Número total de visualizações de página

terça-feira, 31 de julho de 2012

Ora...

A tarde não ia mal, até que surgiu a jovem rechonchuda cheia de tatuagens mal feitas e sem gosto. A certa altura do exame comunicou-me que estava grávida. Na semana passada fui à médica que disse que estava de quinze semanas, então, agora está com dezasseis. Hum, pois, deve ser. Ao levantar-me para a examinar passo pela cadeira onde se tinha sentado e vejo um pequena carteira, um telemóvel e um maço de cigarros preto, John Player Special. Desculpe-me, mas a senhora não fuma, pois não? Fumo. Fuma? Grávida? Mas isso não é aconselhável. Eu sempre fumei, ripostou. Foi então que tive de argumentar, tentando proteger a saúde da criança, explicando-lhe os riscos e a falta de respeito pelo filho. Quanto a si não tenho nada a dizer, fume ou não fume o problema é seu, mas quanto à criança tenho o dever de a proteger. Devo ter ficado com cara de poucos amigos e tinha razão para isso. Fiquei visivelmente incomodado e a jovem não deve ter gostado nada da conversa. Que se lixe, pensei. Saiu e continuei a minha atividade consultando outra pessoa, no final lembrei-me que não tinha pedido a assinatura de um documento à jovem grávida. Pedi à secretária para ver se a senhora ainda estava, não, já saiu, mas pode ser que esteja lá fora. Foi ver. Passados poucos segundos entrou e disse-me, está ali, senhor doutor. Por que é que não lhe disse para voltar, a fim de assinar a ficha? Eu disse-lhe, mas está a fumar um cigarro, depois de acabar eu vou lá. Ela disse isso? Disse. Ora porra! As restantes pessoas que estavam na sala entreolharam-se perante a minha exclamação. Não expliquei a razão e nem tinha que explicar.
Ora porra!

2 comentários:

Suzana Toscano disse...

Ainda há quem pense que é uma questão de orgulho não deixar o hábito de fumar durante a gravidez e o aleitamento, é uma estupidez mas também acontece que por vezes a gravidez é mal recebida pelas mulheres, por muito que se criem doces melodias à volta do assunto é um fato que ao princípio causa pânico,medo de "nunca mais" ser como era,não é comum falar-se disso mas a gravidez, mesmo quando desejada, demora algum tempo a ser um "estado", começa por ser uma "ocupação", não é por acaso que as pessoas do povo se refriam à gavidez como "estar ocupada". Talvez a sua paciente se mentalize rapidamente e seja ela a primeira a querer proteger o filho, como é normal.

Tonibler disse...

Ora porra!