Número total de visualizações de página

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Declínio no valor do Euro poderá salvar a zona ?

1. “A fall in the Euro can save Spain from collapse” é o título de um interessante artigo publicado na edição de ontem do F. Times, da autoria de Martin Feldstein, bem conhecido economista americano, professor em Harvard, no qual sustenta a tese de que a queda do câmbio do Euro, em especial contra o USD, pode ser decisiva para a ultrapassagem da crise que aflige a zona monetária europeia.
2. É curioso que Feldstein, um consagrado euro-céptico, argumentando desde há muito – e com toda a razão, percebe-se agora – que a zona Euro foi criada sobre bases muito frágeis e imperfeitas, apareça nesta altura com uma mensagem de esperança na sobrevivência desta zona e graças ao funcionamento de mecanismos de mercado.
3. Feldstein nota que o Euro depreciou cerca de 15% em relação ao USD nos últimos 12 meses (mais ainda em relação a outras divisas internacionais) e que poderá ajustar outro tanto nos próximos meses, a caminho da paridade Euro/USD = 1.
4. Este forte declínio do valor externo do Euro reflecte, na sua opinião, a percepção dos mercados de que para o Euro subsistir o seu valor externo tem necessariamente de cair.
5. Um valor bastante mais baixo do Euro estimulará fortemente as exportações dos países economicamente mais desequilibrados, que precisam de desvalorização como “de pão para a boca” – afirmando Feldstein que cerca de 50% das exportações (de bens+ serviços) desses países são dirigidas a mercados não Euro - o que será talvez verdade em termos médios mas não é (ainda) o caso de Portugal (em que essa % será pouco superior a 30, embora em crescimento) e sobretudo da Grécia.
6. Para além desse benefício directo aos países em maiores dificuldades, o declínio do Euro também estimulará as exportações da Alemanha e dos seus “satélites” do Euro, os quais poderão assim importar mais dos periféricos, reduzindo os desequilíbrios comerciais internos da zona Euro. Este processo deverá ajudar ainda de forma decisiva o cumprimento de programas de ajustamento/resgate a que os periféricos estão vinculados.
7. Nota curiosa: embora o título confira especial destaque à Espanha, no texto do artigo a Espanha só é mencionada no 1º parágrafo e a propósito da crise recente da sua dívida. A receita salvífica de Feldstein aplica-se indistintamente a todos os países em dificuldades – sobretudo à Irlanda, permito-me acrescentar.
8. Oxalá Feldstein tenha razão e possamos assistir até ao final do ano à continuação da convergência do rácio Euro/USD para a unidade...salvando a zona Euro do colapso (não apenas a Espanha)!

6 comentários:

Zuricher disse...

Caro Tavares Moreira, parece-me que convirá analisar também os impactos da desvalorização cambial do euro na Alemanha, Holanda e demais países ricos...

Tavares Moreira disse...

Está prevista na breve análise de Feldstein, tal como de passagem referi: o esperado efeito no aumento das exportações desses países determinará uma subida de salários e do consumo privado que deverá contribuir para reduzir os desequilíbrios comerciais intra-zona e dar uma "segunda" ajuda aos países da mesma zona que se encontram em maiores dificuldades. Feldstein não esquece ninguém...

Tonibler disse...

Eu também espero que ele tenha razão, mas para ser franco, acho que ele está a cair na maior limitação dos economistas: a de não conseguirem virar o gráfico. E depois misturam as causas e os efeitos.
O que favorece as exportações é o "cambio" entre a unidade de trabalho(económico) e o euro. Esta resulta dos estados pararem de colocar dinheiro "inútil" na sociedade. O que é que interessa o USD para a conversa é algo que me escapa completamente. Até porque se o câmbio favorecesse as exportações quem deveria ser prémio Nobel era o Robert Mugabe.

Tavares Moreira disse...

Caro Tonibler,

O câmbio conta e muito no curto prazo, nomeadamente em economias, como é o caso destes países do Euro em aflição, em que o ajuste dos preços internos, por falta de pressão da procura, é muito limitado (salvo no mercado dos combustíveis, em que a concorrência é perfeitíssima).
Assim, creio que Feldstein tem uma boa dose de razão embora me pareça que a Irlanda vai beneficiar bastante mais do que os parceiros de resgate por força da muito maior abertura da sua economia.
Mas a sua observação sobre o papel dos Estados na perda de competitividade das economias é inteiramente justificada, na minha opinião.
A enormidade de recursos que se consome inutilmente por causa das infinitas funções do Estado (em sentido amplo),que produz essencialmente inutilidades e que alimenta uma procura "artificial" de bens e de serviços (sem qq contrapartida produtiva), está certamente na origem do enorme sobreendividamento a que chegamos...
E se essa imensa hipertrofia das muitas actividades inúteis do Estado não for severamente corrigida, mais tarde ou mais cedo voltaremos ao mesmo...

Tonibler disse...

Caro Tavares Moreira,

O meu ponto é que câmbio não é uma medida administrativa, é algo que é definido pela troca. Troca essa que é em USD, como é em Euro, como em qualquer coisa. O câmbio é uma consequência, não é uma causa. A causa é a redução da procura do trabalho nos pequenos países que o torna mais barato face a qualquer referencial - USD incluído - que não seja aquele que o parcialmente representa, no caso o Euro.

Era a isto que e referia quando os economistas "não viram o gráfico" :). Se apresentar a um economista um gráfico de com dívida pública no X e o PIB nos Y ele conclui "quanto maior for a dívida pública mais rico o país se torna", se trocar os eixos ele conclui "quanto mais rico for o país, mais divida ele contrai". Mas nunca se lembra de pensar que as variáveis podem representar exactamente a mesma coisa. Quando leio aquelas pantominices do Krugman no NYT estão cheios destes gráficos "que não se viram".



Isto com a ressalva óbvia de que economistas é uma fauna com enorme diversidade e o que um diz, o outro ao lado contraria e que conheço muitos que têm uma sensibilidade natural para nem sequer procurarem uma causalidade nas coisas.

Resumindo, esta coisa toda, sim, acho que o senhor Feldstein tem razão, mas acho que está confundido com as causas.

Tavares Moreira disse...

Caro Tonibler,

Câmbio é simultâneamente efeito e causa.
Sendo um preço, como qq outro preço depende da oferta e da procura...o Euro tem estado a cair porque há muita gente a vender Euros e a comprar outras moedas, compras e vendas que nada têm a ver com transacções de bens e de serviços.
Segundo a opinião de Feldstein - e será este o ponto mais curioso dessa opinião - este movimento reflecte a convicção do mercado de que para o Euro subsistir tem de perder valor pois esse será o processo da zona Euro corrigir mais eficazmente os seus desequilíbrios.
Temos pois o câmbio como EFEITO de um jogo de oferta e procura e o mesmo câmbio como CAUSA de ajustamento dos desequilíbrios de economias do Euro mais afectadas pela crise de confiança (pelo excesso de Estado, certamente).