Número total de visualizações de página

sexta-feira, 20 de julho de 2012

José Hermano Saraiva, o Professor

"Olhe, qualquer que seja, continuará a haver noites de luar, Serra de Sintra e o Tejo a correr para o mar".

Morreu José Hermano Saraiva, um homem que nos contagiou com a sua paixão pela História, pela leitura do Património, nos ensinou a desvendar os mistérios de uma linguagem oculta na pedra, nas casas, na geometria das ladeias, mas também nos costumes, nos cantares, nas tradições dos povos e na cultura dos mais simples. Como todos os bons professores, ensinou a gostar, a gostar de saber e a querer saber mais do que ele ensinava. De certa forma, com ele e as suas palestras, aprendemos a ler de uma maneira diferente.Podia também ser recordado por muitas outras coisas, pela sua vida intensa de político, de advogado de defesa (foi assim que ele disse, de defesa), como um extraordinário comunicador, alguém que tinha um genuíno prazer em chegar aos outros através da sua fala. Se calhava abrirmos a televisão quando ele estava a falar, era praticamente impossível não ficar ali presa, a ouvir, mesmo quando a conversa já ia a meio. Era um dom, o dom de ensinar.
Estive a ouvir uma entrevista que deu à Sic, já bastante quebrado fisicamente, mas ainda pujante na sua inteligência e sensibilidade. Falou como as pessoas são as suas circunstâncias, que a vida marca a cara e as feições, sobretudo o ódio e rancor, “é por isso que os santos são bonitos”, e nós, de repente, a ver com outros olhos o desfilar das imagens que nos habituámos a olhar sem reparar, é por isso, pois claro, transmitem serenidade mas não só, também bondade.
Falou da família como a “fundação de uma cidade”, “creio que é com essa unidade que as cidades nascem”, disse, hesitou quando lhe perguntaram se os filhos eram a sua riqueza, que sim, claro que sim,”mas a minha mulher está à frente deles” e além deles os amigos, as pessoas que estimou ao longo da vida. Uma grande cidade, a que ele fundou, via-se bem pela maneira como se lhe referiu. Num excerto de um discurso ouvia-se o Prof. Hermano Saraiva a dizer que Deus o tinha levado pela mão nas “ladeiras da vida” e que por vezes essas ladeiras “tinham custado muito a descer”, “o futuro não é sempre melhor, pode não ser”, quando se esperaria deste homem que falasse dos seus sucessos, do que lhe tinha custado ter êxito, eis que nos surpreende chamando a atenção para a descida, isso sim, é que é difícil, nada está adquirido, e ele destaca essa realidade numa simples frase, como se não tivesse importância nenhuma.
Gostei quando lhe perguntaram “acredita na vida depois da morte?”, primeiro um silêncio, a hesitação de um crente, depois a humildade de um sábio, “acredito que há problemas que escapam à nossa compreensão".
A entrevista incluiu algumas perguntas a sua mulher, Maria de Lourdes Sá Nogueira, quase tímida menos na afirmação categórica, apaixonada, da imensa admiração pelo marido. “Admirei-o nas atitudes que teve em todas as situações da vida, admiro-o e sempre o admirei desde que o conheci”. Quanto à memória que a História guardará de seu marido, teve uma hesitação triste:” Resta saber se o nosso futuro dará lugar a que as pessoas pensem muito na nossa História”.
Esperemos que sim. O Prof. Hermano Saraiva fez tudo o que pode para que aprendêssemos a valorizar a nossa História e, através dela, a gostarmos do nosso País. Bem merece ficar na História, e que “esta gente, que é muito boa gente” não esqueça o que nos ensinou.

8 comentários:

Massano Cardoso disse...

Ouvi há pouco a sua última entrevista. Estava a trabalhar e só ouvi parte. Retive três apontamentos. Os filhos que eram muito lindos em pequeno, mas agora não. À pergunta, tem medo da morte, bem, penso que não dói, adormece-se. Como gostaria de vir a ficar conhecido, abre os braços, sempre a falar...

Bartolomeu disse...

Poucos foram os episódios a que não assisti, de todas as séries televisivas com o Professor José Hermano Saraiva. Dizer que gostava, é pouco. Visitei alguns lugares que não conhecia, devido à forma como ele mos apresentou, e visitei outros que já conhecia, porque ele me chamou a atenção para pormenores em que nunca havia reparado. A forma empolgada como o Professor falava da história dos lugares e das vivências que neles se deram, assim como dos factos a que deram origem, fascinou-me desde o início. Fascinou-me também o seu interesse pelo progresso, apoiado na valorização dos locais e dos recursos humanos e geográficos. Um homem que pensou o país e as suas gentes, como poucos. Que exortou e que mostrou que é possível fazer excelentes omeletes, mesmo com poucos ovos, mas com muito querer.
Não assisti à sua última entrevista, mas reportando-me à última afirmação, transcrita no post anterior pelo nosso caro Professor Massano, digo que, o Professor Hermano Saraiva se enganou na resposta, talvez pela primeira e única vez; Ele nunca falou; Disse, sempre!

Pinho Cardão disse...

José Hermano Saraiva foi um homem de cultura; não daquela que se vende e compra ou oferece nos muitos workshops culturais ou nas ditas oficinas de cultura, só por si um nome que atenta contra o conceito. José Hermano Saraiva era um homem de saber, jurista, advogado, professor, investigador, historiador, divulgador da cultura e da história. Foi também político e nunca renegou ter sido Ministro de um governo de Salazar.
Claro que, perante homem tão notável, não deixou de haver sentimentos de inveja: os historiadores institucionais acusavam-no frequentemente, após cada programa, de falta de rigor, como se o rigor fosse monopólio detido por eles.
JHS fica na memória dos portugueses; todos lhe devemos alguma coisa.

Tavares Moreira disse...

Os programas do Prof. Hermano Saraiva prenderam-me centenas de horas em frente do ecrã de TV, ouvindo histórias e mais histórias relatadas de uma forma genial, que não tem competência.
A sua última entrevista emcionou-me pela forma totalmente desprendida como encarou o fim próximo da vida e a que o Massano Cardoso já se referiu.
Com a sua morte desaparece o melhor comunicador da televisão portuguesa, não havendo ninguém que, de perto ou de longe, se lhe possa comparar.

JM Ferreira de Almeida disse...

Emocionou-me também. Em especial porque, com toda a naturalidade, assumiu ali receios que tentamos esconder de nós próprios. A grande verdade é essa: o futuro? qualquer que seja haverá de facto mais noites de luar...

jotaC disse...

Cara Dra. Suzana,
Considero este post uma justa homenagem ao Prof. Hermano Saraiva, que soube com inteligência e simpatia ensinar a História de Portugal, comunicando, aproveitando naturalmente os recursos poderosíssimos da televisão. Daí, o seu mediatismo na vida e na morte a fazer o país lamentar a sua perda, sem contudo querer dizer com isto que o seu passado e a sua obra, só por si, não perdurem através da memória…

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
José Hermano Saraiva era um genial contador de histórias da nossa História, dificilmente substituível. Dava vida à própria História, não se limitando à mera narrativa, antes procurando ser um protagonista da época, transportando os telespectadores para o tempo e o espaço recreados com a sua fabulosa capacidade de entender o passado ligando-o ao presente.
Aprendi muito e dei o meu tempo por muito bem ocupado a ver os programas do Professor. A sua pessoa e a sua obra vão perdurar através da memória.

José Gonçalves Cravinho disse...

Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote (88anos)digo que quando andei na Escola Primária a História «dizia» que Portugal era uma terra de Heróis e Santos,mas só depois do 25 d'Abril e graças aos florins é que pude comprar livros e entre as centenas que comprei,comprei também a História de Portugal de Oliveira Martins e lá li que afinal Portugal também foi um País de Piratas e criminosos de guerra que procediam em nome de Deus.E o que me espanta é o Professor Saraiva ter sido um crente da Vigarice dos Vigários de Cristo e um Ministro da Ditadura clerical-fascista do Estado Novo.
Ao Povo,à Plebe crente,perdoa-se a sua ignorância,mas a um académico não se pode perdoar o ser crente no Absurdo e nos Vigários de Cristo.

A Pátria-Mãe p'ra mim madrasta,
empurrou-me p'rà emigração,
e maldita seja a Governação,
que Portugal p'rà miséria arrasta.