar as regras e fará como o presente.
O outro aspecto positivo, nos tempos que correm, é que o Governo,não sendo sério, parecê-lo-á.
E como mais vale uma imagem do que mil palavras!...

Pirilampo mágico

O programa que está a decorrer no Coliseu de Recreios é um exemplo de satisfação e de alegria para todos.
É incrível ver como os deficientes são capazes de ultrapassar as suas limitações. Exemplos para todos os portugueses que, não sofrendo de limitações físicas ou mentais, deveriam ser capazes de se ultrapassarem a si próprios, contribuindo para o desenvolvimento do país.
Chamo a particular atenção do actor que, sofrendo de trissomia 21, mostrou qualidades intelectuais e humanas fora de série.
Um programa destes permite-nos concluir que todas as tramas, irresponsabilidades, incongruências e intolerâncias poderiam ser ultrapassadas. Bastava que tivéssemos a energia e a determinação dos nossos compatriotas deficientes.
É bom aprendermos todos os dias uma lição.

A luta pela biodiversidade


A História repete-se

“…Reunidas as Câmaras e aberto perante elas o OE, começa-se invariavelmente por constatar, num trémulo elegíaco de sinfonia fúnebre, que continua a existir o deficit.
Cada um dos três Governos, a quem a Coroa alternativamente adjudica a mamadeira do sistema, encarrega-se de explicar aos taquígrafos essa ocorrência- aliás desagradável, cumpre dizê-lo- a que ele, Governo em exercício, não tem culpa. A responsabilidade cabe ao Governo transacto, bem conhecido pelos seus esbanjamentos e pela sua incúria.
Para cada um desses três Governos sucessivamente encarregados de trazer o deficit ao regaço da representação nacional, o Governo que imediatamente o precedeu nesse mesmo encargo é o último dos imbecis.
Tal é o conceito formidável em que cada um dos três Governos tem os outros dois!...
A Coroa, pela sua parte - e este é o mais augusto de todos os seus privilégios -é sucessivamente da opinião de todos os três ministérios; e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos imbecis do grupo nº 1, nº 2 e nº 3, a Coroa torna a restituir a citada confiança, com uma efusão de júbilo tão sincero como o nojo anterior, a cada um dos grupos imbecis já referidos, mas colocados cronologicamente em sentido inverso daquele em que estavam, ou sejam, por sua ordem, os imbecis nº 3, nº 2 e nº 1.

Ramalho Ortigão- Farpas-1882

Olha para o que faço, não olhes para o que disse...

...parece ser o novo paradigma dos partidos do arco governamental.
Afinal parece que este Governo, supreendido com o espanto do Governador do Banco de Portugal sobre o estado do Estado, mas também da economia segundo entendi, já admite decretar o pagamento pela utilização das chamadas SCUT´s.
Eu sei que foi há muito tempo - foi em Janeiro de 2005 - mas vale a pena recordar palavras do porta-voz do PS para estas coisas das SCUT. Dizia o senhor deputado José Junqueiro, insurgindo-se contra a medida que o governo de então (quão longe no tempo vai!) estas palavras fruto da mais inabalável convicção e por certo profunda análise e estudo sobre situação financeira, que as SCUT´s "não podem ser consideradas uma hipoteca para as gerações futuras. Uma hipoteca é não dar às populações uma oportunidade que no passado não tiveram".
Catedrático, a receita de Junqueiro em nome do PS para manter o regime das SCUT´s era muito simples: "basta afectar um terço dessas receitas (do IA e do ISP) ano a ano, ao IEP para que seja possível pagar os encargos com as Scut e deixar livres, para outros investimentos rodoviários, uma verba superior em mais de 40 por cento ao actual orçamento do IEP".
O governo de então, que não entendeu a beleza da simplicidade, logo declarou que tal manobra era verdadeiro passe de mágica. Afinal, revela-se agora que era puro ilusionismo.
Aguardemos para ver se são só as SCUT´s do litoral que serão "fechadas", ou se cai por terra a tal preocupação pela discriminação positiva a favor das regiões do interior que justifica manter o regime actual como estímulo ao desenvolvimento, à fixação de população, quadros e actividades.
E estou para ver, depois da imediata reacção de Macário Correia ao anúncio, a verdeira resistência do governo aos "localismos" e a coerência do PSD sobre esta matéria...

Um doutor que não era médico, mas sim advogado!

A história de um jovem de 12 anos com leucemia aguda contada pelo meio-irmão, acompanhado de um advogado num programa televisivo, obriga-me a uma pequena reflexão. O jovem adoeceu em Outubro e só em Janeiro é que foi feito o diagnóstico definitivo, depois de várias interpretações, face aos sintomas e resultados das análises. Um segundo médico, do sector privado, acabou por fazer o diagnóstico. Por vezes, não se consegue de imediato fazer diagnósticos correctos. Com o tempo a possibilidade de diagnóstico exacto aumenta exponencialmente. Já fiz muitos diagnósticos a doentes depois de terem sido previamente consultados por colegas. Não considero que tenha tido mais capacidade do que eles, simplesmente usufrui de uma vantagem fornecida pela própria evolução da doença.
O drama do jovem é mesmo sério, mas a forma como foi apresentado o caso, face ao comportamento da médica, entristece-me. Não vejo, pelo menos através da forma como foram relatados os acontecimentos (mãe, irmão e própria médica), que tenha havido negligência médica. Sei que, por vezes, acontecem casos de negligência, infelizmente. Mas, na grande maioria dos casos não podem ser considerados como tal. Não podemos esquecer que navegamos num complexo mar probabilístico em que o contexto clínico deve sobrepor-se, mesmo com o risco de errar, o que não é sinónimo de desleixo. Apresentar-se na televisão para apelar à solidariedade de eventuais dadores de medula é de louvar. Fiquei surpreendido, quando o doutor que acompanhava o familiar (pensava que era médico a fim explicar alguns aspectos clínicos-terapêuticos da leucemia) era um advogado. Falou de cátedra e a senhora doutora médica terá de se explicar, em sede própria, a conduta. Ressalvou que os médicos não fazem isto de propósito. Claro que não!
Assusta-me, cada vez mais, a possibilidade de um dia ser acusado por “negligência”, confesso. Temos uma forma de reduzir os tais casos de “negligência” que é tratar os doentes de uma forma mecânica, super-defensiva, pedindo os mais complexos exames e, consequentemente, retirar o calor humano e o senso clínico que fizeram a história e a dignidade da mais bela profissão do mundo. Não consigo privar os doentes do calor humano e do bom senso clínico que, às vezes, são capazes de nos trair. Paciência! Prefiro correr o risco.
Espero que o jovem venha a recuperar totalmente da sua doença. São os meus votos.

A cenoura e o pau

As declarações do Governador do Banco de Portugal sobre a grave crise orçamental em que estamos mergulhados não poderão ser dissociadas das notícias sobre o choque sentido pelos Ministros face às propostas apresentadas pelo Ministro das Finanças.

Vamos por partes. As declarações de Vítor Constâncio surpreendem pela sua surpresa. A situação é mais grave do que ele próprio esperava. Vindo do Governador do BP, estas declarações colocam duas hipóteses de interpretação: ou andava distraído, ou o anterior Governo ocultou informação ao BP, à Assembleia e ao País. Uma e outra são graves e requerem rigoroso escrutínio político. É possível, entretanto, descortinar uma terceira: os pressupostos (conjuntura internacional, projecção de receitas e de despesas, previsões de crescimento económico) que presidiram à elaboração do OE2005 estão desfasados da realidade, pelo que a sua revisão obriga a uma reavaliação do deficit.

O Governo já conhece as principais conclusões da Comissão encarregada de avaliar as contas públicas. Só assim se entende as declarações do Primeiro-ministro e a notícia do Expresso sobre o “choque” provocado pelo Ministro das Finanças. O Governo já sabe que vai ter de tomar medidas impopulares para superar o problema criado.

A questão que se impõe é simples: mas já não sabia, mesmo antes de formar Governo? Já não sabia quando decidiu apresentar o seu programa eleitoral e quando mais tarde o transformou em programa de Governo? Respigando as muitas declarações feitas por responsáveis do PS nos últimos 8 meses, todos conheciam bem o quadro conjuntural que agora se pretende destacar.

O que nós estamos a assistir só tem um nome: dramatização! É o “discurso da tanga” sem falar da “tanga”. Mas é também o assumir que os pressupostos eleitoralistas do PS têm de ser postos de lado, porque inconcretizáveis. O drama do Governo é este: criou expectativas optimistas e não tem como as satisfazer. O que é mais grave é que muitos dos Ministros continuam a pensar o contrário. Ainda não perceberam o problema que têm em mãos e não querem ver o que todos já viram: não há alternativa a cortes radicais na despesa. Não há benesses para distribuir. Como dizia um amigo meu, “ a cenoura foi-se, só nos resta o pau!”

É este o drama. Não vale a pena inventar outros porque este já nos chega.

Ruínas de Balsa

Em comentário ao post sobre o Parque Natural da Ria Formosa, um dos leitores deixou a informação sobre a importância arqueológica do território nele abrangido que me era totalmente desconhecida. Pelo interesse manifesto transcreve-se o comentário, aproveitando para agradecer o contributo.

"Está pouco divulgado que dentro do Parque Natural da Ria Formosa se situam as ruínas de Balsa, uma grande cidade romana.
Conhecida desde a Antiguidade, o seu sítio foi redescoberto em 1866. Os seus vestígios enterrados permaneceram virtualmente intactos até 1978, altura em que começaram a sofrer destruições radicais, que se têm prolongado até hoje.
Para além das destruições agrícolas, que já eliminaram mais de 20 ha de alicerces romanos, recai hoje sobre o lugar a ameaça da urbanização, multiplicando-se nos últimos anos os casos de construção em área arqueológica e protegida, incluindo as em área de domínio público marítimo.
O site do Campo Arqueológico de Tavira, publica uma monografia de divulgação (ainda sem editor) e um estudo de restituição topográfica da forma urbana de Balsa".


Impressão Digital

Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão (Movimento Perpétuo,1956)

segunda-feira, 16 de maio de 2005

“De médico e de louco todos temos um pouco”…


Portrait of Doctor Gachet
Vincent van Gogh


O adágio, “de médico e de louco todos temos um pouco”, nunca perdeu, nem perderá a sua actualidade. Quanto à loucura, é tanta que nada se pode fazer, se bem que por vezes até pode ser útil e, quanto a ser médico, todos se comportam como tal. Fazem-se diagnósticos, estabelecem-se as terapêuticas mais mirabolantes, os prognósticos são frequentemente estabelecidos, curiosamente, de uma forma positiva, quando são instituídas as medidas de cada um.
Os temas de conversa mais comuns são os referentes ao tempo e à saúde. Mas mesmo assim a saúde leva a primazia. Basta ver que quando duas pessoas se encontram a pergunta da praxe é: “então, como vai a sua saúde”? E as pessoas respondem mesmo, às vezes até exageradamente.
A queda para actos terapêuticos da população é um fenómeno interessante. A auto-medicação foi sempre uma constante desde os primórdios e, não obstante a evolução técnica e o progresso científico verificados, continua a manifestar-se em toda a sua plenitude. Ainda bem. É reconhecida a capacidade das pessoas em resolverem os seus problemas de uma forma correcta, se bem que muitas vezes extravasam as suas competências e capacidades com consequências nada agradáveis. Mas mesmo assim, os benefícios ultrapassam de longe os prejuízos. Quem não se recorda dos nossos pais e avós que com as suas mezinhas, xaropes, rezas e quejandos lá iam, umas vezes mais, outras vezes menos, resolvendo os problemas. Eram as cabeças de alho à volta do pescoço para afugentar as “bichas”, o calor mal cheiroso e peganhento da enxúndia de galinha aquecida na papeira, os chás mais horrorosos para as diversas maleitas, as violentas purgas capazes de até eliminar a própria alma, as malvas para as infecções, o hipericão para o fígado, a casca de cebola para a inflamação da garganta, as rodelas de batata para as dores de cabeça, as sanguessugas para as nódoas negras e para purificar o sangue, as rezas para o quebranto e para o cobrão, e muitas outras.
Iam à farmácia natural e utilizavam o que havia. Hoje, dispõem de novos produtos susceptíveis de resolver muitos dos seus problemas, e o facto de não terem formação em farmacologia não impede que, através dos contactos com os profissionais da saúde, órgãos de comunicação social e vizinhos, aliado à uma curiosidade intrínseca, obtenham conhecimentos capazes de solucionar muitos problemas de saúde sem terem de socorrer dos serviços de saúde.
Brevemente, vai ser possível a venda de alguns medicamentos fora das farmácias. Argumenta-se que poderão correr riscos devido a uma auto-medicação excessiva e/ou incorrecta, tais como hemorragias graves, intoxicação hepática, alergias, interacção com terapêuticas prescritas pelos médicos, além de minimizarem ou ocultarem sinais e sintomas de doenças graves, enfim, um rosário de situações. É verdade, esses riscos existem e depois? A aprendizagem também se faz numa base de tentativa e erro, e, perante a “loucura natural de praticarmos a auto-medicação” não há nada a fazer, a não ser cultivar a prática, ensinando e disponibilizando os fármacos necessários. Se a minha avó fosse viva, decerto não saía do supermercado arrebatando tudo para poder praticar nos netos. Sempre era melhor do que a estopada daquela horrorosa enxúndia de galinha, ou do mal cheiroso alho a queimar o nariz…