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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Nem o Carnaval escapou...

Os trabalhadores da CP continuam a fazer greves. Primeiro contra as alterações das condições salariais anunciadas, agora contra as anunciadas alterações já em vigor. Têm sorte em ter trabalho e de trabalharem numa empresa de um sector protegido. Muitos trabalhadores do sector privado e do sector público viram os seus salários gravemente reduzidos devido à austeridade e perderam os seus postos de trabalho. Sendo um direito inalienável, a banalização das greves da CP, para além das severas consequências que impõe numa empresa altamente deficitária, tornou-se um problema económico e social do País e, também, orçamental, não há impostos que cheguem. Ouvi na televisão que esta greve durante um dia inteiro custa 1,1 milhões de euros. Um montante que tem muita força. Com austeridade ou sem ela, a CP não seria a CP sem o nível de greves a que já nos habituou. Para quando uma nova CP?

6 comentários:

Zuricher disse...

Cara Margarida, acabar com a actual CP, liquidar a empresa, simplesmente e tudo para a rua começando pela administração e acabando no mais novo contínuo, seria algo com várias vantagens. Algo que iria muito além do que o problema dos maquinistas. A CP é hoje em dia uma empresa muito, muito doente.

Há, porém, um problema e de monta. Não há em Portugal quadros aptos para as posições chave da empresa em vários dominios. Não há quadros técnicos para vastas posições da empresa, não há gente com bagagem técnica para uma série de funções. E este é um grande e muito grave problema.

A CP é uma empresa que vem decaindo há vários anos e nos últimos 10-15 foi o descalabro total. Uma empresa que, pese embora as suas deficiencias, já foi uma escola de engenharia de nivel mundial, que chegou a ter o melhor laboratório de águas e carvões em empresas ferroviárias na Europa, que chegou a ter das melhores engenharias de via da Europa (algo que hoje em dia está na REFER mas tambem desapareceu), que nos anos 50 foi visitada por engenheiros americanos para conhecerem aprofundadamente a forma como organizou a manutenção do material diesel recém recebido da casa Alco, americana, entre várias outras metas alcançadas é hoje em dia uma casa desfalcadissima de quadros técnicos. Até mesmo numa área vital para qualquer empresa de transportes, a oferta comercial. Gente que saiba fazer uma análise correcta de viagens num determinado eixo ou linha e desenhar uma oferta comercial com pés e cabeça.

E o pior é que em Portugal não há gente nem com a bagagem técnica requerida nem em quantidade suficiente para desempenhar estas funções e criar uma nova CP com pés e cabeça de fio a pavio.

É uma pena a forma como foi desbaratado todo um manacial de know-how que existia e que embora seja fácil desbaratar é dificil e leva muitos anos voltar a criar.

Suzana Toscano disse...

Muito interessante o comentário do caro zuricher a propósito do post da Margarida. De facto, se conseguimos tantas vezes analisar a decadência a que se chegou, é raro conseguirmos ir buscar as verdadeiras razões, não as circunstanciais - que mais não fazem do que evidenciar o mal que já lá estava - mas as profundas, as que corroeram, as que empobrecem verdadeira e duradouramente, a falta de competências, o desbarato de quem sabe, o desprestígio de funções e, sobretudo, a ausência de balanços sobre o que foi bem ou mal feito. EM Portugal, parece que tudo começa do zero em cada dia.

Tavares Moreira disse...

Cara Margarida,

Uma companhia agonizante, com material circulante que é uma vergonha, pessoal do mais irresponsável e arrogante que se pode imaginar, entregue a estas greves selvagens em absoluto desrespeito pelos utentes, a CP é hoje um fantasma esfarrapado da companhia que, apesar de tudo, prestava um razoável serviço há 40 ou 50 anos...
Mas é também a imagem de um País à deriva, que a absoluta incompetência (e não só) da generalidade da classe política reduziu à condição de pedinte internacional, a qual parece que resistimos, com todas as forças, a abandonar!
Veja só estes apelos permanentes para que peçamos sempre mais e mais: mais tempo, mais dinheiro, menos juros, mas sempre, sempre a pedir!

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Zuricher
Não sendo viável a criação de uma nova CP, também pelas razões que referiu, teremos que viver com a CP que temos. Como poderemos reabilitar a CP se não temos gente com a necessária preparação? Julgo que interpretei bem a sua nota. Muito preocupante.
Suzana
Quando não se aposta na competência e qualidade das pessoas o que é que se pode esperar? Uma desqualificação dos serviços, uma perda de capacidade para fazer bem feito. A falta de instrumentos de gestão de recursos humanos não só compromete o futuro como anula todo um caminho feito para valorizar o mérito e privilegiar a competência.
Dr. Tavares Moreira
Tão modernos e evoluídos numas coisas, mas depois tão medíocres noutras. A CP é um bom exemplo desse contraste a que não é alheio a classe política que nos tem governado.

Zuricher disse...

Cara Margarida, pois se se quiser reabilitar a CP ou fazer uma nova CP a alternativa é contratar os quadros que fazem falta no exterior para as áreas que não podem ser cobertas recorrendo a quadros Portugueses. Em Espanha, Inglaterra, Alemanha ou Estados Unidos, alguns exemplos, há gente com a bagagem técnica necessária. E não basta contrata-los. Há que dar-lhes condições para poderem exercer o seu saber. A história de ser o secretário de estado a dirigir a empresa teria que acabar. Sobre este último ponto em particular, está a correr neste momento no tribunal europeu um processo de infracções contra Portugal por vários temas ferroviarios, um deles sendo precisamente o desrespeito por sucessivos governos da autonomia de gestão da operadora ferroviaria. Essa autonomia de gestão é principio basilar e consagrado nos pacotes ferroviarios com legislação sobre a organização do sector ferroviario na Europa. Por curiosidade e sem nada a ver com este assunto em particular, outro tema pelo qual Portugal está a responder é por não promover o equilibrio financeiro da REFER, ou seja, é a forma da CE dizer que esta história de mandar o gestor de infra-estruturas fazer mas não pagar dando avales para endividamento não cola nem é aceite.

Veja o endereço abaixo. É o curriculum do actual director comercial de passageiros da RENFE. Pode virar a CP de alto a baixo, do avesso e pelo direito outra vez, revolver todos os cantos e recantos da Calçada do Duque e não encontra ninguém com, sequer, 1/4 deste curriculo. Quando me refiro a gente com bagagem técnica é precisamente a gente como este senhor que me refiro, com curriculos relevantes, cada pessoa na sua área de especialidade.

http://albertogarciaalvarez.com/curriculum.htm

No mesmo site poderá ver a obra que este senhor tem publicado ao longo da sua vida profissional.

Quando falo de gente que saiba o que está a fazer é a isto que me refiro.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Zuricher
Nas empresas públicas e na administração pública, como acontece com as empresas privadas, só é possível fazer um trabalho de qualidade com recursos humanos qualificados, com gestores e técnicos com currículos profissionais indiscutíveis e criando um quadro de responsabilização incentivador do mérito. E, como o Caro Zuricher chama muito bem a atenção, a autonomia de gestão é fundamental. Esta autonomia não é compatível com uma interferência política sistemática por parte dos governos. É o que por cá tem acontecido, com as empresas públicas a serem instrumentalizadas para servir objectivos políticos que nada têm que ver com a gestão profissional.
Em Portugal, temos pessoas muitíssimo competentes com currículos que são apreciados e valorizados pelo sector privado e por países estrangeiros. Concorrem com os melhores e são bem sucedidos. Enquanto os nossos políticos não apostarem na gestão profissional e independente, vamos continuar a ter muitas CPs, assim é difícil construir um país próspero.