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terça-feira, 4 de julho de 2006

Simplex e propaganda

Combater a burocracia do Estado é um objectivo que qualquer português defende.
Criar um programa para alcançar esse objectivo só pode ser aplaudido.
Mas pretender apresentar "serviço" ao fim de três meses não é sério e denuncia preocupações propagandísticas censuráveis.
Bem pode o Governo falar das 333 medidas do Simplex e lamentar-se que é a própria burocracia do Estado que atrasa a sua aplicação.
Basta conhecer este Estado e as suas debilidades para perceber que este trabalho levará anos.
Os sistemas de informação da administração pública continuam por modernizar.
Exigem-se escrituras públicas de habilitações de herdeiros com custos astronómicos para se legitimar de forma meramente declarativa aquilo que os serviços de finanças deviam saber.
Os cidadãos têm que esperar duas semanas para obter uma simples certidão da segurança social.
Não existe um cadastro actualizado dos prédios rústicos e urbanos.
Habitualmente, os serviços públicos exigem aos cidadãos documentos de outros serviços públicos que deviam ser trocados directamente entre esses serviços.
Quando nos dirigimos a Conservatórias e Notários constatamos frequentemente que cada um faz a sua livre interpretação da lei e não existe qualquer preocupação em harmonizar os procedimentos.
Estes são alguns exemplos do País que precisa de um Simplex duradouro e que não esteja submetido a calendários irrealistas ditados por necessidades propagandísticas.

11 comentários:

Carlos Monteiro disse...

Caro Vitor Reis,

Implacavelmente a ditadura dos pequenos senhores da Administração Pública, que tentam manter os seus feudos imunes a alterações que debilitam o seu poder miserável, faz-se sentir como força de bloqueio (esta sim, real) a medidas tomadas por nós, eleitorado, por via de quem elegemos.

A minha pergunta é: Se numa empresa privada não se acatarem e prosseguirem as políticas decididas superiormente, o que acontece?

E na Administração Pública?

Estamos perante "medidas propagandísticas inconscientes" ou perante tomadas de decisão importantes de quem quer fazer, como é claramente o programa Simplex?

Ou de de facto existe gente ineficaz que por via da sua imcopetência (que lhes sustenta a existência) condiciona o nosso futuro?

Não será hora de apontar MESMO o dedo?

Anthrax disse...

É... parece que o Simplex está a ficar um bocado Complicadex, o que é uma gaitex. :))

Tirando isso, desta vez vou dar razão ao VR. A implementação de qualquer projecto tem de ser feita de forma sustentável e isso não é compatível com calendários propagandísticos.

Quanto às forças de bloqueio, sim, estas são bem reais e o governo foi-se chocar com a pior delas todas. A função pública. E a partir do momento em que estes quiserem paralisar o país inteiro, podem-no fazer sem qualquer problema. E não estou a falar de greves. Isso é útil mas está um bocado demodé.

De facto, há muita gente incapaz e incompetente em vários lugares e em vários sectores. Mas o grande grosso ocupa cargos de gestão e de direcção. São estes, que em última análise, são os maiores incompetentes e os maiores responsáveis pela incompetência e ineficácia dos seus subordinados.

Por isso é que gerir ou dirigir o que quer que seja é uma das piores coisas que pode acontecer a alguém minimamente responsável.

É claro, depois temos os tolos e os irresponsáveis.

João Melo disse...

diga 333...

Anónimo disse...

"Para quem não recorda, a burocracia moderna foi uma criação bem intencionada do alemão Max Webber. Logo na génese, este sociólogo concebeu-a para simplificar procedimentos, justificando assim (e não cito) a sua ideia: deve pagar-se para que os funcionários ajam de forma pré-estabelecida, impedindo assim que as suas emoções interfiram no seu desempenho. O monstro, portanto, foi-se fortalecendo. Ganhou resistência à mudança, e passou a viver em função dos seus próprios vícios. Sem papel, nada avança – lembraram os Gato Fedorento. O Governo, ao que parece, esqueceu este detalhe" - Marim Avilez de Figueiredo no DE de hoje

Vítor Reis disse...

Caro cmonteiro,
Concordo consigo.
Mas parece-me que fugiu à questão que abordei.
Porque é que o Governo tem tanta pressa em apresentar resultados?
Se o Governo me viesse dizer que ao fim de 3 meses tinha resolvido 5% dos problemas da burocracia, eu não acreditava!
Você achava isso possível?

JardimdasMargaridas disse...

Mais uma iniciativa política muito oportuna, não fosse a oposição tecê-las (enfim, o risco até nem era grande).
O Governo sabe, e se não sabe devia saber, que 333 medidas Simplex (ou metade, ou um terço, ou um quarto,...) não se resolvem num abrir e fechar de olhos, porque a questão não é um mero exercício de informatização ou "webização".
É bem mais complexo, envolve toda uma reestruturação organizacional e processual, reconversão de activos, redesenho de processos, novos instrumentos de comunicação e controlo, etc.
Para já não falar de uma nova mentalidade e cultura de pensar e fazer as coisas, desde o topo até à base (ou da base até ao topo!)
O Governo vir lamentar-se que é a própria burocracia do Estado que atrasa a aplicação do Simplex é um facto político extraordinário.
O Governo tem então que lançar um qualquer outro programa Simplex para promover a desburocratização.
A urgência de mudança é grande, mas não é por anunciar medidas às centenas que vamos andar mais depressa.

Carlos Monteiro disse...

Minha cara,

Aqui pela minha empresa quando alguém se põe com essas esquisitices vem logo de lá um berro "Essa m***** é para fazer!!!"

E sabe que mais? Aparece feito...

JardimdasMargaridas disse...

Caro cmonteiro,

Na AP há gente boa e que quer trabalhar e que não precisa dos berros "Essa m***** é para fazer!!!" ou outros quaisquer.
O problema não se resolve com berros, porque 1º não há quem dê esses berros e 2º mesmo havendo, quem o fizesse corrreria sério risco de ser desautorizado por não ter cartões amarelos e cartões vermelhos para mostrar (isto é influência do Mundial!).

Caro cmonteiro,
O problema é falta de LIDERANÇA, política e de gestão. Acho que não é preciso dizer mais nada...

Anthrax disse...

Jardimdasmargaridas - 1; cmonteiro - 0

Mas atenção, cmonteiro - 0, mas ele esteve muito bem na sua resposta. Porque mesmo com liderança, política e gestão, às vezes também é preciso vir um berro para pôr o galinheiro todo na ordem. Até porque, quer na AP, quer no sector privado, há pessoas que pensam que só porque têm um "chefão do baril", já são considerados amigos do peito. E não é bem assim.

Adriano Volframista disse...

Vitor Reis
Sabe, o problema não é desburocratizar, o problema está na origem da papelada que os serviços públicos erguem como trincheira da sua eficiência.
Como muito bem disse João Salgueiro, para quê lojas do cidadão que mais não são que serviços públicos de luxo, quando o que se devia era tornar mais eficiente os serviços que prestam?
Assim:
Para quê sujar o dedo com a impressão digital no BI se não existe uma base de dados nacional com os ditos?
Aliás, para quê o BI se já temos a certidão de nascimento? Não existimos? Que melhor prova necessitamos? e porque não a conta no banco? Não são eles que melhor tentam acautelar os seus interesses?
Não bastava o cartão de contribuinte?
Se temos passaporte para quê outro documento suplementar?
Para quê as conservatórias do registo comercial, não podiam ser as associações a cumprir esse papel?
Porque será que um qualquer serviço público a despesa tem de estar inscrita e registada, antes a autorização tambêm e a realização idem, já reparou quantas operações, sobre a mesma acção se realizou? Qual é a taxa de fraude nas contas da AP?
Por outras palavras, porque será que o Estado desconfia tanto que exige provas sobre provas do que é óbvio (existir por exemplo)senão para justificar a sua existência e manter a suave neurose em que vivemos?

Anthrax disse...

Realmente... agora que fala nisso, eu nunca percebi muito bem porque é que há a Loja do Cidadão e os serviços centrais que, por sua vez, também atendem ao público.

Eu já nem vou entrar pela história da "cabimentação" das despesas na AP e do arraial que há à volta disso, porque não vale a pena. Mas essa da loja do cidadão está muito bem vista.