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quinta-feira, 26 de julho de 2012

"Sobrevivente"

Começo a ter alguma dificuldade em compreender, e até aceitar, certas designações, como "sobreviventes do cancro", uma nova classe de pessoas que passa a ter "personalidade" grupal. De acordo com os promotores da ideia, ou melhor, da designação, o "sobrevivente do cancro" é todo aquele que ao fim de cinco anos não apresenta manifestações clínicas do dito. Até aqui nada de mal, trata-se de um critério clássico para referenciar os que têm grandes hipóteses de estarem curados do mal. Mas a designação "sobrevivente do cancro" incomoda-me. Ao ouvi-la, penso de imediato nos "sobreviventes do Holocausto", mas quem diz Holocausto diz todas as tragédias em que a maldade humana consegue manifestar-se com todo o esplendor diabólico, sobreviventes de massacres, sobreviventes de guerras, sobreviventes de perseguições políticas e religiosas, sobreviventes dos gulags, enfim, são inúmeras as pessoas que conseguiram e conseguem sobreviver a uma determinada ação intencionalmente destruidora e de causa humana. A par destas devemos incluir outros tipos de sobreviventes, caso dos terramotos, outros acidentes naturais e os diversos tipos de desastres.
Falar de "sobreviventes do cancro" terá objetivos próprios, ao identificar pessoas que lutaram e sobreviveram a um cancro, o que é positivo, mas também para poderem obter alguns benefícios, como é o caso da proposta, que está em discussão, da isenção de taxas moderadoras. Perante esta análise sou obrigado a questionar, o que fazer relativamente aos "sobreviventes dos acidentes vasculares cerebrais", aos "sobreviventes de enfarte do miocárdio" e aos sobreviventes de qualquer situação clínica que, não sendo tratada, causaria inexoravelmente a morte? São muitas as situações que a podem provocar. Sendo assim, pergunto, não terão esses "sobreviventes" os mesmos direitos que agora querem dar aos "sobreviventes do cancro"?
Falar de "sobrevivência" é um lugar-comum. O ser humano não faz outra coisa, desde que nasce, senão tentar sobreviver.
A par das situações clínicas há outras igualmente importantes, representadas pelos sobreviventes dos maus-tratos, do terrorismo, da violência doméstica, da intolerância religiosa, da miséria social e económica, enfim, um dia destes teremos de perguntar às pessoas a que classe ou grupo de sobreviventes pertence. Não me admiraria nada que obtivéssemos todo o tipo de respostas, inclusive alguns poderem dizer, "sou um sobrevivente da estupidez humana".

Não esquecer que, de um modo ou outro, somos todos "sobreviventes" de qualquer coisa, e não me venham falar de que "sobrevivente de cancro" é uma forma de discriminação positiva, porque não é, já que muitos dos que sofrem de cancro sabem de antemão que nunca irão pertencer a este grupo. Imagino a angústia ao pensarem que não poderão vir a pertencer a esta “casta”.

Um dia destes, o médico ainda acaba por perguntar: Quem é que está na sala? Utente, doente ou sobrevivente? Resposta: um ser humano, senhor doutor. Ah, está bem, mande-o entrar, se faz favor.

3 comentários:

(c) P.A.S. Pedro Almeida Sande disse...

«Resposta: um ser humano, senhor doutor. Ah, está bem, mande-o entrar, se faz favor.»

Obrigado, professor Massano! O que precisamos é de pessoas que vejam o outro como ser humano... As crises são acima de tudo crises de valores e ética...

Bartolomeu disse...

Ouvi um dia o maestro Vitorino de Almeida dizer que, para dirigir uma orquestra, basta mover a batuta, depois, os músicos seguem sozinhos.
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=yzHKRSm1YcY
Ah si yo fuera diputado...

(c) P.A.S. Pedro Almeida Sande disse...

O problema caro Bartolomeu é que os homens da batuta em Portugal, invariavelmente a dirigem de rabo voltado para a orquestra!
A situação é cada vez mais preocupante, perante a a incompetência, a teimosia e a insensibilidade dos actuais arrogantes homens homens da batuta... Começa a atingir a classe média, média alta: Portugal e a Europa caminham para o desastre. Como em todas as crises graves do passado, uns avisaram e outros desvalorizaram.
Não sei se a batuta depois, transformada em pingalim, conseguirá travar o desespero e a indignação... a indignidade a que muitos começam a chegar, leva à irracionalidade!