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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

"Uma morte suave"

Tenho uma sensação estranha de que a morte ciranda cada vez mais à minha volta, como os milhafres, que, nas suas espirais descendentes, desprezam a necessidade de alear, para alcançarem, silenciosamente, as suas presas. Não falham. É natural, dirão alguns, porque à medida que envelhecemos o número de candidatos vai aumentando. É certo que sim, mas não é menos certo que se sinta uma ansiedade, ou melhor, uma perplexidade crescente e mesmo intolerável. Não nos habituamos e ai de nós se um dia nos acostumarmos a tamanho fenómeno. Estou convicto de que nunca conseguirei aceitar, mesmo que aparentemente utilize as frases impostas pela sociedade para a justificar, ou então, como já vem sido habitual, remeto-me a um silêncio sepulcral como que a solidarizar-me com a vítima. Silêncio em troca de silêncio.
Quando certas pessoas me telefonam e começam a dizer: - Sabe quem..., antes que termine a frase, interrogo-as: - Quem é que morreu desta vez? E lá me dizem. Respondo com silêncios, entrecortados de curtas frases para silenciar o mais rapidamente a conversa. Ultimamente, alguns ex-alunos meus de pós-graduação morreram por cancro, ainda novos e plenos de vontade de viver. Convivi pouco com eles, mas o suficiente para os integrar na minha rede pessoal. Cancro do estômago, cancro da mama, linfomas, enfim, a representação prática dos tratados de patologia humana. Começo a idealizar a angústia do diagnóstico, a esperança vã da cura e a certeza do sofrimento por que passaram.
Terão tido uma morte suave? Se é que existe tal coisa! Não sei, tenho dúvidas.
Andava a pensar neles quando tropecei, numa livraria, com um livro de Simone de Beauvoir. Comecei a ler as duas primeiras páginas e verifiquei que a autora escrevia sobre a morte da sua mãe, os últimos trinta dias de vida. “Uma morte suave”! O título sobe-me bem. Adquiri-o e devorei-o em dois dias. No último do ano e no primeiro deste. Interessante a análise que a autora faz deste período. Ver a mãe condenada por um cancro, a indecisão de dar ou não autorização para a intervenção, os sinais intermitentes da degradação entremeados com os de recuperação, o refazer de ligações afectivas, a limpeza de remorsos, o desejo de dar e também de receber, a angústia e o desejo de vê-la morta, a necessidade de a ter, o olhar para o passado, o conflito entre a fé da mãe e o horror que tinha pela morte e a descrição do sofrimento, que era uma realidade visível, levaram-me a pensar que a escritora não considerasse a morte da mãe como suave, antes pelo contrário. Mas não. Fiquei perplexo, quando Simone escreve ter tido o sentimento, conjuntamente com a irmã, de que a tinham compensado naqueles dias pela paz que as suas presenças lhe transmitia, pelas pequenas vitórias conjuntas sobre o medo e as dores. “Sem a nossa vigilância obstinada, ela teria sofrido muito mais. Com efeito, por comparação, a sua morte foi suave.”
Todos temos a convicção de que não há uma idade para morrer. O facto de termos nascido, vivido, envelhecido não é razão para morrer. Quando se morre, “morre-se de alguma coisa”, e essa alguma coisa reveste-se, frequentemente, de roupagens dolorosas como que a desprezar e a violentar os nossos desejos e vontades.
A terminar, a filha afirma que não existe uma morte natural, “nada do que acontece ao ser humano é natural já que a sua presença põe o próprio mundo em questão. Sim, todos os homens são mortais. Mas, para cada um deles, a sua própria morte é um acidente e, mesmo se a conhece e aceita, uma violência ilegítima.”
Um desejo silencioso impeliu-me a escrever este pequeno texto. Uma estranha vontade de me convencer que poderá ter havido alguma suavidade na morte...

5 comentários:

Bartolomeu disse...

A morte é a evidência incontornável que nasce com o homem. Ponto final!
Por vezes aquilo que mais angústia nos causa é o desconhicimento da forma como irá ocorrer a passagem deste estado de semi-consciência, para um outro que adivinhamos seja o paraíso ou o purgatório conforme tenha sido o nosso comportamento neste lado de cá do espelho.
Confesso, sinto alguma curiosidade num aspecto: saber se depois da passagem continua a existir consciência. Se sim, provávelmente será esse o purgatório, se não, então poderei imaginar que existirá o paraíso. Se reflectir mais a fundo sobre esta questão, poderei até imaginar que se morrer em paz, ou seja, se antes de morrer a minha consciência não se encontrar em conflito com a consciência maior, ou universal, então provávelmente morrerei em paz e a minha parte sensorial, ou metafísica, ou espiritual, iniciará um processo que poderá ser perfeitamente aquele que nos é apontado nos cânones religiosos.
A par destas considerações, preocupa-nos, tal como o caro Professor descreve excelentemente neste texto introspectivo, o "percurso". Penso algumas vezes se não seria uma benção para cada um de nós, morrer de acidente, de preferência um acidente do foro vascular, ou cardiológico, um daqueles acidentes fulminantes. Mas, aquilo que realmente nos desgosta, ou nos angustia, não é tanto o que nos pode acontecer, e sobretudo a imagem de nós mesmo e hipotese de abandono durante o processo. Tal como a escritora refere, foi decisivo para que a sua mãe falecesse bem, sentir a presença das duas filhas.
O nosso tempo caracteriza-se pela falta de disponibilidade de uns para os outros, sobretudo, a falta de disponibilidade dos íntimos, daqueles com os cuais sentimos uma forma de identificação. Se reflectirmos sobre isso, concluímos, que apesar da evidência e da inevitabilidade da morte e até do maior ou menor estado de sofrimento pelo qual teremos inevitávelmente de passar, aquilo que verdadeiramente nos preocupa é se iremos morrer sem a presença de alguem com quem tenhamos uma afinidade profunda. Se estará ao nosso lado alguem que nos ame verdadeiramente, ou simplesmente um técnico de saúde, que apesar de competente e de poder sentir alguma espécie de sentimento carinhoso por nós, não lhe corre nas veias o mesmo sangue, não construiu uma vida com o apoio da nossa.
São muitos os dogma que nos conduzem à inevitabilidade da morte, mas podem ser tantas as proposições que nos levarão a aceita-la com a naturalidade desejada...

Bartolomeu disse...

Lembrei-me agora que poderia ter ilustrado o meu comentário com este velhinho tema dos Eagle:
http://www.youtube.com/watch?v=UKOTAiPxSAU&feature=related

jotaC disse...

Depois da perda dos meus pais reflecti “verdadeiramente” sobre a morte. Foi nessa altura que tomei consciência plena de que eu estava a seguir e interiorizei isso sem qualquer problema. Contudo, recuso-me aceitar a morte precedida de sofrimento.
O meu pai morreu com 80 anos e uma das coisas que o aterrorizava era ver doentes entubados nos hospitais ou loucos a deambular nas ruas. Dizia-me sempre: não quero morrer desta maneira. E não morreu!
Morrer em sofrimento e só, deve ser das coisas mais terríveis para o ser humano. Por isso estou certo que a morte da senhora foi suave devido à presença das filhas.
Bom ano para si, Caro Professor Massano Cardoso.

jotaC disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Professor Massano Cardoso
Será que pode haver uma morte suave quando a morte é lenta, aos poucos e poucos vai tirando a vida, vai consumindo as faculdades físicas e mentais, vai roubando as forças da esperança de amanhã a vida voltar a ser como dantes? Li uma vez que as pessoas que são atingidas por doenças muito graves, sem cura, com um tempo marcado de vida, aguardando que a previsão da morte não se cumpra, ficam num primeiro momento com esperança de um milagre, seguindo-se uma fase de revolta e finalmente a fase da aceitação. Em todas estas fases, muito dolorosas, dar e receber os afectos do amor e da amizade são actos muito importantes porque, a bem dizer, não há nada mais importante na vida do que a certeza do calor humano. Que melhor nos pode oferecer a vida que a possibilidade de oferecermos a quem está em sofrimento o que de mais rico o ser humano tem para dar?