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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

"Peccatum contra naturam"


A Terra é um belo calhau que não se cansa de girar em torno do Sol. Não conheço outros planetas, vivi sempre neste, embora gostasse de conhecer outras paragens, outros silêncios, outros sóis e outros universos. Para quê? Tenho a certeza de que lá fora as coisas são diferentes, tão diferentes que nem consigo imaginar quais. Nem consigo antever as sensações decorrentes dessas realidades. Sentir a diferença é um doce alimento para uma alma.
A ciência ilustra-nos a todo o momento com deliciosos mistérios embrulhados em cores e brilhos impensáveis, resfolgando enigmáticos corpos celestes que se entretêm a jogar às escondidas nas profundezas do abismo. Um abismo libertador. 
A Terra está cada vez mais pequena e mais poluída, sobretudo de ideias estranhas e comportamentos não aceitáveis. Será que há ideias a mais neste planeta, a ponto de provocarem aquecimento mental irreversível? Ideias a mais? Mas as ideias não são a expressão máxima da criatividade humana? São, de facto. O pior é que as velhas ideias perduram e renascem com tal força que o desequilíbrio social humano se torna no prato forte da existência. Não são as novas ideias que mais me perturbam, mas sim as velhas que durante muito tempo sequestraram a liberdade e a dignidade das pessoas.
Surpreende-me o fenómeno dos movimentos evangélicos que pululam como cogumelos por esse mundo fora, sobretudo em África, onde estão no auge. Arrebanham como carneiros mansos multidões de pessoas para as “cerimónias de arrependimento”, como está a acontecer, por exemplo, no Quénia. Neste país, um profeta, biofísico de formação, é um guru que tem nas mãos tudo e todos, até o próprio primeiro-ministro. Fico siderado quando leio que o “barbudo”, biofísico de formação, afirma ser capaz de curar a sida e que prognosticou no passado tragédias sanguinolentas como se fosse muito difícil prever acontecimentos deste jaez naquele continente, mas o caso da sida preocupa-me. O profeta barbudo, porque um profeta tem de ter barbas, compridas de preferência, as quais são diretamente proporcionais à capacidade adivinhadora, desenvolve uma campanha violenta contra a homossexualidade, afirmando que esta é imposta pelo ocidente e que “as relações entre elementos do mesmo sexo não são intrínsecas à cultura africana”. A este propósito, o primeiro-ministro queniano determinou em novembro de 2010 a prisão de casais homossexuais, porque é uma prática antinatural. Aqui está um conceito evangélico que não se confina apenas a este ramo cristão, os seus irmãos, católicos, também têm a mesma opinião.
Considero interessante o argumento de “antinatural”. Convém esclarecer que esta prática já foi detetada em mais de 1500 espécies, estando bem documentada em pelo menos 500. Claro que há espécies onde nunca foi observado este comportamento, mas também não fazem sexo, isto para não falar nos hermafroditas.
Esta coisa da religião andar sempre a meter-se com a sexualidade deveria acabar de vez. Eu sei que é um osso atravessado na garganta do pessoal do ofício. Porquê? Porque pode desequilibrar a sua ordem, limitar o seu poder e originar perda de influência. Não é só o sexo que está em causa, mas tudo o que mexa no princípio e fim da vida é uma inquietação capaz de provocar muitos engulhos.
Enfim, a Terra é um calhau muito interessante. Estamos sempre a dar topeiradas em coisas velhas, e observamos uma permanente renovação de falta de respeito pelas diferenças. Elas existem, logo, deixem-nas em paz, porque sentir a diferença é um doce lenitivo para qualquer alma que se busca a si própria ou outra, seja ela quem for. Mas este pessoal, que tanto invoca as virtudes da alma, desde que castradas, não pensa o mesmo das apetitosas notas verdes ou ouro das ofertas a um deus que nunca inventou o dinheiro. Nem deve saber o que é isso. Sempre é melhor pensar nas belezas das desconhecidas “diferenças” que habitam no silêncio dos abismos do universo, onde quer que isso fique ou signifique...

2 comentários:

Bartolomeu disse...

São imensos, diria até que infindáveis, os motivos "fabricados", para nos levar a ver o mundo e a entender os resultados da ciência, de forma diferente daquela que naturalmente eles se nos apresentam.
Concorrem para isso, as manipulações operadas pelos meios de informação, as empresas, poderes político e religiosos.
No meio de uma tempestade tão furiosa, torna-se difícil para o pacato ser humano, distinguir entre o certo e o errado, o razoável e o obsceno, o que pode ser benéfico e o que pode ser beligerante ou constituir perigo real para a sua existência, sobretudo se tiver atrás de si, alguém de reconhecida reputação a garantir-lhe segurança.
Estéticamente, confrontam-se permanentemente valores éticos, morais, sociais, religiosos, impossíveis de pesar e impossíveis de medir. Resta-nos acreditar no óbvio e encontrar nele a certeza que de um lado e do lado contrário se ouve apregoar como indiscutível.

Oscar Maximo disse...

Vá lá, já chegaram ao mundo ser pequeno, já não falta tudo para chegarem ao problema da população. É como os outros, dizem que a pegada ecológica é N Terras em vez de dizer, com os pés mais na Terra, que a população devia ser 1/ N