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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Fonte



Há desejos que só são satisfeitos ao fim de muitos anos, décadas por vezes. Passei imensas vezes por aquele local, um velho solar, cheio de encanto e de mistérios. Atraiu-me desde que o vi pela primeira vez, foi há tanto tempo que já me esqueci. Gostava de ver o seu interior, mesmo que abandonado, decerto encontraria paredes mortas, cheias de vida e ricas de histórias, e tetos em decadência, pintados, ornamentados noutras épocas por mãos criativas e espíritos doces, épocas em que o tempo corria de maneira diferente, no silêncio dos encantos da natureza.
Num pequeno jardim, outrora bem cuidado, convidativo ao descanso e à meditação, vi ao canto uma fonte, descuidada, triste e seca de águas. Aproximei-me e imaginei o fantasma da água a correr, suave, timbrada, fresca e sensual. No frontispício um pequeno painel de azulejos chamava-me ansiosamente. Ouvi dizer, vem cá, lê-me e mata a minha sede. Li em voz baixa e depois em voz alta. Consegui prometer-lhe que em breve irá ressuscitar para cantar, tranquilizar, embelezar, matar a sede do corpo e a fome da alma.
Ficou feliz.

2 comentários:

Bartolomeu disse...

Há quem chore de alegria.
Apesar de belas, penso que as duas quadras, ao referir-se à fonte, estariam talvez mais em harmonia com "cantar" no lugar de chorar.
No entanto, com a substituição, manter-se-ia a rima e, o sentido lógico não seria perdido, dado que, é perfeitamente possível orar-se cantando, e da mesma forma, cantando, podemos penetrar nos grandes mistérios, da vida das fontes.
;))

Luis Moreira disse...

As fontes despertam sentimentos...gostava de os descrever assim.