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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Contrastes do tempo que passa

Disse-me uma vez um amigo que só ficará seriamente preocupado com a idade quando tiver a idade de um Papa. Como referência achei piada, temos assim um largo tempo para vivermos descansados. Mas o facto é que isso da idade relativa tem muito que se lhe diga e hoje lembrei-me disso por causa de, no mesmo dia, me ter confrontado com os dois extremos, a lentidão da velhice e a exuberância da infância. Acontece que tenho que me ocupar por uns dias da minha mãe, pessoa já da idade do Papa e que tem imensas dificuldades de mobilidade. O resultado é que os gestos mais simples, que normalmente nos ocupam por uns momentos, como entrar e sair do carro, atravessar uma ruazita ou subir dois degraus para a pastelaria, leva um tempo incrível. É preciso aprender a moderar a “velocidade” que imprimimos à nossa vida, programar uma manhã ou preencher a tarde com várias coisas, nem pensar. E esta lentidão é para ela natural, pára no meio do caminho por qualquer coisa, porque é que paraste, mãe, e tu, porque é que andas sempre a correr? mas tens que fazer isso tudo hoje? não te sentas um minuto? E, por contraste, uma pessoa sente-se uma jovem dinâmica onde o cansaço não chega, onde o tempo ainda quase não tem dimensão, passa sem darmos por isso, o convívio com os idosos leva-nos a pesar cada momento, meu Deus, como o tempo deve custar a passar para eles, mas não é bem assim, o tempo divide-se em fracções diferentes e o desejo de fazer mil coisas e andar à pressa pura e simplesmente desapareceu. Em contrapartida, a importância que tem um pouco de tempo a conversar, um passeio é apreciado pelo que se vê com calma e não pelo muito que se vê porque o cansaço esbate tudo ao fim de pouco tempo.
Mas este meu contentamento por me sentir ainda jovem ao ponto de ter que moderar a minha energia foi confrontado com a visita de uns primos que trouxeram a neta de 4 anos. Uma menina encantadora que ficou doida de entusiasmo com o meu jardim, com cada planta, com o cãozito de uma amiga que também cá estava, quis ir ver o burro ao cimo da rua, depois voltou a correr pela rua abaixo, tive que a convencer a não desarvorar outra vez rua acima, subiu e desceu as escadas mil vezes, quis ir buscar a bonecada que ainda para aí tenho nos armários, transportámos tudo para a relva e voltámos a trazer para dentro, enfim, tenho que confessar que cheguei ao fim da tarde esbaforida, já nem tinha braços para lhe pegar ao colo e a baloiçar, como o meu pai nos fazia e eu fazia às minhas filhas, ela pedia, mais uma vez, mais uma vez, e eu morta, será falta de treino, quero acreditar que sim, mas que já não tinha mais forças, isso não tinha.
Depois de sairem arrumei a casa e a cozinha com a lentidão saborosa dos mais velhos, a minha mãe olhava-me da sua cadeira a dizer-me, mas ainda vais arrumar tudo, não sei como aguentas!, e eu a pensar que não, que já não aguento assim tanto, quando me sentei ao pé dela e ela me disse, está na hora de me ires deitar, levantei-me a custo, copiando-lhe o gesto de apoiar as mãos nos braços da cadeira a ganhar balanço para firmar os pés, os meus passos acertaram com os dela sem dificuldade, devagarinho, um degrau, pára, outro degrau, pára, e soube-me bem deixar escoar assim o tempo, lentamente, como se nada fosse importante senão cada gesto que se cumpre em cada momento que passa.

6 comentários:

Bartolomeu disse...

A minha mãe fez oitenta e dois anos. Ainda vive na casa dela, faz todas as tarefas domésticas e, apesar das minhas constantes preocupações, faz questão de sair todos os dias. Passa os fins de semana na minha casa e se não sairmos, sempre que me apanha a jeito, agasta-se porque não paro um minuto. Então, desata a enumerar aquilo que me viu fazer e remata sempre com o aviso; tu assim matas-te antes de tempo.
Eu rio-me e respondo-lhe; Oh mãe, eu já morri à nascença.
E lembro-me sempre daquele tema de Carlos Tê cantado pela maravilhosa voz de Isabel Silvestre,"A gente não lê", na parte em que diz: a gente morre logo à nascença, com os olhos rasos de lezíria.
http://www.youtube.com/watch?v=4BHdvDYyCVA
;)

Massano Cardoso disse...

O tempo move-se segundo a nossa vontade. Nunca me entendi com ele. Estamos em constante conflito, mas vou-me habituando aos seus caprichos e ordens, até que um dia lhe possa dizer, vai dar uma volta, desaparece.

jotaC disse...

"(...)Depois de sairem arrumei a casa e a cozinha com a lentidão saborosa dos mais velhos, a minha mãe olhava-me da sua cadeira a dizer-me, mas ainda vais arrumar tudo, não sei como aguentas!, e eu a pensar que não, que já não aguento assim tanto, quando me sentei ao pé dela e ela me disse, está na hora de me ires deitar, levantei-me a custo, copiando-lhe o gesto de apoiar as mãos nos braços da cadeira a ganhar balanço para firmar os pés, os meus passos acertaram com os dela sem dificuldade, devagarinho, um degrau, pára, outro degrau, pára, e soube-me bem deixar escoar assim o tempo, lentamente, como se nada fosse importante senão cada gesto que se cumpre em cada momento que passa.)"

A verdade é que fiquei um pouco emocionado... Gostei imenso.

Unknown disse...

Suzana, a menina — será sempre menina até morrer — e permita-me o trato que sou velho, escreveu o que só a honra. A sempiterna diferença de gerações. A menina portou-se muito bem. No seu escrito percebe-se o seu contacto com várias gerações e que lidou com elas como só uma Mulher sabe lidar. Abraço.

Suzana Toscano disse...

Caro Bartolomeu, não consegui ouvir o tema, aqui neste recanto a net é muito lenta, parece que já tem a idade do Papa :)mas acho que as mães dizem todas o mesmo, a menos que os filhos sejam uns pastelões e então é vê-las a abanar a cabeça de preocupação, julgas que vais ter sempre 20 anos, quando é que ganhas juízo?, as mães estão sempre de olho alerta, é o que é, a fazerem-nos sentir pequenos.
Caro Massano Cardoso, o tempo não espera nem nos ouve, se calhar ainda bem, temos que ir atrás dele, ou esperar o tempo certo, se fossemos nós a controlá-lo o que faríamos?
Caro jotac,às vezes os pedaços mais simples da vida podem ser emocionantes, se soubermos lê-los, obrigada pelo seu comentário.
Caro Unknown, bem vindo aqui aos nossos escritos, é sempre agradável ouvir chamar "menina" a sua maneira de escrever lembrou-me um amigo que já não oiço há muito tempo,o tempo foge e ficam tantas coisas por fazer.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
Há o tempo que passa a correr que não dá tempo para nada e há o tempo que de tão lento que é não deixa que o tempo passe.
O seu dia que aqui nos contou é bem a prova de que o tempo é muito relativo e que um dia pode ter vários tempos, tempos diferentes que nos são impostos pelos outros ou tempos diferentes que ajustamos aos nossos gostos ou circunstâncias. No outro dia ajudei uma velhinha de 99 anos a caminhar até casa, estava perdida. Caminhando com passinhos pequeninos, os 99 anos já pesavam, o tempo embora passando vagarosamente parecia ser demasiado rápido para que a sua memória tivesse o tempo suficiente para nos indicar a direcção. No final, acabou tudo bem. Foi o tempo...