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domingo, 18 de janeiro de 2009

O cidadão e o cartão II

Continuando a história atrás iniciada.
Tendo então preenchido as formalidades para obtenção do meu primeiro cartão do cidadão, informaram-me que me comunicariam a data da entrega, que podia demorar uma semana, quinze dias, um mês, mas avisariam sempre. Não tenho que me queixar. Passados poucos dias, em meados de Dezembro, lá fui levantar o cartão, bonito e maneirinho e, sobretudo, com as duas orelhas, que custou ficarem registadas na fotografia.
Por desgraça minha, logo no dealbar do ano, fui miseravelmente roubado na rua, carteira, dinheiro, cartões de crédito e o preciosíssimo cartão de cidadania. Queixa na polícia e ida novamente à Loja do Cidadão. Cheguei eram nove horas. Senha número 107 e estavam a atender a 11...Recorri às contas anteriormente feitas: 96 a dividir por 6 postos dava 16 pessoas por posto, a meia-hora cada esperava 8 horas. Lá para as cinco da tarde seria atendido!...
Ao desabafar com a recepcionista, ela informou-me que tinha duas alternativas, ou fazer uma marcação prévia, viva o luxo, mas estava tudo reservado até meados de Fevereiro, ou ir a outro sítio, munindo-me de uma lista de locais, de Braga até Faro, passando pela Defensores de Chaves, em Lisboa. Lá fui ver a minha sorte. A bicha era bem menor. Senha 36 e ia na 24. Dos dez postos de atendimento, só quatro funcionavam e um era para os cidadãos prioritários: idosos, grávidas, pessoas com crianças. Com sorte e sem prioritários demoraria uma hora e meia. Demorei mais, porque logo apareceu gente com sinais iniludíveis de prioridade.
Pensava eu que as formalidades seriam menores, uma espécie de fotocópia, já que o anterior cartão tinha 15 dias. Não senhor, o processo era o mesmo, só tinha um nome diferente, o de renovação. Até foi mais complicado. Porque antes tinha todos os cartões anteriores, o que não acontecia agora. E porque a funcionária se começou a queixar amargamente de que o computador não atinava com a designação correcta para o meu caso. Roubo, não aparecia nas designações de renovação. Então o computador não prevê o roubo, perguntei. Não, não está na lista. Mas foi o que aconteceu, dizia eu. Não encontro, dizia ela e leu-me todos os motivos de renovação. Só se for extravio, dizia ela. Ponho? Oh minha senhora, estou por tudo…Pode haver extravio por motivo de roubo, argumentava ela…Vou pôr…Então ponha, é aproximado, dizia eu. Não me pareceu muito convencida. É que assim tem que pagar uma multa!... Extravio dá multa de 10 euros!.... Então roubam-me, o ladrão continua à solta e eu tenho que pagar uma multa? Só se arranjar outro motivo…Pagos os 12 euros pelo cartão, mais dez euros pela multa, lá me mediram outra vez, como se tivesse crescido em quinze dias e repetiram todo o processo.Às 14 horas estava despachado. Poupei 3 horas em relação à Loja do Cidadão. Num mês teria o novo cartão!...
No entanto, a ficção ultrapassou a realidade. O prazo foi menor, mas ao entregar-me o novo cartão, o funcionário considerou-o inválido, por não respeitar as normas!...Continua no próximo capítulo

8 comentários:

Luis Serpa disse...

Hoje jantei com um amigo suíço, que me perguntava como era a vida em Portugal. Pensei no seu post sobre o Cartão do Cidadão. Expliquei-lhe que a burocracia era realmente um problema, mas que não lhe via fim: por muito que os Governos queiram reduzi-la há sempre um gene, um, que acciona a proteína da complicação.

Acho piada (enfim, é um eufemismo): ele é dono de uma empresa que trabalha muitas vezes com o Estado (o de Genève, na ocorrência). Explicou-me que a burocracia também está péssima: para obter uma resposta de um funcionário público tem, muitas vezes, que esperar uma semana - e isto porque pega no telefone e os força. Senão, acrescentou com uma cara de quem acaba de assistir a um tremor de terra, "tem que esperar dez dias, até quinze".

Não respondi. Não sei o que dizer, nestas circunstâncias. "Recentemente" enviei e-mails a três secretarias de Estado. Ligeiramente mais recentemente telefonei, a pedir reacções. Foram más: ainda não tinha tido tempo de ler os meus mails.

O que eu compreendo, a custo - e o meu amigo suíço não compreenderia, nem a custo - : os mails seguiram em princípios de Dezembro.

Na verdade não vejo solução. Não vejo. Há-de ser assim até ao fim dos tempos.

jotaC disse...

Caro Drº Pinho Cardão:
Ai promete, promete... Este relato é uma ajuda preciosa para quando chegar a minha vez não "estrebuchar" contra o sistema, e encarar a coisa com outro olhar!

Tonibler disse...

Caro Pinho Cardão,

O meu caro não cometeu a imprudência de se dirigir a um serviço público sem gravata, pois não? É que pela descrição, o meu caro parece ter sido tratado na categoria dos "não há hipótese de ser amigo do doutor"....

Pinho Cardão disse...

Caro Tonibler:
De facto, estava de folga e vestia despreocupadamente...
Terá influência?

Suzana Toscano disse...

Caro Pinho Cardão, muito pedagógico este seu post,temos que passar a ter cuidado com a carteira não por causa do dinheiro (esse bem tão escasso) mas por causa do Cartão do Cidadão!

Tonibler disse...

Ora, caro Pinho Cardão, claramente o meu caro não leu as 10 regras tonibler para interagir com um serviço do estado aqui :

http://tonibler.blogspot.com/2008/11/j-algum-tempo-qu-e-no-postava-um.html#links

Nunca se vai sem fato e gravata...

Pinho Cardão disse...

Caro Tonibler:

De facto, tinha lido.Mas, miseravelmente, esqueci-me, com os resultados que estão à vista!...
As regras Tonibler são um verdadeiro serviço público!...

Pinho Cardão disse...

...e, com a devida vénia, irei transcrevê-las aqui no 4R!...