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sábado, 21 de julho de 2012

A história não se reescreve

Num comentário desprimoroso, talvez mesmo rancoroso, a edição de hoje do Expresso refere a morte de José Hermano Saraiva.
Para o comentador, José Hermano Saraiva construiu uma forte imagem pública devido…a programas televisivos …merecedores de grandes reservas por parte de sectores importantes da comunidade académica”. Menos do que um historiador, José Hermano Saraiva foi um mero divulgador de episódios históricos, já que se terá limitado a encontrar na história, através de uma metodologia com frequência polémica,  um meio de projectar… pequenos e grandes episódios da história de Portugal. E por certo penaliza ao comentador o facto de, já em pleno regime democrático se ter transformado numa figura popular, apesar de um discurso com a história comprometido com o Estado Novo”.
No fim, a estocada final: Nesse período (em que foi Ministro da Educação),  explodiu a crise académica de 1969, que resultou na prisão e envio para a guerra colonial de dezenas de estudantes…”.
De facto, algumas dezenas de estudantes foram presos. Mas nenhum foi para a guerra pelo facto de ter sido preso. Alguns foram para a guerra, como tantos e tantos da sua geração, por terem sido incorporados no serviço militar. Depois disso, o mais certo era Angola, Guiné ou Moçambique. Acontecia com estudantes e não estudantes, contestatários, alinhados ou neutros.
A história não reescreve, embora muitos tentem fazê-lo. Mesmo à custa da exploração da morte de um historiador ilustre.

12 comentários:

Massano Cardoso disse...

Ainda levei "porrada" sob o seu mandato. Não foi agradável, obviamente, mas isso nunca me impediu de o admirar. E se era contestado como historiador, ninguém pode contestá-lo como contador de histórias e o que eu gosto mais na vida é contar histórias. Não li o Expresso. Há muito tempo que não o leio. Ainda bem.

Bartolomeu disse...

Bom... vamos lá por partes, caro Dr. Pinho Cardão.
Os estudantes mandados prender por reivindicar, por exemplo: oportunidades de acesso ao ensino superior para todos igualmente (entre outras), foram mandados incorporar no serviço militar e consequentemente mandados combater para as províncias ultramarinas como retaliação pelos actos contestatários ao governo de Salazar e Américo Tomás. Porque se bem se recordará, os estudantes do Ensino Superior, desde que caladinhos e bem comportadinhos, de preferência alinhados com o governo, não chegavam a cumprir este "dever pátrio".
Agora, que não podemos, ou não devemos, julgar na totalidade a grandeza do Homem, só com base nestas decisões, porque elas podiam não reflectir inteiramente o seu carácter... isso aí já não digo nada.
Isto não invalida, que muito boa gente, movida pelo sentimento do ciúme e da inveja e até por convicção pessoal, não o considere oportunista em algumas situações e até um "inventor histórico" em lugar de um Investigador histórico.
Eu tive oportunidade de o conhecer pessoalmente, para além de o ver e me deleitar, nos programas televisivos, e não tenho qualquer pejo em o declarar um enorme conhecedor, ~possuidor de uma visão histórica extraordinária. Um homem que não via somente a árvore e sempre a floresta.
Agora, quanto à intrepertação dos factos históricos, mesmo daqueles que se encontram documentados e ainda, dos quais existem testemunhos físicos, como lápides, padrões, edifícios, etc. desde que existam dois historiadores, existiram sempre duas ou mais interpretações. Não podemos esquecer-nos, que os cronistas, trabalhavam sempre por conta de alguem e os copistas, tinham acima deles, interesses, geralmente eclesiásticos.
Um bocadinho mal comparado, é mais ou menos como esperar ler aqui no "quarta" um post colocado pelo meu Estimado Amigo, dizendo mal de uma medida económica, tomada pelo actual governo PSD-CDS.
Vá, meu Amigo, por favor, não leve a mal a brincadeira, até porque lhe assiste todo o direito a ter as suas convicções políticas ou outras e a defendê-las.
;))

SLGS disse...

Caríssimo Bartolomeu:
Concordo no substantivo, com a generalidade do seu comentário, excepto quando diz: "...os estudantes do Ensino Superior, desde que caladinhos e bem comportadinhos, de preferência alinhados com o governo, não chegavam a cumprir este "dever pátrio"."
É que sabe, não sabe mas eu digo-lhe, eu fui um estudante universitário da época, daqueles caladinhos embora não alinhado ou desalinhado, sómente caladinho e bem comportadinho e, porque me "descuidei" em duas Cadeiras, fui de imediato chamado para cumprir serviço militar. Cumpri na metrópole e não fui mobilizado,sem "cunhas". Paguei caro pois três anos após a disponibilidade fui, obrigatòriamente reincorporado e fui bater com os costados a Moçambique, donde regressei em Dezembro de 1974. Assim, talvez por ser "caladinho e bem comportadinho" fui premiado com um total de 5 anos e 10 meses de serviço militar obrigatório, coisa de que se não gabam todos, ou quase todos dos "não caladinhos".
Tudo isto para lhe dizer que realmente aqueles que se "safavam" não era por serem "caladinhos" mas tão só por pertencerem a algumas, não todas,famílias feitas com o regime e, como agora acontece,serem os privilegiados do costume. Há sempre alguém que "pague" por eles. Até opositores, que nós conhecemos, tiveram tratamento privilegiado em relação à grande massa dos outros seus “camaradas”. É nosso, é visceral.

Bartolomeu disse...

Sim, sim, caro SLGS, sei disso perfeitamente. Não bastava ser caladinho e alinhadinho, tinha de ter também aproveitamento. Mas, se se manifestasse contra as políticas do governo, isso então, era "tiro e queda".
E mesmo nessas famílias "chegadas" ao governo, se houvesse um filho oposicionista, muitas vezes não se safava. Conseguiam atenuar a "coisa" e colocar o rapaz numa secretaria, não o mandar em missões de combate, mas ía lá malhar com os ossos e atrasar a vidinha académica, o namorico e o casamento, porque a quantidade de anos que por lá ficavam, custava a passar.

Ilustre Mandatário do Réu disse...

É relativamente frequente um grande divulgador A não ser ser considerado um mestre da disciplina X. São organizado vários argumentos desde falta de carreira académica na área, obra publicada e reconhecida pela academia e mesmo a natural falta de rigor que está associada à divulgação.

Em centenas de horas, ou de páginas que qualquer divulgador produz será fácil encontrar alguns erros e trivial afirmar dúvidas metodológicas.

O divulgador comunicando com a ralé ignorante e sobretudo quando se torna um sucesso de massas, num país basicamente inculto e ignorante como o nosso, terá naturalmente de fazer cedências.

É isto mau? Não. É isto trabalho académico? Também não. É mais relevante que o trabalho académico na área, se calhar da maioria? É, sem qualquer dúvida.

Em qualquer disciplina é natural existir uma natural diversidade. É raro um só homem ser um grande mestre da disciplina e divulgador.

A característica que mais admiro em JHS foi a defender sem papas na língua as suas ideias e não perseguiu quem dele pensava diferentemente. No reino tuga onde abundam as espinhas rastejantes e as serpentes, JHS ergueu a espinha como um verdadeiro homo erectus. Este é o legado mais importante de JHS.

Pinho Cardão disse...

Caro Bartolomeu:

Duas coisas, desculpe-me o amigo Bartolomeu, não correspondem à verdade. E uma outra que pode levar a erróneas, e porventura graves, interpretações de natureza pessoal e que me dizem respeito. Estou certo que se trata apenas de lapso de redacção, mas convém desde logo pôr os pontos nos iis.
Diz o meu amigo que os cronistas não seriam fidedignos por terem trabalhado sempre por conta de alguém, e assim nunca diriam mal da entidade que lhes paga; e daí parte para a improbabilidade de se poder ler no 4R um post meu criticando as medidas económicas do actual governo.
Caro Bartolomeu, acontece que não estou por conta de ninguém, nomeadamente do governo ou dos partidos do governo, nunca estive, nem estarei. Por imperativo cívico, dei e continuarei a dar, se e quando me pedirem, a minha contribuição desinteressada junto do Gabinete de Estudos do PSD ou do Instituto Sá Carneiro. Não tenho nem nunca tive qualquer cargo no governo ou função no PSD, a não ser essas que referi, a última das quais no apoio, com o Dr. Eduardo Catroga, ao último Programa do PSD. Terminada cada “empreitada”, saio. É um dos meus contributos de cidadania. Ah, fui Deputado independente do PSD durante 3 anos, no tempo de Durão Barroso. Para isso, e embora isso não fosse minimamente exigível, saí da entidade bancária onde prestava serviço. Perdendo dinheiro, claro está. Por imperativo cívico e por ser a oportunidade de poder dar uma contribuição mais directa à sociedade. A experiência não foi por demais positiva, dada a filosofia de actuação da AR. Como vê, não estou à conta do que diz ou refere. As minhas opiniões são minhas; e não são sopradas de fora. Por vezes acutilantes. Criticando opiniões e doutrinas e práticas, mas procurando sempre salvaguardar as pessoas. Esta é a minha maneira de actuar. E repito, não sou produto transacionável. Repito que estou certo não haver qualquer intenção de agravo no texto do meu amigo; mas, como quem cala, consente, eu falei, porque não consinto.
Como este comentário já vai longo, tratarei no seguinte dos outros pontos.

Pinho Cardão disse...

Caro Bartolomeu:
Continuando o comentário aos dois pontos que não correspondem à verdade.
1. Houve, de facto, é coisa evidente, estudantes presos por contestar e reivindicar e, por isso, incorporados na tropa. Mas nem todos esses estudantes foram para a guerra colonial. Sei do que falo; por exemplo, pertenci ao mesmo turno de incorporação dos estudantes de Coimbra que vairam Américo Tomás. Conhecia pessoalmente um ou outro e conheci os restantes na tropa, em Mafra, alguns no meu pelotão. Uns foram para a guerra do Ultramar ou colonial, como se quiser, outros não.
2. Diz ainda o meu amigo que os estudantes desde que caladinhos e bem comportadinhos, de preferência alinhados com o governo, não chegavam a cumprir este "dever pátrio".
Oh Bartolomeu, eu fiz parte, ao tempo, de vários organismos da Associação de Estudantes de Económicas, contestava o regime e a governação, conheço razoavelmente o que se passava. Os contestatários eram uma minoria, por muito que se queira fazer crer o contrário. A grande maioria queria era tirar o seu curso e de política pouco sabiam ou queriam saber. Claro que nenhum queria ir para a guerra. Mas o “destino” era lá ir parar. Claro que havia cunhas. Mas essas contemplavam tanto os caladinhos ou os alinhados, como os contestatários ou desalinhados. Dependia apenas da força da cunha. E essa força não estava só de um lado. Então o meu amigo acredita que a guerra, a esse nível, foi feita exclusivamente por alferes milicianos comandantes de pelotão contestatários do regime, os únicos que iam para lá?

Caro Professor:

De acordo com o meu amigo

Caro SLGS:
Corroboro plenamente tudo o que diz. Foi mesmo assim.

Caro Ilustre Mandatário do Réu:

Tem razão no que refere.
Mas o que me indigna é que os historiadores institucionais, a tal comunidade académica, e os críticos que a suportam, sejam capazes de ver o cisco no olho de JHS, e nunca vejam a trave nos seus próprios olhos. Claro que em todo o episódio ou julgamento histórico há factos mais ou menos obscuros, por isso é que a história não é definitiva.
Esses "erros" estão em todos os historiadores, não são exclusivo de JHS. Mas essa tal comunidade académica que, no seu interior, continuamente se flagela, aparece sempre unida contra o inimigo externo. O que entre eles é disfarçado para o exterior é empolado a quem não faz parte da corporação. Com os críticos a ajudar. Assim se propaga a "cultura" corporativa.

Bartolomeu disse...

Caro Dr. Pinho Cardão;
O "desafio" contido no meu primeiro comentário, assenta basicamente em três premissas; a primeira e de todas a mais importante, tem a ver com a constitucional confiança e respeito que nunca perdem a presença nos comentários que dirigimos mútuamente. A segunda, tem a ver com uma caracteristica que nos é comum; o sentido de humor. E ainda, as superiores capacidades de inteligência que identifico no meu Amigo e que me levam a desejar "esgrimir" pontos de vista, que apesar de diferentes, muitas vezes, não deixam de ser discutíveis e pretinentes.
Estes silogismos, que coloco num patamar sempre ao nível da amizade, funcionam de si para mim, como "ampolas de aumento do conhecimento" reforçados pela disponibilidade que me dispensa nos comentários-resposta.
Naquilo que concerne ao assunto dos cronistas, dos copistas e da relação de dependência às entidades para quem trabalhavam, e ainda a comparação que estabeleci com a ausência de criticas do meu estimado Amigo às medidas económicas, tomadas pelo actual governo, devem ser enquadradas dentro do espírito do post que publicou e da pessoa a que o mesmo se refere, e ainda das críticas que lhe são dirigidas póst-mortem.
Ora bem, diz o meu caro Dr. Pinho Cardão que admite da minha parte, um lapso de redacção... não será isso que terá impedido o entendimento do sentido daquilo que escrevi, mas sim, talvez alguma percipitação de dedução, causada pelo efeito do desafio que coloquei.
Aquilo que concretamente quis dizer com a tal comparação, resume-se numa frase de José Ortega y Gasset: "O homem é o homem e a sua circunstância". Penso então, que não restará qualquer equívoco, quanto ao carácter impessoal do meu comentário.
Quanto aos restantes ítems dos nossos comentários, penso que não merecerão maior análise, dado situarem-se num tempo e num espaço que desejamos não voltará a repetir-se.
De resto, sempre a considera-lo, estimado Amigo.

Pinho Cardão disse...

Muito bem, caro Bartolomeu.
Os bons amigos fazem-se esclarecendo devidamente eventuais equívocos. De imediato, que é o momento certo.

Bartolomeu disse...

É evidente que sim, caro Dr. Pinho Cardão.
E já agora, permita-me aludir à teoria antropológica batizada como "Número de Dunbar"; a qual estabelece que o tamanho do neocortex humano - a parte do cérebro usada para o pensamento consciente e a linguagem - limita a capacidade de administrar círculos sociais de número superior a 150 pessoas, independente do grau de sociabilidade do indivíduo.
Segundo Dunbar, a definição de "amigo" é aquela pessoa com a qual outra se preocupa. Partindo desta teoria, posso afirmar com segurança - uma vez que seguramente nos preocupamos uns com os outros- independentemente do tamanho do neocortex que cada um de nós possui, a amizade que dedicamos mútuamente, é impossível de medir!
;)

Pinho Cardão disse...

Mais uma vez muito bem, caro Bartolomeu.
No entanto, todas estas coisas são muito fluidas, pois também há quem diga que o que não é mensurável não existe. Filosofias...

Bartolomeu disse...

;))))))
É isso, caro Amigo; filosofias...
;)