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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O ambiente e as pessoas

Eu pensava que a defesa do ambiente se destinava preservar e a aumentar o bem-estar do ser humano, e não constituía nenhum valor em si, ou nenhuma finalidade de per si. Hoje de manhã, fiquei a saber o contrário, num destes programas da rádio de defesa do ambiente.
Contava a autora que a sílica era usada no processo de fabrico utilizado pela indústria de confecções para tornar os jeans rotos ou com ar de usados, antes de serem postos à venda. Como a sílica constituía um atentado ao meio ambiente, os consumidores deveriam abster-se da compra desse tipo de jeans. E terminava: o ambiente agradece.
Portanto, aí está a mensagem: não comprar esse tipo de jeans, porque faz mal ao ambiente; que faça mal às pessoas, isso não tem qualquer importância.
Percebe-se o que a menina queria dizer. Mas utilizar o ambiente como razão final e não as doenças que a sílica causa a quem a ela fica exposta vem apenas comprovar que, lá no fundo, as pessoas são uma segunda ou terceira derivada no mundo dos ambientalistas. Porque o ambiente está acima de tudo.

Vargas Llosa e a Jornada Mundial da Juventude

Excelente, o artigo de Mario Vargas Llosa no El País de hoje, sobre a Jornada Mundial da Juventude. Aqui fica um excerto:
" Es esto bueno o malo para la cultura de la libertad? Mientras el Estado sea laico y mantenga su independencia frente a todas las iglesias, a las que, claro está, debe respetar y permitir que actúen libremente, es bueno, porque una sociedad democrática no puede combatir eficazmente a sus enemigos -empezando por la corrupción- si sus instituciones no están firmemente respaldadas por valores éticos, si una rica vida espiritual no florece en su seno como un antídoto permanente a las fuerzas destructivas, disociadoras y anárquicas que suelen guiar la conducta individual cuando el ser humano se siente libre de toda responsabilidad".

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Terá pernas para andar?

Interessante a defesa da aplicação de um imposto que tribute a degradação dos recursos naturais e a poluição. Os números avançados impressionam. Se “Portugal aplicasse uma taxa de carbono de 10 euros por tonelada, sobre todas as emissões nacionais de CO2, “a receita obtida era a mesma” que a obtida pelo imposto extraordinário que vai cortar 50 por cento do subsídio de Natal dos portugueses”. A medida apresentada permitiria substituir e reduzir os impostos sobre o rendimento, aliviando a carga fiscal que incide directamente sobre o rendimento disponível das famílias e das empresas, e poderia constituir um incentivo para que as actividades económicas adoptassem procedimentos que reduzissem nos processos produtivos a emissão de CO2, contribuindo desta forma para o desenvolvimento sustentável, preservando o ambiente e protegendo os recursos naturais.
Evidentemente que a aplicação do imposto requer estudo e como tal tempo. Não é um imposto ao qual o governo pudesse deitar imediatamente a mão. Se é verdade que estamos numa situação de emergência, que temos um conjunto de obrigações perante os nossos credores que temos de cumprir escrupulosamente, não deixa de ser necessário pensarmos como podemos a médio prazo estruturar de forma diferente uma série de domínios que são fundamentais para emagrecer o Estado e revitalizar a economia. Será que este imposto tem "pernas para andar"?

Dizem que em Setembro se resolverá o problema do modelo de avaliação dos professores

Pode ser que então se comece a falar de educação. Vale mais tarde que nunca. Mas já não é cedo.


Porque não se tributam a si próprios?

1.O PS, depois da insistência no agravamento da tributação dos rendimentos de capital – ou seja dos juros dos Depósitos a Prazo e dos dividendos (ainda) distribuídos pelas empresas – vem agora preconizar, sempre com grande solenidade, a aplicação de uma sobretaxa de 3,5% sobre os lucros das empresas superiores a € 2 milhões.
2.Não sei se esta nova proposta é para fazer esquecer a anterior, por entretanto se terem apercebido do erro crasso que seria agravar a tributação dos rendimentos de capital no contexto extraordinário que a economia do País enfrenta...
3.Não sei, mas também pouco imposta pois para este Partido aquilo que realmente interessa, ao que parece, é agravar a tributação em todos os domínios, visando fornecer mais recursos para o Estado que, como sabemos, tem gerido exemplarmente recursos muito "escassos"...
4.Esta paranóia fiscal, vinda de um Partido cujo governo, saído de funções há escassos 2 meses, deixou o País à beira da asfixia financeira exactamente pela total falta de moderação nos gastos públicos – apesar de não ter tido tempo para concretizar alguns projectos megalómanos que nos teriam deixado na mais completa penúria por muitos mais anos – é tão insólita que poderá justificar uma análise de tipo freudiano.
5.É bem possível que esta boa gente ache mesmo, apesar de toda a evidência em contrário, que é com uma enorme azáfama tributária que as nações podem prosperar e que, quanto mais se tributar, maior será a riqueza das nações...
6.Sendo assim, provavelmente não terão cura e até seria simpático fazer-lhes a vontade – desde que nós possamos proteger-nos das suas ideias e sobretudo dos seus propósitos de tributação obsessiva...
7.Uma solução seria permitir-lhes que se tributassem a si próprios, podendo a AR autorizar, excepcionalmente, que as suas propostas de nova ou agravada tributação sejam aprovadas sob a condição de terem como incidência subjectiva apenas aqueles cidadãos contribuintes ou as empreas cujos dirigentes se afirmem partidários das propostas rosa...
8.Se for indispensável uma alteração constitucional para o efeito, pois certamente reuniria os 2/3 necessários...
9.Creio que, para além de justa socialmente e economicamente menos nociva, essa solução teria uma vantagem adicional: reforçaria consideravelmente a base de apoio popular das ideias rosa...

"Gene faustiano"...

Se há algo que me seduz até aos limites são as lendas. Considero-as poemas da existência, porque permitem, ou melhor, conseguem dar vida e significado ao inexplicável. Afinal de contas andamos à procura de quê? Andamos a ver se conseguimos encontrar o sentido das coisas, mas só através das lendas é que é possível satisfazer tamanha aspiração. A ciência ajuda um pouco nesta busca incessante do inexplicável ao legitimar alguns mitos e ao provocar a criação de outros, graças a Deus, Ele mesmo um mito. Paralelamente, a filosofia encarrega-se do restante, ao criar novas angústias em cima de angústias mortas.
Há muitos anos, era um recém-médico, li, numa bela manhã de verão, recordo-me perfeitamente, um artigo na Science, descrevendo que na gruta de Shanidar, atual Iraque, há muitos milhares de anos, neandertais tinham realizado uma cerimónia fúnebre e utilizaram flores. Fiquei impressionado com este gesto de uma espécie, ou subespécie, com as mesmas origens que a nossa, e com a qual convivemos durante dezenas de milhar de anos até se extinguirem ou serem "exterminados" por nós, Homo sapiens. É sabido que as características morfológicas destes "não humanos" são por demais conhecidas, mais robustos, com crânios maiores, arcadas supraciliares muito desenvolvidas e sem praticamente queixo, dando-lhes um ar de brutalidade complementado pelo arqueamento dos fémures, só para citar alguns aspetos. Conviveram durante dezenas ou centenas de milhar de anos com a nossa espécie até desaparecerem há cerca de trinta mil anos. Tudo aponta para que este cantinho, onde hoje vivemos, tenha sido o último refúgio dos representantes de seres "não humanos", seres que tiveram pouca sorte. Coisas do diabo!
Os cientistas têm feitos estudos extraordinários no sentido de encontrar as diferenças genéticas entre nós e os neandertais. Em breve será possível “identificar” o que nos tornou humanos. Até agora tudo aponta para que as diferenças não sejam tão substanciais como à partida pareciam ser. Tudo leva a crer que terá ocorrido uma mutação qualquer, não muito substancial, algo que estivesse na base da "loucura", originando o aparecimento do "gene faustiano". Ninguém sabe ao certo qual é e onde se encontra, mas tem de existir uma base genética para a notável capacidade que nos caracteriza, em termos de arte, de imaginação, de aventura, de descoberta e de angústia. As análises comparativas entre os sapiens e os neandertais revelam que estes últimos não se notabilizaram na criação e desenvolvimento de artefactos, nem de coesão social e seriam portadores de genes diferentes em termos de "produção óssea", dos da fala, dos genes do autismo, apesar de terem ido para a cama com os nossos antepassados, talvez seja por isso que, à exceção dos africanos, sejamos portadores de um a quatro por cento dos seus genes. Afinal não estão completamente extintos, parte dos seus genes vivem em nós. Mas as coisas não ficam por aqui, outros seres "não humanos", como os devisonanos, também desaparecidos, deixaram alguns dos seus genes na nossa espécie, e estou convicto de que o futuro ainda trará mais surpresas.
O mistério do desaparecimento dos neandertais, e de outros, será o menos relevante, porque o grande mistério é saber o que é que nos tornou humanos, uma espécie com tanto "sucesso" que substituiu tudo e continua a substituir ou destruir o que encontra pelo caminho. Não há evidência de que os outros "não humanos" tenham sido responsabilizados por qualquer substituição ou destruição do que quer que seja. A única que teve um sucesso dos diabos, ou à custa do diabo, foi a nossa. Uma casualidade terá provocado mutações nalguns genes inclinando-nos para a loucura, só assim se explica a notável capacidade para criar e destruir, para amar e odiar, para salvar e matar. Um gene faustiano à solta, e aqui, entra na lenda, uma de muitas lendas, a do pacto entre a alma desejosa de tantas coisas e um Mefistófeles simpático que lhe faz a vontade. Apetecia-me regressar ao bar de Leipzig, onde Goethe se inspirou numa lenda que se auto reproduz ao longo dos tempos para explicar a natureza humana, uma ótima ideia, mas fico-me com a recordação dos neandertais que um dia, mesmo apesar das limitações ante os sapiens, se lembraram de colocar algumas flores na tumba de um dos seus. Quem sabe se os tais “um a quatro por cento” de genes neandertais que transportamos não serão os responsáveis?

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Os doutoramentos de valor deteriorado

Que o ensino secundário foi transformado num modo de produção em que a quantidade é o objectivo e a qualidade até pode prejudicar as estatísticas, já é matéria conhecida. Suspeitava que esse processo já tinha chegado aos doutoramentos, tal a ânsia que o anterior Governo em propagandear os “investimentos” em I&D que nos colocavam na vanguarda da Europa. Suspeitava ainda eu que Mariano Gago estava assim a recrear nas universidades portuguesas, fora de tempo e de contexto, os planos quinquenais de produção soviéticos.
Acabo de confirmar tal suspeita, num magnífico texto do Prof. Doutor Pinto de Sá, Catedrático do Técnico, e autor do Blog A Ciência não é Neutra, um grande Blog sobre Ciência, Tecnologia e Políticas Tecnológicas. Num texto, também ele notável, sobre a retirada de Steve Jobs, remete para um outro, em que diz o seguinte:
Ou seja: com Bolonha, a componente curricular do doutoramento totaliza agora 5 anos e meio, menos que um Mestrado dos anos 80/90 e tanto como um Mestrado americano, além de que deixou de existir o requisito de ter feito o grau anterior com pelo menos 14 valores!
Por outro lado,
a Tese que antes não tinha componente curricular mas se estendia em regra por 4 ou 5 anos, agora é para 2 anos.
Em suma: o Mestrado actual curricularmente é menos do que a antiga licenciatura, e o Doutoramento actual totaliza menos cadeiras que o Mestrado dos anos 80/90, para já nem falar no doutoramento americano...
Quanto ao Doutoramento antigo, de tipicamente de 5 anos de Tese, pura e simplesmente desapareceu. Não há. Nem o correspondente treino de I&D!...
E ainda: "a faceta das pós-graduações americanas, que é talvez a mais útil, a da existência de uma componente curricular de elevado nível e exigência, não está interiorizada (diria mesmo que muitas das cadeiras de mestrado das escolas de engenharia portuguesas são uma fraude)".
Por isso, tanto "investimento", tanto "investimento", mas tão pouca inovação. Porque doutoramentos de valor normalizado são gasto puro, fábricas de encher chouriços.

Balbúrdia fiscal - mas havia necessidade?

1.No seu estilo muito próprio e contundente, justamente contundente, Pinho Cardão já deu o mote sobre o tema: “Taxai, taxai, que os tachistas vão ficar contentes...” – referindo a enorme confusão que na classe política e na comunicação social se instalou, nos últimos dias, sobre o tema da “tributação dos ricos”...
2.Confesso que não sei quase por onde começar tal o nível de confusão que se estabeleceu no tratamento deste tema e de disparate exibido pelos diversos quadrantes políticos na sua abordagem...
3.Parece que férias curtas fizeram mal aos políticos, melhor seria que tivessem ficado ao sol mais uns dias para assentar melhor as ideias...ou que apanhassem alguma chuva entretanto, regressando à cidade com a cabeça mais fresca...
4.Começando pelos habitualmente mais delirantes em matéria fiscal - BE e PCP – aqui chegou-se ao ponto de sustentar a tributação da riqueza/património, incluindo neste conceito “items” como as cabeças de gado e as jóias de família...
5.Já estou a ver os infelizes lavradores do Entre Douro e Minho, por exemplo - produtores de leite que suportam há muitos meses prejuízos causados pelas quedas do preço do leite - de mãos na cabeça com um imposto contra o qual a única defesa seria o abate puro e simples do efectivo pecuário, fazendo desaparecer a base de incidência do imposto...
6.Passando ao PS, apesar da mudança de liderança, parece continuar fidelíssimo ao propósito de arruinar a economia por todos os meios ao seu alcance, depois de a deixar num sufoco financeiro...e advoga, entusiasticamente, a tributação dos rendimentos de capital...
7.Para o PS os principais problemas da economia portuguesa continuam a ser o excesso de poupança e de investimento, é preciso contrariar essa perigosa tendência a qualquer preço...não têm mesmo cura estas excelentes criaturas...
8.Mas nem o PR escapou a esta avalanche de propostas sem nexo - apesar de ter recusado (e bem) a ideia da tributação do património sustentada por algumas opiniões - ao atirar para cima desta fogueira a proposta de voltar a tributar as doações e sucessões cuja tributação foi (e muito bem) eliminada ao tempo de M.F. Leite...Nada tenho já a herdar, falo com independência...
9.Salvou-se o Governo, com um prudente silencia sobre o tema, admitindo apenas e de forma cautelosa um imposto extraordinário, semelhante ao que acaba de ser aprovado em França, com uma sobretaxa sobre os rendimentos mais elevados (acima de € 500.000 e sobre a parcela que exceder este valor no caso de França) o que, a título excepcional até poderá ser aceitável...
10.Em Espanha, curiosamente, o Governo socialista acabou com qq especulações sobre o tema, afastando a hipótese de um imposto extra “sobre os ricos”...
11.Será que a nossa classe política continua a não entender que o principal problema da economia portuguesa reside no excesso de recursos que são consumidos pelo Estado –no sentido mais amplo – e que aumentos sucessivos de impostos só contribuem para eternizar esta situação?
12.Que balbúrdia fiscal esta...mas havia necessidade?

domingo, 28 de agosto de 2011

Por terras da Eslávia do Sul: Na Kraju- XXII


FIM.............
NA KRAJU (em croata).......KONEC (em esloveno)......
KPAJ (em sérvio).......HÁ KPAJOT (em macedónio)
E ainda falta o sérvio em cirílico e o bósnio nos dois alfabetos!A língua tem muita força.

E forçou que a identidade de cada nação pudesse perdurar para além dos tempos e das ditaduras!
UFF! E eu cheguei ao fim!...

Até Seguro se sente inseguro

Distraído, fiel à regra auto-imposta de atravessar a silly season longe da idiotice mediática, não me tinha apercebido do bruá dos últimos dias, motivado, creio, por uma notícia do ´Expresso´. Só dei conta da agitação há poucos minutos ao ouvir José Seguro confessar que sente insegurança quanto a esta coisa dos espiões nacionais. Pretexto para comentar o assunto, apesar de serem poucos que o consideram importante. A generalidade dos cidadãos não leva nem um bocadinho a sério as repetidas estórias envolvendo a espionagem nacional.
Os factos noticiados - que só se tornarão oficiais após a conclusão do inquérito que os confirme, salvo se os resultados constituírem segredo de Estado - sugerem-me os seguintes comentários. Primeiro, a fazer fé na notícia, o tráfico de informações que tem as secretas como agente, é, afinal de contas uma via de dois sentidos. Ficáramos a saber, há dias, que a espionagem em Portugal visa a recolha sigilosa de dados que  podem ser fornecidos também a empresas privadas, sendo esse procedimento normal se tiver que ver com interesses estratégicos da nação, dizem. Naturalmente que o juiz desse interesse é o próprio serviço, já que não consta que alguém a ele exterior controle o destino das informações nem aquilate do interesse no seu fornecimento. Mas agora foi revelado que pelo menos uma empresa privada de comunicações móveis forneceu dados sobre telefonemas feitos no caso por um jornalista, o que faz supor que seguirá o mesmo procedimento seja qual for o cidadão visado. Fica por saber se se trata de uma operação de permuta de informações, dação em pagamento ou qualquer outra forma de prestação recíproca. Seja como for, julgava eu - ingenuidade! - que tal conduta era punida como crime, e crime grave, mas estou convencido que alguém virá explicar - e o inquérito concluir - que é assim pela natureza da actividade das secretas, que é intrinseco da espionagem em qualquer democracia "pisar a linha" que separa a legalidade da ilegalidade, e por isso o(s) autor(es) estão antecipadamente absolvidos já que o catecismo das informações ensina que nestas coisas o fim sempre justifica os meios.
A segunda nota nada tem de irónico. Ao longo da existência dos serviços de informações em democracia, têm sido inúmeros os episódios que os envolvem e que envolvem agentes, responsáveis e tutelas. Obviamente que não ajuízo do mérito e da eficácia destes serviços (não tenho para isso o mínimo conhecimento),  estando cônscio, porém, da sua importância para a protecção do Estado democrático. O que já não aceito é que estes serviços ou quaisquer outros possam, por um lado, ser instrumentalizados por quem quer que seja, havendo repetidos sinais de que nem sempre assim foi. Mas sobretudo não posso compreender, e muito menos tolerar, que os serviços de informações estejam moldados para defender o Estado dos cidadãos, encarando como ameaças à democracia direitos e as liberdades que são a essência da própria democracia.
Espero bem que alguém, com responsabilidade, resolva por ordem no bordel em que se transformaram as informações em Portugal. Em tempo de crise profunda são poucos os imperativos. Que este seja um deles em nome do que existe de sagrado em democracia.

O corvo que tem raiva a gatos pretos

Não é fácil ser-se surpreendido ao fim de muitos anos de atividade profissional, mas ainda vai acontecendo e quando menos se espera. Vejo doentes em fases ditas terminais com todo o cortejo de sinais e sintomas de degeneração, os quais me incomodam sobremaneira, levando-me a equacionar muitas interrogações para as quais não consigo encontrar respostas, e as que ouço, sinceramente, mais valia que os seus autores estivessem calados, porque a par da ignorância adicionam arrogância. Recebi um telefonema a perguntar se não me importava de ir ver um velho doente, no duplo sentido do termo. - Claro que vou. Uma resposta acompanhada de alguma angústia despertada pela sucessão de recordações, entre as quais as últimas, quando o seu estado, bastante deteriorado, física e mentalmente, não prenunciava nada de bom. Tinha feito várias tentativas no sentido de corrigir algumas perturbações, há já algum tempo, mas não vislumbrava os resultados esperados, ou, melhor, desejados. Não questionei sobre o seu estado atual ou as razões para o pedido de visita, tinha tempo mais do que suficiente para ver in loco ao final da tarde. E foi o que aconteceu. Ao aproximar-me da residência comecei a exercitar a memória e a estratégia a seguir, mesmo sem o ter examinado. Velho, doente e incapacitado, uma tríade diabólica em que tropeço amiúde e que me deprime. O que é que poderei fazer? O sol, que hoje estava bastante simpático, fazia esforços para me alegrar, mas não conseguia, apenas me acalmou o suficiente para que esquecesse a minha angústia. Subo as escadas e estranhei que o corvo não começasse a crocitar. Vive há muitos anos debaixo das escadas, transformada em gaiola, e é um excelente animal de guarda. Não o ouvi e nem o vi. Subi as escadas a pensar que o animal deveria ter morrido. Que pena, morre tudo. Ao chegar ao cimo fui saudado pela filha e, por detrás, sentado num mocho à entrada para a cozinha, estava o senhor X. Não esperava que estivesse ali, com um ar bonacheirão, sorriso malandro e cheio de carnes. A imagem que estava à espera era deitado no sofá, boca aberta, olhar no vazio, corpo rígido, sem dizer coisa com coisa e com a saliva a escorrer pelo canto da boca. Qual quê! Estava ali, sentado, na posse de todas as suas faculdades mentais, prolixo, satisfeito por se mostrar que estava em forma, embora estivesse preocupado com a sua saúde. A filha disse-me que andava com medo de morrer. - Ai anda? Bom sinal! - Viva senhor X., o senhor está com um aspeto formidável! Nem quero acreditar. - Foram aqueles dois medicamentos que o senhor doutor lhe deu. Interveio a filha. - Ele anda, anda sozinho e muitas vezes sem a bengala. Vai até ao quintal e tudo. Enquanto a filha ia debitando o sucesso da sua recuperação, o senhor X, inchado de satisfação, fixava-me com um sorriso irónico, um sorriso destilado ao longo de décadas e décadas de vida bem recheada de experiências e de histórias que mereciam ser contadas. Dotado de uma capacidade argumentativa muito difícil de rebater, apesar de não ter formação escolar, obrigou-me, desde sempre, a um cuidado redobrado na forma como lidar com ele. Ai de mim se lhe desse pretexto para contra-argumentar, desfazia-me com uma lógica terrível, embora não lhe assistisse a razão. Depressa aprendi esta sua qualidade para me impor e fazer com que aceitasse os meus conselhos e determinações. - Enquanto se ia desenrolando estas cenas, o corvo lembrou-se de começar a crocitar. - Afinal está vivo. Ainda bem. Mas por que razão estará a crocitar? Olhei para baixo e vi um gato preto. Ah! Está explicado. O corvo tem raiva a gatos pretos e se pudesse decerto que lhe arrancaria os olhos. - Bom, este final de tarde está a correr melhor do que esperava, o sol está simpático, o corvo está vivo e o senhor X está em forma. Levantou-se com uma agilidade surpreendente e fomos para o sofá. Direito, sem ajuda, sentou-se e disse-me que andava preocupado com aqueles "ais" que lhe vem lá do fundo, suspiros que não consegue controlar. - Preciso de arrotar, para ver se isto sai. Arranje-me qualquer coisa para deixar de suspirar. Expliquei-lhe que não era sinal de perigo, às tantas eram saudades de outros tempos, das raparigas... - Olhou-me com um sorriso muito malicioso, dizendo: - Acha que sim? Era bom, era! Fui obrigado a admitir que as suas capacidades estavam a funcionar bem. Um pequeno teste, fácil de aplicar. - Mas esta coisa da barriga, parece que estou empanturrado, chateia-me. É nas voltas de Lua que isto me dá. - Ai sim? Então, eu vou-lhe dar um medicamento para tomar quando se sentir empanturrado nas mudanças de Lua. - Está bem! A conversa continuou ao redor de outros assuntos e pude ver que o senhor estava muito melhor. Até quando não sei. O senhor X. estava feliz e ficou melhor depois da visita. Eu também fiquei feliz.
Quando saí o velho corvo de guarda não grasnou.

sábado, 27 de agosto de 2011

A taxa e o tacho...

E, subitamente, parece que todos querem mais taxas e mais impostos. Que, como sempre, vão provocar mais despesa. E mais gente a viver do tacho.

Taxai, taxai, que os tachistas vão ficar contentes!...

Avante taxistas e tachistas. O futuro é vosso!...

A Bem da Nação.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Por terras da Eslávia do Sul: O Lago de Bled e os casamentos- XXI



A cerca de 50 quilómetros de Ljubljana, no Parque Nacional de Triglav, o Lago de Bled, de origem glaciar, e a sua ilha, um deslumbramento da natureza. Com o Castelo, tornou-se um destino turístico de primeira grandeza, pela placidez e suavidade das águas, pela harmonia e paz que irradia, pelo ambiente distendido que produz, pela sensação de beleza calma que provoca. A conjugação da superfície de água límpida com as altas montanhas que servem de fronteira à Itália e Áustria confluem numa paisagem que se impõe à mente e aos sentidos e se torna inesquecível.
Nas margens do lago, um majestoso Palácio onde veraneava o Rei da Jugoslávia. Pouco majestoso para Tito, que o mandou remodelar e ampliar e onde passava a saison com a sua corte. Mesmo assim pequeno para a sua grandeza, mandou construir ao lado um outro para um dos filhos. Certamente em nome da igualdade de oportunidades para a família.
O Palácio de Tito é hoje um hotel de grande luxo. A par de outros, porventura menos sofisticados, mas que albergaram famosos de todo o mundo, como Agatha Christie, em busca de sossego e das curativas águas termais, uma das riquezas da cidade.
No meio do lago, a igreja da Assunção, com origem no século VIII, muito procurada para casamentos e para chegar à qual é necessário subir mais de 300 degraus. E em que é obrigatório o noivo transportar a noiva ao colo escadas acima, sem vacilar, tropeçar ou ter qualquer quebra de ânimo. Dizem que quem aguenta de braço firme e ânimo forte a subida com a preciosa carga tem força moral para suportar todas as tempestades futuras. Se a noiva não é deixada a meio das escadas tem casamento feliz para a vida inteira. Se o noivo soçobra, a coisa pode dar para o torto…
Local ideal para casamentos: o castelo altaneiro e um lago suave e bonançoso constituem a melhor ilustração para um lindo conto de fadas.

"Gato escaldado da água fria tem medo"...

Como qualquer cidadão tenho acompanhado com muita preocupação a situação financeira e económica deste mundo esquisito e do eterno pobre Portugal, não obstante alguns períodos de riqueza que este último já conheceu, mas que deverá ter satisfeito apenas meia dúzia de nacionais, como é obvio. Não é preciso ser-se especialista, nem possuir grandes conhecimentos técnicos, para saber o que é que se passa. Afinal de contas é "apenas" um fenómeno que se observa frequentemente à escala familiar, agora intensificada pelo tamanho da nau e pelos disparates de quem elegemos ou dos quem se "elegem" para governar o povo, tudo isto à mistura com aldrabices capazes de envergonhar o mais hábil dos vigaristas. Gasta-se muito, produz-se pouco e vigariza-se sempre que se pode. As medidas para aumentar as receitas são fáceis de equacionar, e elas estão aí no máximo, ou melhor, já ultrapassaram, e de que maneira, os limites aceitáveis. Quanto à redução da despesa sente-se um estranho tremor, não sei se de medo ou se devido a alguma incapacidade neurológica a prever um desastre incontrolável. "A ver vamos, como dizem os cegos". Quanto aos vigaristas, não vejo grandes medidas na sua eliminação ou controlo, até penso, posso estar errado, que esta situação lhes pode ser favorável.
Quanto aos chamado "imposto sobre os mais ricos", proposto pelos próprios, os supermilionários, torço o nariz. Não é que ponha em causa a filantropia de alguns, muitas ações humanitárias desta particular fauna estão bem patenteadas e merecem o máximo respeito. Contudo, é preciso conhecer como é que são ou foram produzidas as suas fortunas. Não acredito que muitas delas se tenham baseado em "valores" adotados posteriormente quando passaram a ser ricos. Se a situação económica se agravar também irão sofrer as consequências e deixarão de obter mais lucros, assim, o melhor é prescindir, através de um imposto especial a pedido, de algum do seu património, aliviando tensões sociais e permitir que os estados consigam estabilizar ou inverter a crise (o que eu não creio), e ainda podem ficar bem no filme! Ah! Há qualquer coisa que não bate bem nesta história, pode não ser nada disto, mas que há não duvido. "Gato escaldado da água fria tem medo", e eu já levei muitos escaldões!

Intemporal...

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Papeis trocados: empresas financiam os bancos...

1.De acordo com dados esta semana divulgados no Boletim Estatístico do BdeP, constata-se um fenómeno muito curioso:
– Os créditos concedidos (e outros activos detidos) pelo sistema bancário nacional às (sobre as) empresas não financeiras, no período de Junho/ 2010 a Junho/2011, caíram 1,8%, de € 142.506 milhões para € 139.921 milhões;
- Os depósitos das mesmas empresas nos bancos aumentaram, no mesmo período, de € 29.743 milhões (20,87% dos créditos) para € 31.229 milhões (22,7% dos créditos).
2.Estes dados revelam uma notável inversão de papéis entre a banca e as empresas: enquanto que em condições normais são os bancos que financiam as empresas, em Portugal e neste período em particular, são as empresas que financiam os bancos: e financiaram em nada menos que € 4.071 milhões (diminuição no crédito+aumento dos depósitos), ou seja quase 2,4% do PIB...
3.Esta anómala inversão nas relações entre o sistema bancário e as empresas é o resultado de uma anomalia ainda maior no funcionamento da economia portuguesa, ao longo dos últimos 15 anos, em que o recurso ao financiamento bancário, por parte de particulares e de empresas foi feito sem conta nem medida – muito por responsabilidade dos próprios bancos...
4.Esse descontrolo na concessão de crédito conduziu ao excesso de endividamento de empresas e de particulares, bem como à secagem das fontes de financiamento dos bancos que não conseguem crédito no exterior (com a excepção do apoio do BCE).
5. Caberá perguntar, nesta oportunidade, se este é também o “brilhante” resultado das inúmeras e fabulosas linhas de crédito, envolvendo centenas de milhões de Euros, com que o consulado socrático nos inundou (de anúncios, pelo menos), abrangendo todos os sectores de actividade, desde a agricultura até aos serviços, numa exibição de “luxúria” financeira poucas vezes vista...
6.O que se sabe é que os bancos se encontram sob forte necessidade de reduzir o nível de “alavancagem” (rácio entre “crédito concedido+activos” e “depósitos”), que no sistema bancário nacional andará ainda por 150%...
7.Mas isso está a custar muito à economia, sobretudo às empresas que se deixaram embalar nas facilidades de crédito e que agora se encontram sob fortíssima pressão dos bancos para reduzirem os níveis de exposição, enquanto vão suportando taxas de juro (mais uma pletora de comissões) que não raro excedem os 10%...
8...Enquanto as empresas mais solventes aproveitam (e bem) as altas taxas de juro com que os bancos remuneram os seus depósitos, o que explica a subida global dos depósitos...denotando uma preferência por “cash”, quem sabe mesmo se em detrimento de novos investimentos...
9.As empresas financiando os bancos...quem diria que chegaríamos a este ponto!

Um grande tom de azul e branco



















Logo, e pela quarta vez, o FCPorto no final da Super-Taça Europeia com o Barcelona. Um enorme encontro entre a melhor e a terceira melhor equipas do mundo, em 2011.
O Porto pode ganhar ou perder. Mas não é a vitória ou a derrota circunstancial que distingue os grandes clubes. O que os distingue é a capacidade de estarem muitas vezes a poder disputar as grandes vitórias. Mais uma vez o Porto lá está. Fazendo com o Barcelona o par das únicas duas equipas que conquistaram 3 troféus europeus no século XXI.
Nota: Os jornais desportivos de Lisboa e os que os fazem continuam a não ver nada para além da 2ª Circular. São mais cegos que o Proteu de Postojna.

Por terras da Eslávia do Sul: Maribor e Ptuj- XX




Não desesperem, caros leitores do 4R, que isto está a terminar! Até porque tenho que entrar em estágio para o jogo do Porto com o Barcelona!...
Maribor é a segunda maior cidade da Eslovénia, com 150.000 habitantes. Cidade interessante, circunstancionalmente porque emparelha com Guimarães como próxima Capital Europeia da Cultura, e porque ilustra a identidade eslovena como país de cultura ocidental. Está situada a 20 quilómetros da fronteira da Áustria e a uns meros 50 quilómetros da cidade austríaca de Graz. Até a Segunda Guerra Mundial, tinha uma significativa população germânica e até o nome alemão Marburg an der Drau. Esta influência germânica vem desde 1278, quando passou ao controle dos Habsburgos, em que se manteve até 1918, com uma ou outra pequena intermitência. Após a formação da Jugoslávia, a população alemã, que dominava a economia, foi perseguida por Tito e presa ou assassinada, na melhor das hipóteses obrigada a sair. Mas a influência ficou, ajudada aliás pela proximidade da Áustria. Cidade com história espelhada em monumentos diversos, como o Castelo, o edifício da Câmara Municipal e, aqui como na Croácia, a inevitável Igreja Franciscana, esta com a particularidade de ter sido rodeada por muralhas, de que uma parte ainda resta, de modo a defendê-la dos ataques otomanos. A Igreja simbolizava a relativa autonomia de que gozava a cidade e os seus habitantes e que urgia defender a todo o custo.
Não pode ainda deixar de ser visitada a pequena cidade de Ptuj, tida como a cidade mais antiga da Eslovénia. Com vestígios das Idades do Bronze e do Ferro, foi colonizada pelos Celtas, pertenceu ao Império Romano, foi devastada pelos Hunos, no ano 450, invadida pelos ávaros (uma tribo aparentada com os eslavos) e ocupada pelos eslavos em 572. Pertenceu depois aos franceses, ao Arcebispado de Salzburgo, acabando sob o controle do Império Alemão dos Habsburgos. Com a formação da Jugoslávia, os habitantes alemães tiveram a mesma sorte dos de Maribor.
Duas cidades antigas, bem conservadas e preservadas, dois espelhos da Eslovénia.

Nota: Curiosamente, o clube Maribor ficou no mesmo Grupo do SCBraga no sorteio da Liga Europa

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Destrunfar

Um multimilionário americano resolveu brincar com as dificuldades dos países e dos cidadãos para saírem da situação dramática em que se encontram e veio a público, com ar muito inocente, dizer que lhe parecia muito razoável que lhe pedissem para pagar mais impostos. A ele e aos outros milionários que conhece. Os jornais e os media entraram em frenesim absoluto, considerando logo a ideia fantástica, mas como é que ninguém se tinha lembrado disso até agora? E políticos, comentadores e estudiosos desataram logo a fazer cálculos, a abanar a cabeça a dizer que sim, a determinar o quantum da riqueza que anda por aí à solta, os olhos a transformarem-se em cifrões. Que ideia fantástica, podemos mesmo dizer que descobrimos a pólvora, ou o ovo de Colombo, para ser menos bélica, os mais-que-ricos, a quem ninguém se atrevia a incomodar, dispostos a pagar é aproveitar, e já, antes que se arrependam.
E eu a julgar que os capitais eram altamente voláteis, e eu a pensar que os rendimentos da riqueza eram difíceis de tributar assim, directamente, passa para cá x% do que resultou dos negócios, e das acções e aplicações, e da especulação, e das deslocalizações, os Governos sabem muito bem o que lhes fazer, vai ser um regalo e ainda por cima cala-se a esquerda refilona, aqui está a justiça social por uma pena.
Entretanto, enquanto o tal milionário deve estar a rir a bom rir dos papalvos que lhe pegaram na palavra e das vezes que a sua fotografia aparece nos jornais com a seta para cima, já as contas se desviam para tributar afinal, não as riquezas dos multimilionários mas as casinhas, as contas bancárias dos que têm depósitos, outra vez os salários (só os milionários!, esqueçamos que tudo é relativo) e já está tudo embrulhado a discutir o que é são afinal os ricos tributáveis e os que, tão certo como estarmos aqui, só serão ricos se e quanto deixarem que os considerem tributáveis.
Talvez fosse mais fácil pedir, humildemente, aos tais ricos que se oferecem generosamente para dar o seu óbulo para a crise que façam uma doação do que estão dispostos a pagar, por uma única vez entenda-se, mas que façam a doação, que a entreguem aos seus Governos, ordeiramente, em envelope fechado, e não se fala mais nisso. Sairia muito mais barato a todos, o dinheiro chegava direitinho aos cofres vazios sem ser preciso fazer mais leis, aumentar a especialização dos contabilistas, as inspecções, os cálculos das fortunas, fazer doutrina, fechar off shores, redefinir o que são capitais, etc, etc, etc. É que entretanto, no meio da discussão, nós gastámos o pouco que tínhamos para chegar ao pote de ouro e, claro, pelo caminho só vão sobrar os novos impostos que, certo certinho, vai acrescentar àqueles que já pagam, e que julgavam que não eram multimilionários. O tal riquíssimo deve estar a rir com vontade da sua proposta indecente. Ficámos todos a saber que os multimilionários só não pagam mais porque não os deixam. É o que se chama destrunfar.

Fernandito

Aproveitar as férias para visitar os mesmos locais constitui um ritual. Em princípio, não espero encontrar nada de novo, apenas reviver o passado, mas, por vezes, talvez antecipando a necessidade de, no futuro, desfrutar mais algumas lembranças, encontro coisas novas.
Vi na feira uma exposição sobre a imprensa regional do distrito, a primeira página do número um de jornais quase todos extintos. Ainda procurei alguns da minha terra, mas não os encontrei. Fiquei com pena e um pouco enraivecido. De qualquer modo, regozijei-me com algumas notícias produzidas nos finais da monarquia, no período da I República e no início do Estado Novo. Ainda nos queixamos da forma como se escreve hoje, mas se olharmos bem a raiva e o ódio estão bem patentes nalguns dos artigos da época, determinados pela luta entre monárquicos e católicos e republicanos. Chamou-me a atenção um artigo da "A Voz da Pátria", "quinzenário integralista", de Sernancelhe, em que o diretor, um padre, diz cobras e lagartos de Afonso "Pulha" da Costa e dos republicanos, mostrando as taxas de impostos a pagar, "Confisco de Bens!...". De acordo com o diretor, quem tiver um rendimento coletável anual de 20$000 pagará 3$690 (18%), de 100$000 pagará 28$970 (29%) e assim em crescendo até chegar aos 21.000$000 em que passará a pagar 22.979$000 (106%)! O padre Cândido Augusto Ramos Caldas afirma logo no início: "A república nada de proveito fez, roubando sempre, destruindo sempre, anichando sempre afilhados, fazendo novos-ricos, espalhando o dinheiro a rodos pela clientela faminta. Pasmai oh gentes!..."
No primeiro número da "Folha de Tondela", 18 de fevereiro de 1906, "semanário imparcial", chamou-me a atenção as notícias "Pelo Tribunal", publicitando os resultados das condenações e absolvições. Casimira de Jesus, de Vale dos Lobos, acusada de ofensas corporais foi condenada em 20 dias de multa a 100 réis nas custas e selos; Maria Emília de Santiago condenada por ofensa à moral pública na mesma multa; Casimiro Pimenta, de Caparrosa, condenado também por ofensa à moral pública, mas não pagou as custas por ser pobre. Dois outros foram acusados de pescarem com dinamite, um deles, o Joaquim Nunes Borges, de Ferreirós, foi condenado a 5$000 além das custas e selos, mas o Daniel da Silva Pereira, da Lageosa, foi absolvido. A par deste tipo de noticiário, são sempre nomeados os escrivães e os advogados. Deste modo, os putativos infratores poderiam saber quais os resultados caso se entregassem nas mãos de certos causídicos. Por exemplo, se tivessem a ideia de irem pescar com dinamite escolheriam o Dr. António da Costa Dias que patrocinou o Daniel da Lageosa, absolvido!
O número um do "Notícias de Tondela", "Trimensário defensor dos interesses do concelho de Tondela" (5 de junho de 1931), chama a atenção para a regularização do trânsito. Como o concelho está a passar por uma fase de desenvolvimento, o articulista noticia que desde há duas semanas existem placas indicativas de regularização do trânsito, "melhoramento de capital importância", atendendo ao trânsito crescente. E se não houvesse poderiam originar acidentes. "Os chauffeurs locais são respeitadores, mas os de fora não, que além do mais, passam pela nossa terra em corredias loucas, fazendo pouco caso dos 20 km à hora, velocidade esta que lhes só é permitido andarem dentro da área da vila. Não seria mau multar-se um, para exemplo de outros".
Outras notícias ou artigos poderiam ser aqui replicados, mas vou optar por um curto editorial publicado nos "Ecos do Caramulo", segunda série, presumo de 1931, "O Anjinho", referente à morte de uma criança. Um belo texto que merecia ser transcrito na totalidade, a marcar o sentimento que atinge as pessoas quando alguém, neste caso uma criança, desaparece."...O Fernandito, o meigo e gracioso Fernandito, que fez sonhar a seus pais as fagueiras e risonhas esperanças, desprendeu-se-lhes dos braços e como uma pombinha branca, de alvura imaculada, bateu as asitas e subiu apressadamente ao céu, onde era esperado pela divina orquestra dos anjos. Baldados foram os esforços empregados e impotente foi a ciência para salvar a vida ao pequenito, que era enlevo e o encanto de seus inconsoláveis pais, cujo golpe profundo ainda sangra constantemente e parece não cicatrizar-se tão depressa!”...
Velhas folhas, velhas notícias, coisas do dia-a-dia, vulgares ou não, fazem com que a vida seja temperada com outros sabores e condimentos, um passado que quer participar no presente, mesmo que ninguém se lembre do Fernandito...

Medidas para estimular a economia? O Estado que pague o que deve!

1.O Ministro da Economia terá hoje prometido, mais uma vez, medidas para “estimular” a economia, a tomar “dentro de semanas”.
2.Não pretendendo por em causa as boas intenções do Ministro, confesso que não sou grande apreciador deste tipo de pré-anúncios de medidas de apoio à actividade económica com que por exemplo o anterior Governo nos bombardeava incessantemente – e viu-se no que acabou!
3.Então as famosas "LINHAS de CRÉDITO" foram às dezenas, durante anos a fio, será que alguém sabe para que serviram?
4.Sempre entendi que quaisquer medidas de estímulo – até para não se criarem falsas expectativas – só devem ser notícia no momento em que são efectivamente tomadas e existam os meios e mecanismos para as aplicar...
5.Acresce que a criação de estímulos à economia por parte do Estado, nesta altura dos acontecimentos – excluindo os aumentos de impostos que também estimulam, com certeza, embora nesse caso o estímulo seja negativo – é assunto muito delicado, por duas razões: (i) a escassez de recursos para dar corpo a esses estímulos e (ii) a necessidade de direccionar quaisquer estímulos única e exclusivamente para os sectores que estão expostos à concorrência externa, que tenham potencial exportador ou de substituição de importações.
6.Mas há uma medida que o Estado poderia e deveria tomar, que já tarda, e que daria uma enorme ajuda a uma economia em que os atrasos de pagamentos entre empresas se têm vindo a agravar de forma assustadora, assumindo mesmo um carácter endémico e causando os maiores transtornos à gestão de um número incontável de empresas, algumas exportadoras (conheço diversos casos destes).
7.E essa medida até é bem simples: consiste em o Estado pagar o que deve (nem que seja só as dívidas com mais de 90 dias), aos mais variados sectores da economia, desde a construção aos fornecedores de serviços mais diversos, reduzindo a imensa montanha de dívidas de entidades públicas que o consulado socrático nos legou...
8.Já é mais do que tempo disso ser feito...mas, por favor: decidam fazer e anunciem, no mesmo dia!

Por terras da Eslávia do Sul: O comboio das Grutas de Postojna-XIX



Andar de comboio dentro de umas grutas nas margens de um rio subterrâneo e ver um animal que pode sobreviver 10 anos com uma única refeição é a experiência marcante de quem visita as Grutas de Postojna, na Eslovénia. A cerca de 30 km da cidade italiana de Trieste.
Grutas compridas e largas ou mais estreitas, quase cerradas, ou mais profundas ou mais superficiais, mais penhascosas ou mais aplanadas eu conhecia. Mais atractivas umas, outras, nem tanto. Mas nada como as Grutas de Postojna.
Compridas, largas e bem abertas, 20 quilómetros de galerias subterrâneas, como é próprio de umas grutas. Profundas, havendo pontos a 200 metros da superfície. Penhascosas, cheias de estalactites e estalagmites, algumas formando graciosas cortinas, elaboradas colunas e esculturas esbeltas. Largas, dando passagem a um pequeno comboio, por vezes em via dupla. Com a sensação indescritível de, nos seus 5 quilómetros, se percorrerem trechos de linha bordejando rios subterrâneos. Mas também com enormes salas planas e abobadadas, uma das quais de acústica impressionante e onde se efectuam concertos de grandes orquestras, creio que mensais.
No interior, um habitante autóctone, único no mundo, o proteu (proteus anguinus), animal esguio, 20 a 30 cm de comprimento, pele branca, parecida com a humana, quatro pequenas pernas, cego, mas de excelente olfacto e ouvido. É possível vê-lo numa armação preparada para o efeito. Feio e algo repugnante. Mas com uma virtude. É que pode guardar comida em grandes depósitos de lípidos e glicogénio no fígado (não sei bem o que é, mas foi o que ouvi…). Quando a comida é pouca, reduz o metabolismo, e pode reabsorver os seus próprios tecidos em casos extremos. Uma refeição chega a dar-lhe para dez, digo, dez anos sem mais comida!…
Nos tempos que correm, devia ser objecto de investigação aturada!...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O deserto dos Tártaros




Tenho andado muito absorvida com a leitura de “Linhas de Fractura”, do economista Raghuram Rajan (ed. Babel). Nesse livro, de uma leitura muito fácil, o autor faz um historial dos acontecimentos que considera mais relevantes nas últimas décadas ao nível do sistema financeiro e interpreta os sinais que foram sendo transmitidos e sistematicamente ignorados, até se chegar onde hoje estamos. Visto em retrospectiva, todas as peças do complicadíssimo puzzle parecem ganhar um sentido de fatalidade que legitima a pergunta que hoje tantos fazem “como foi possível”?
Quis o acaso que encontrasse à venda o filme baseado no livro “O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati, uma obra prima editada em 1950 e magistralmente passado ao cinema por Valério Zurlini. A leitura deste livro, ou ver o filme, ganham um significado muito impressivo na sequência da leitura do livro que acima refiro.
Dino Buzzati conta a história de um jovem tenente do então império austro húngaro, a quem é atribuído como primeiro posto o longínquo forte de Bastiano, no limite do deserto dos Tártaros.
O jovem oficial percorre a imensidão inóspita até chegar à muralha austera erguida sobre a pedras e virada para o nada, um forte construído na sequência de uma invasão acontecida há séculos mas depois da qual nada, absolutamente nada, fazia prever que voltasse a acontecer. Lá dentro, o regimento e os vários oficiais, todos provenientes da nobreza, cumpriam religiosamente os cerimoniais do exército e comportavam-se, formalmente, como se tudo o que fizessem fosse da maior importância, apesar de poucos acreditarem na utilidade da sua missão. Dia após dia, mês após mês, ano após ano, os rituais cumpriam-se com toda a pompa e o regulamento – absurdo, se olhado o vazio da realidade - impunha-se com o rigor de quem não admitia correr o risco de cometer qualquer erro que pusesse em perigo a missão oficial que ali os conservava.
Todos, desde o general que, em Roma, consumia os seus charutos, até aos oficiais mais antigos que consumiam a sua dignidade na aparência enfatuada dos galões, fingiam cumprir uma missão patriótica guardando o bastião do inimigo que todos supunham ser imaginário. No entanto, insidiosamente, foram ganhando consistência algumas suspeitas de que o inimigo, afinal, existia, e que se preparava, lentamente, longinquamente, para atacar. Alguns sinais emergiram das brumas persistentes no horizonte do bastião, o receio foi alastrando mas, absurdamente, este facto causou o maior desconforto nas cadeias de comando. Todas as tentativas de alertar foram abafadas. Há um episódio fantástico em que o inimigo é claramente visto através de uns binóculos potentes, tornando-se pois impossível, a partir daí, ignorá-lo. A reacção dos que ditavam a estratégia militar foi ordenar que o binóculo fosse confiscado, proibindo qualquer instrumento que pudesse mostrar a evidência. Além disso, para reforçar a ideia de que não havia perigo nenhum, desguarneceram o forte, afastando os oficiais mais esclarecidos e capazes de assumir o comando, deixando lá apenas os oficiais de mais baixa patente e alguns soldados.
Tal como nos mostra R.Rajan em “Linhas de Fractura”, no Deserto dos Tártaros da nossa realidade todas as instituições que tinham como razão de ser regular os mercados, estar atentos aos abusos e impedir os desvarios que conduziram o mundo ocidental a este descalabro, mantiveram os seus rituais, invocaram regulamentos para encobrir a sua incapacidade de agir e esvaziaram-se de sentido útil, fechando os olhos ao perigo e desvalorizando os que, com binóculos primeiro, e com evidência depois,viam que o perigo avançava.
Convido-vos a ler os dois livros, ou a ver o filme. Para muitos que já sofreram os primeiros embates, as consequências foram as mesmas. Sonhos, ilusões, vidas inteiras dedicadas a uma causa que supunham válida e em defesa de um bem comum, tudo desperdiçado. No ocidente, nosso bastião, luta-se agora, desordenadamente, contra o inimigo que de repente se concretizou, na esperança de que não tenha sido tarde demais e haja ainda tempo de reunir esforços e encontrar comandantes que impeçam o descalabro.

Banho santo

Coitadas das crianças que são levadas a mergulhar nas águas frias do Atlântico para afugentar os medos, hoje, dia de São Bartolomeu, o dia em que o diabo anda à solta. Se pudesse, quem mergulharia nas águas eram os pais, mas deixava-os estar uns bons segundos debaixo de água para ver se limpavam daqueles cérebros certas ideias. Lá que andem debaixo do andor do santo, ou deem três voltas à capela com os desgraçados galos pretos é o menos.

Por terras da Eslávia do Sul: A harmonia de Ljubljana- XVIII



Ljubljana, quase 300.000 habitantes, é a capital da Eslovénia. Não tem grandes monumentos, espampanantes edifícios públicos ou imponentes igrejas ou catedrais. Mas sobretudo a zona central tem uma harmonia intensa que lhe advém da graciosidade das construções, da proporcionalidade das praças, da ligeireza das pontes, mesmo dos diversos estilos arquitectónicos. Atributos que encontram a sua máxima expressão na praça principal, onde é glorificado o poeta nacionalista France Prešeren, e em que avulta como jóia arquitectónica a Igreja Franciscana dos anos 1600, voltada às esplanadas que bordejam o rio e às pontes que dão passagem para a cidade antiga, catedral e castelo medieval. Uma praça, mas também um hino à harmonia e à suavidade dos tons e das cores.
Na Catedral, a portada principal, em expressivos baixos-relevos miniaturais, conta toda a história eslovena.
Ljubljana é também uma cidade alegre, repleta de esplanadas junto ao rio e com uma movida trepidante, não desleixada ou farrapilha, mas de ar são, cuidada na apresentação, no modo de vestir e de estar, índice de educação e qualidade de vida.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Por terras da Eslávia do Sul: Eslovénia-XVII



Depois da Croácia, a Eslovénia, um país com uma superfície de 21.000 quilómetros quadrados e uma população um pouco aquém dos 2,1 milhões de habitantes, católicos, língua oficial, esloveno. Com fronteiras com a Itália, Áustria, Croácia e Hungria, e sem fronteira com a Sérvia, conseguiu escapar sem grandes danos ao conflito que pôs termo à ex-Jugoslávia.
Aliás, para além de estar ligada à Europa dita Ocidental pelas fronteiras norte (Áustria) e oeste (Itália), a Eslovénia, poupada ao domínio otomano, sempre culturalmente fez parte do mundo ocidental, integrando nomeadamente o Império de Habsburgo e, depois, o Áustro-Húngaro. Herança alemã e austríaca com influência na organização económica e no modo de ser, de estar e de viver dos eslovenos e que os diferencia dos vizinhos croatas, com hábitos muito mais próximos dos países do sul, como a Itália. A Eslovénia entrou na EU em 2004 e tem o euro por moeda. Sendo uma pequena economia - o PIB esloveno anda pelos 40 mil milhões de euros, um quarto do PIB português (Croácia, 50 milhões)-desde essa altura incrementou o seu desenvolvimento, atingindo um PIB per capita um pouco acima de 18.500 euros (Croácia (10.800 euros), ultrapassando Portugal (15.700 euros). Prova de maturidade e de inteligência está no facto de esse crescimento se fazer no respeito pela estabilidade das finanças públicas, com os défices bastante abaixo dos 3% e a dívida pública a decrescer de um máximo de 27,5% há uns anos para 22,5% em 2008, últimos dados a que acedi. Mais uma prova de que crescimento sustentável não se faz através da despesa pública e dos défices, mas de políticas públicas consistentes que preservam o equilíbrio orçamental.
Na bandeira eslovena, o brasão de armas com três cabeços, representação estilizada do Monte Trigav, nos Alpes Julianos, o mais alto da Eslovénia e cujas 3 cabeças constituem símbolo do país.

À descoberta de Portugal…

Há já algum tempo que tinha curiosidade de conhecer Rio de Onor. É uma pequena aldeia do Concelho de Bragança, situada no nordeste de Portugal. Faz fronteira com a sua homónima Rihonor de Castilla, aldeia situada do lado de Espanha. Duas aldeias separadas por um rio – Rio de Onor – mas unidas pela vida comunitária.
Depois da estada em Bragança, partimos rumo à descoberta das tradições de vida comunitária e do património medieval de Rio de Onor.
A distância física é relativamente curta, cerca de 20 km, e o caminho é agradável, embora demorado. A estrada nacional que faz a ligação entre Bragança e a fronteira atravessa o Parque Natural de Montesinho oferecendo vistas bonitas e variadas.
Tivemos a sorte de conhecer alguns dos membros da Família Mariano, o Avô, o Tio Mariano assim conhecido, a filha e uma neta que tinham ido passar o fim-de-semana com o pai e o avô. O Tio Mariano, é uma memória viva da terra, ali nasceu e permaneceu até aos tempos de hoje, um poço de sabedoria e um testemunho da organização da vida comunitária. A sua amabilidade e simplicidade proporcionaram-nos um convívio que não vamos esquecer.
É pena que Rio de Onor não esteja preparado para acolher os visitantes, para lhes contar e mostrar a sua história. Poderia ser um centro de importante atracção turística, mas não é. O visitante pouco documentado fica perdido e ainda que com algum estudo prévio não tem como conhecer e descobrir a sua identidade
Rio de Onor perdeu importância e relevo enquanto posição fronteiriça, está geograficamente muito distante dos grandes centros urbanos e longe da acessibilidade a infra-estruturas modernas e das promessas da abundância e do consumismo que empurraram as gerações mais novas a procurar novos lugares para construírem as suas vidas. “As coisas andam atrás dos donos” declarou o Tio Mariano!
Algo esquecida e abandonada, com o seu património medieval em visível estado de má conservação, encontra-se entregue aos 50 habitantes de idade avançada que ali vivem em permanência. Do lado de Espanha o panorama não é menos deprimente. Dois casais e três viúvas somam a população residente.
Rio de Onor foi-nos explicado pelo Tio Mariano. As tradições comunitárias já não são o que eram - a vida tradicional comunitária terminou nos anos 80 do século passado - mas ainda há assuntos e trabalhos agrícolas que são tratados em conjunto. Ainda subsiste um regime comunitário na administração rural. Existe uma área agrícola no centro da aldeia, na qual todas as famílias têm uma parcela de terreno, que é tratada nos mesmos dias por todos, para semear e para colher. E há também um lameiro com uma área apreciável que está dado de exploração mediante o pagamento de uma renda que é gerida comunitariamente. Com a população muito envelhecida, os poucos habitantes da aldeia perderam as boiadas e os rebanhos comunitários e muitos outros usos como por exemplo a utilização da água e a definição de caminhos públicos. Não têm dinheiro para manter a aldeia como gostariam.

O Tio Mariano sorria a recordar os tempos em que as cabras e as ovelhas dos rebanhos comunitários se encaminhavam, no final de uma jornada de pasto, para os currais dos seus donos. Conheciam a sua própria casa e não havia enganos. E com as boiadas passava-se o mesmo.
A tradição da vara também acabou. Era um pau que servia para assentar através de riscos gravados na madeira as faltas cometidas pelas famílias e os castigos decididos em Conselho. A organização comunitária obedecia a orientações com incidência no dia-a-dia das famílias e a regras de uso comunitário e dispunha de uma disciplina comunitária em que imperava a sanção social. Esta disciplina assentava num quadro de valores fundamentais comunitários em que se praticavam a comunhão e o compromisso, a solidariedade e a entreajuda. O Conselho comunitário reunia duas vezes por semana, era liderado por dois “mordomos” e nele participavam os chefes das famílias. Certo dia um chefe de família, que fora emigrante em França, denunciou no Conselho que a justiça se fazia nos tribunais e logo se iniciou o fim deste regime comunitário.
A conversa animada com o Tio Mariano já ia longa, muito para lá da tradicional hora de almoço da aldeia. Esperava-o um “cozido” à transmontana que abriu o apetite a todos. Tivemos que partir, mas com a enorme vontade de voltar e responder ao convite do Tio Mariano para uma visita guiada a Rio de Onor. Lá estaremos um dia destes....
Se queremos ser um país de turismo temos que acarinhar e investir no que de bom temos para mostrar. Rio de Onor é mais um caso triste de abandono. Nas mãos dos espanhóis ou dos franceses seria tratado com “pinças”. Perante a gravíssima crise económica e social em que nos encontramos resulta evidente a urgência de aproveitarmos os recursos naturais que temos. Talvez a agricultura comunitária não seja só passado e venha a constituir uma via para explorar a riqueza das terras abandonadas e trazer algum povoamento às zonas interiores do país…

Euro em colapso? Será exagero, mas sinais estranhos de desconforto acumulam-se...

1.Alan Greespan afirmou hoje que o Euro estará a entrar em colapso, ecoando, com especial ressonância, uma opinião muito popular do outro lado do Atlântico acerca de um futuro pouco auspicioso da zona Euro.
2.Embora considerando (eventualmente) excessiva a opinião de Greenspan, tenho a noção de que a moeda única europeia chegou a um ponto crítico a partir do qual se torna muito arriscado definir cenários para os meses mais próximos, já nem digo anos...
3.Vêm estas considerações a propósito de um bizarro negócio que parece ter sido já ajustado entre a Finlândia e a Grécia para que a primeira aceite participar no segundo programa de ajuda à segunda, genericamente acordado na cimeira europeia de 21 de Julho último.
4.Segundo esse negócio, a Grécia prestará à Finlândia uma caução especial, de € 500 milhões ao que consta, para viabilizar a participação da Finlândia no programa de ajuda, sob a forma de depósito numa “escrow account” que assim garantirá, exclusivamente a favor da Finlândia, o cumprimento das obrigações da Grécia no âmbito do dito programa...
5.Mas isto configura benefício para um credor apenas, situação absolutamente atípica e moralmente contestável, nomeadamente neste caso em que um conjunto de credores soberanos se une para prestar apoio a um dos membros do grupo que se encontra em extremas dificuldades financeiras...
6.O que parece extraordinário é o facto de este negócio, segundo consta, ter sido já alvitrado na dita cimeira de 21 de Julho sem que ninguém na altura tivesse levantado objecções – provavelmente ninguém se terá apercebido dos contornos extravagantes do mesmo...
7.Mas agora, que os contornos se tornaram conhecidos, levantou-se um coro de protestos por parte de outros países credores, com destaque para a Holanda que afirma querer igual tratamento sem o que não participará na ajuda à Grécia...
8.Mas a Finlândia já fez saber que, caso este acordo seja rejeitado por outros países, não será parte no programa de ajuda...
9.Este “súbito” imbróglio mais um - se não for ultrapassado rapidamente, é susceptível de bloquear a aprovação do programa de ajuda, atirando a Grécia, mais cedo do que se podia supor, para as águas revoltas do incumprimento da sua dívida pública...
10....E lançando novamente a confusão no seio do Euro, com as taxas de juro da dívida dos países em maior dificuldade a subirem de novo para patamares alucinantes...
11.Greespan pode estar a exagerar, admito que sim, mas antevê-se um Setembro muito agitado na zona Euro se este imbróglio não for urgentemente resolvido...e os sinais de desconforto vão-se acumulando...

Por terras da Eslávia do Sul: Encontros e Desencontros-XVI




Para surpresa minha, fiquei a saber que entre Dubrovnik (República de Ragusa) e Portugal também houve, ao longo da história, encontros e desencontros.
Um encontro traduziu-se no acolhimento generoso a muitos judeus portugueses expulsos por D. João III e que chegaram de barco a Dubrovnik em 1544. Acolhimento esse que já anteriormente fora prodigalizado a judeus espanhóis.
Um desencontro deu-se nos mares da índia e na Batalha de Diu, decisiva para a implantação dos portugueses na região e para o estabelecimento da rota marítima de transporte das especiarias.
A nova rota não interessava ao Império Otomano, na Turquia ou na Índia, nem ao Egipto, que pretendiam preservar as rotas terrestres, como também ameaçava também o “monopólio” do comércio mediterrânico, sobretudo nas mãos dos mercadores venezianos e ragusinos, mas também de outras cidades da península itálica.
Nessa histórica batalha de 1509, defrontaram-se a Armada Portuguesa comandada por D. Francisco de Almeida e uma aliança entre os Sultões de Calecut, de Gujarat e do Egipto, intervindo na preparação e no combate a República de Ragusa (e também a de Veneza), como consultora militar de guerra naval, dada a sua experiência como potência naval da altura.
Depois dessa batalha que os portugueses venceram e que mudou o domínio do comércio global, os Portugueses vieram a conquistar as posições estratégicas importantes de Ormuz, Goa, Colombo e Malaca, que sustentaram a prolongada presença portuguesa no Índico.
Nota: Tive, tivemos em Dubrovnik um guia extraordinário, no pleno sentido da palavra: culto, conhecedor da história do seu país e da de Portugal, citava Pessoa e Camões, expansivo, irónico, bem disposto e prestável, com uns tiques “gay” de verdadeiro espectáculo, ficando sem concluir se eram autênticos ou fabulosa imitação, se enganavam ou desenganavam. E quando falava na mulher, a dúvida de era saber qual a verdadeira natureza da dita…Um “belo” guia.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A leitura dos números...

No espaço de um ano, 36 mil famílias deixaram de receber o rendimento social de inserção. Sinal de redução da pobreza? Não necessariamente. Sinal de maior rigor na atribuição dos apoios sociais? Espera-se que sim.

É importante que a triagem seja feita de forma criteriosa, porque o rendimento social de inserção só deve ser solicitado por quem comprovadamente não tem recursos e não tem como os obter. Só com uma avaliação personalizada e rigorosa se conseguem evitar os cortes cegos que geram situações de injustiça.
Mas a pobreza é uma realidade bem presente entre nós e a crise que estamos a atravessar tende a agravar os casos de famílias carenciadas que precisam de ser apoiadas. A situação exige uma atitude muito diferente da época da abundância e do consumismo.
É nestas situações que o Estado deve cumprir com a função de protecção social. Sendo crescentes as necessidades e escassos os recursos, impõe-se um nível acrescido de exigência e vigilância na utilização dos dinheiros dos contribuintes, apoiando quem realmente enfrenta dificuldades económicas que não tem pelos seus próprios meios como lhes fazer frente.

Pesadelo do défice externo continua a atormentar-nos?

1.Foram hoje divulgadas pelo BdeP as contas externas para o 1º semestre de 2011, verificando-se uma redução de quase 18% do défice da balança corrente em relação ao mesmo período de 2010, de € 9.760 milhões para € 8.003 milhões.
2.A correcção de maior amplitude regista-se na balança comercial (ou de bens), cujo défice se reduziu de € 9.081 milhões no 1º semestre de 2010 para € 7.492 no semestre terminado em Junho, ou seja – 17,5%, graças a um crescimento das exportações (+17,7%) a ritmo muito superior ao das importações (+5,8%).
3.Mas em termos relativos a melhoria mais significativa foi registada nas transferências correntes, onde se apura um superavit de € 1.766 milhões, mais de duas vezes (+105,6%) o registado em idêntico período de 2010 (+ € 859 milhões).
4.Note-se, no entanto, que a melhoria nas transferências foi devida sobretudo às transferências públicas, + € 713 milhões, pelo que não é de esperar a repetição deste cenário no 2º semestre.
5.O maior problema do desequilíbrio externo está agora no défice dos rendimentos, a que aqui já aludi por mais de uma vez e que resulta do enorme endividamento externo que acumulamos ao longo dos últimos anos: no 1º semestre deste ano este défice agravou-se cerca de 30%, ascendendo a € 5.172 milhões, contra € 3.980 milhões na 1ª metade de 2010.
6.Como é fácil concluir, este agravamento do défice dos rendimentos, de € 1.192 milhões, “ESTRAGA” em boa parte (75%) a melhoria registada no défice comercial, que foi de € 1.589 milhões...
7....E, por este andar, arriscamo-nos a chegar ao final do ano com um défice dos rendimentos superior a € 10 mil milhões, ou seja qualquer coisa como 6% do PIB...
8.Quer isto dizer que os sacrifícios que os portugueses estão a fazer para contrair as suas despesas e com isso contribuir para uma redução do endividamento do País, acabam por ser neutralizados pelo aumento dos custos do endividamento externo que consome uma fatia cada vez mais elevada daquilo que conseguimos produzir.
9.E isto também significa que a tarefa de reduzir a dívida externa se torna quase impossível, uma vez que é indispensável contrair nova dívida para financiar uma parte dos juros, além da totalidade dos reembolsos...
10.Não quero ser excessivamente pessimista, mas não sei como é que nos vamos livrar deste pesadelo...
11.Ou será que ainda poderemos dar crédito à famosa tese - muito popular há 11 anos e que até há pouco nos manteve embalados nas delícias de um despesismo tresloucado - de que o endividamento externo era tema irrelevante numa União Monetária?

Por terras da Eslávia do Sul: A época da República de Ragusa-XV




As leis da república foram inovadoras para a época, contemplando, por exemplo a regulamentação do planeamento urbanístico. Também a república foi pioneira na área da saúde pública: criou o primeiro serviço médico em 1301, e a primeira farmácia em 1317, no Convento franciscano, aliás ainda em funcionamento e fundou, em 1377, o primeiro hospital de quarentena.
Na área social, um asilo para idosos foi fundado em 1347 e um orfanato em 1432, tendo concluído em 1436 o sistema de abastecimento de água, com 20 Km de comprimento. Para além de ter abolido na escravatura, como se disse, em 1418.
No período, Dubrovnik foi semeado de imponentes palácios privados e públicos, edifícios civis e religiosos. O Palácio do Reitor, centro do poder de Ragusa, lá está, agora Museu de Dubrovnik, e o Palácio de Sponza, outrora Casa da Moeda e agora Arquivo governamental. Entre os edifícios religiosos, para além das, segundo ouvi, 37 igrejas, os imponentes conventos, igrejas e colégios dos Franciscanos, Dominicanos e Jesuítas, assim como das Freiras de Santa Clara, cada complexo sensivelmente situados próximo de cada um dos cantos da cidade. E a Igreja de S. Braz, que significa para Dubrovnik o que S. Marcos é para Veneza.
Um complexo patrimonial românico, renascentista e barroco que torna a cidade um verdadeiro museu ao ar livre. E do qual a Placa, a grande avenida central, é a grande referência, de onde tudo irradia e aonde tudo converge.

domingo, 21 de agosto de 2011

Por terras da Eslávia do Sul-Dubrovnik-o encanto absoluto-XIV



Dubrovnik, maravilha da realização humana, natureza e obra potenciadas ao grau mais elevado da beleza e da harmonia. Raras vezes, como aqui, o génio do homem soube elevar ao máximo a generosidade da natureza. A cidade é de um indescritível fascínio. Uma concha meia rodeada por mar e meia envolvida por altas colinas, tornou-se cidade fortificada no século X, rodeando-se de inexpugnáveis muralhas protectoras de ataques e saques, muros fortes mas de uma estética impressionante. Tal defesa permitiu-lhe o desenvolvimento como cidade comercial marítima. Constituída no século XII como cidade-estado, capital da República de Ragusa, se foi obrigada a manter laços feudais ao Reino da Hungria ou a Veneza até ao século XIV, a partir daí e até 1808 Dubrovnik governou-se a si própria como república totalmente independente. Tornou-se uma cidade próspera, com uma frota de centenas e centenas de navios que comerciavam por todo o mundo conhecido e semeou o seu pequeno território de uma monumentalidade românica, renascentista e barroca, espantosa pela quantidade e pela harmoniosa estética. Por isso, Dubrovnik é bem Património da Humanidade.
Dividida ao meio pela Placa ou Stradun, que liga as portas nascente e poente, esta virada ao mar, a cidade desenvolve-se em ruas paralelas rectilíneas sucessivamente construídas em patamares mais elevados das duas colinas. A Placa constitui o passeio público, sempre repleto de visitantes (chegam a estar atracados 12 paquetes simultaneamente), que passeiam ou procuram os cafés e restaurantes, os edifícios históricos e os monumentos, criando uma atmosfera que surpreende e atrai.
A cidade está extraordinariamente bem conservada, para o que contribui a sólida construção dos edifícios em pedra, numa sucessão em que nenhum destoa e todos se complementam.
Só um povo civilizado e culto poderia fazer uma cidade assim. Por exemplo, Ragusa foi o primeiro estado a abolir a escravatura, logo em 1418, séculos antes de Portugal, tido como pioneiro no desmantelamento dessa odiosa forma de exploração humana. Mas outros aspectos deste grau civilizacional serão tratados no próximo texto.

"Silêncio de Deus"...


Li com algum interesse este artigo, de Bedoya, no El País. O papa falou de "Eclipse de Deus", mas não entendi muito bem o que pretende dizer com esta afirmação, quando, o mesmo, em 2006, no decurso da visita a Auschwitz, afirmou: "Porquê, Senhor, permaneceste calado?".
Um eclipse é coisa momentânea, cada um vê Deus à sua maneira ou não vê, tanto faz, mas pior do que qualquer "obstáculo" à sua visualização, determinado pela conduta humana, é o Seu silêncio, e, neste caso, Ratzinger tinha razão quando questionou o "silêncio de Deus"...

http://politica.elpais.com/politica/2011/08/20/actualidad/1313866483_133752.html#bloque_comentarios

Parque Expo: finalmente o FIM, 11 anos mais tarde que o devido...

1.Foi agora anunciada a decisão do Governo de extinguir a sociedade estatal Parque Expo (PE): num comentário curioso, H. Roseta disse, e bem na minha opinião, que esta empresa já deveria ter sido extinta há muito…
2.Muita gente já nem sabe ou se recorda que esta empresa foi criada em 1993, como sociedade de capitais públicos, com a incumbência de preparar e organizar a Exposição Mundial de 1998 – a Expo/98 como ficou conhecida - que havia sido confiada a Portugal, decisão interpretada como sinal de grande confiança na capacidade de realização do País -outros tempos…
3.Tratava-se à partida de uma tarefa extraordinariamente difícil, pois a área escolhida para localização do recinto da Expo – na zona oriental de Lisboa, junto à doca dos Olivais – era na altura ocupada em boa parte por uma gigantesca e pestilenta lixeira, de resíduos urbanos e industriais, resultado da acumulação de muitos milhares de toneladas de resíduos ao longo de décadas, parecendo quase impossível que ali se pudesse, no curto espaço de 5 anos, projectar e realizar uma exposição mundial, com todos os requisitos exigidos para esse tipo de certames.
4.Acrescia que na parte dos terrenos que não eram lixeira se encontravam instaladas dezenas de indústrias, com destaque para a refinaria de Cabo Ruivo, propriedade da Petrogal. Era necessário, em tempo record, conseguir negociar a cedência de todos os espaços ocupados por essas indústrias, pagando aos proprietários o preço acordado após duras negociações…
5.A pressão do tempo jogava contra a PE e a favor das empresas ali instaladas que sabiam que a PE precisava de concluir as negociações num tempo muito curto…
6.Fiz parte, como responsável financeiro, da primeira equipa de gestão da PE que, sob a presidência do Eng.º Cardoso e Cunha (que acumulava as funções de Comissário da Exposição Mundial), lançou mãos à obra na Primavera de 1993…
7.Dispúnhamos à partida de um capital financeiro (capital social realizado) de apenas 500.000 contos, manifestamente escasso face ao elevado volume dos investimentos previstos…
8.Trabalhamos sempre com um enorme entusiasmo e espírito de missão até finais de 1996, altura em que começamos a sentir que a baix(íssim)a política tinha começado a invadir a Parque Expo – a empresa constituía à altura um alvo muito apetecível para os inevitáveis boys…
9.Em Fevereiro de 1997 – pouco mais de 1 ano antes do início da Exposição Mundial – o Eng.º Cardoso e Cunha, o Dr. Medina Carreira (administrador não executivo, indicado pela C. M. Lisboa, na altura presidida por João Soares) e eu próprio, decidimos renunciar aos cargos que vínhamos exercendo na Parque Expo…
10.E renunciamos porque concluímos que a politização do projecto, que então tinha atingido um nível insuportável – com intrigas diárias na comunicação social que dificultavam gravemente o trabalho da equipa de gestão – punha em causa, entre outras coisas, o objectivo fundamental de cumprir um modelo de projecto financeiramente solvente e economicamente equilibrado, evitando sobrecarregar o Estado…
11.Foi ainda possível à equipa que se seguiu concluir o trabalho de realização da Expo/98, um sucesso significativo, registe-se. Muitos dos nossos comentadores estarão ainda recordados desse evento…
12.Quanto à PE, de acordo com os seus estatutos originais deveria ter sido extinta dois anos depois da Expo, ou seja até final do ano 2000 se não estou em erro…alienando parte do seu património a privados e a outra parte revertendo para o Estado.
13.O que justificou que esta empresa tivesse arrastado a sua existência até hoje, 11 anos após a data prevista para a sua extinção?
14.A explicação mais plausível será de índole patriótica - a satisfação de interesses de muitos boys (e girls), com natural prejuízo do interesse do Estado, que deverá ter perdido muitas dezenas ou mesmo algumas centenas de milhões de Euros para sustentar uma empresa que, sem qq justificação razoável se transformou ,durante anos e anos, em mais um sorvedouro de dinheiros públicos…
15.Seria pois mais do que justificado que o Governo, ao decidir – e muito bem – extinguir a PE, encarregasse uma entidade independente de elaborar um relatório completo e detalhado dos custos que esta empresa impôs ao País, especialmente na fase pós Expo/98 (um LIVRO NEGRO da PE?)…os portugueses têm direito a saber…
16.Muito, muito mais haveria a contar, mas este Posto já vai longuíssimo…

Por terras da Eslávia do Sul- Zagreb- XIII



Zagreb, maior cidade e capital da Croácia, tem cerca de 900.000 habitantes. Resultou da “fusão” de duas cidades (Kaptol e Gradec) erigidas em dois montes vizinhos por alturas do século XI, separados por um rio que corria no vale. Cidades rivais, não tiveram uma coexistência pacífica, combatendo-se frequentemente e de forma sanguinolenta, até que, no século XVII, fizeram as pazes e fundaram a cidade de Zagreb. O rio foi tapado e hoje constitui uma rua comercial vedada ao trânsito. Actualmente a cidade antiga, designada como a Alta, contrapõe-se à parte nova, a Baixa. É na Alta que se encontram os principais monumentos e edifícios religiosos e políticos, Catedral de S. Estêvão, do século XI, várias vezes destruída e reconstruída, os Palácios do Governo e o Parlamento, o imponente Teatro Nacional e os principais Museus.
Embora não tenha ainda não tenha entrado na UE, já foi aprovada a sua integração, pelo que a bandeira "europeia" flutua nos mastros do Palácio do Governo. Na mesma Praça, situam-se a igreja de S. Marcos, fundada no século XIII, que ostenta no telhado os brasões de armas da Croácia, Dalmácia, Eslavónia (outra província croata) e de Zagreb, e também o Parlamento.
Menciona-se ainda a Igreja de S. Francisco, quer pelo seu valor monumental, quer sobretudo por ser um dos símbolos da influência franciscana na Croácia. Os franciscanos foram tidos como os grandes promotores do ensino e da educação na Croácia, através das escolas que fundaram e que vieram a influenciar de forma marcante muita da identidade e da cultura croata.

sábado, 20 de agosto de 2011

Sons

Noite de verão, agradável, não muito quente, porque a meio de agosto começa a sentir-se, ao princípio da noite, uma brisa que arrefece e que a ribeira sabe aproveitar para, de forma silenciosa, se manifestar, em contraste com o cantar e às vezes a gritaria nervosa do inverno. As doze há muito que foram tocadas na torre, e os cantares da festa, que inundaram o espaço e as almas dos foliões, silenciaram-se, dando lugar aos assobios, ao queimar da pólvora e ao crepitar das explosões dos efeitos do fogo-de-artifício. Calou-se o fogo, mas ainda faltava um derradeiro som, o do morteiro. Um assobio mais longo e agudo fez-se ouvir, seguido do característico pequeno trovão. Acabou-se a festa, e eu entrei no silêncio.
O som do morteiro fez estragos, comecei a recordar outros sons, os dos comboios a entrarem na estação, obrigando os carris a ranger de dor e de raiva, as locomotivas a vapor, as grandes, poderosas, espumando como se fossem touros desejosos de largarem à desfilada, fazendo inveja às mais pequenas, as da via estreita, cujos apitos agudos faziam lembrar vozes de pré adolescentes. Os toques da sirene da fábrica de serração, a indicar as horas de entrar, de almoçar e de despegar, acompanhados dos barulhos das conversas dos operários, do pigarrear matinal, das buzinas e campainhas das bicicletas, logo substituídos pelo matraquear das máquinas, das cintas, do cortar prolongado e irritante dos troncos de árvores, ou do seu apagar para a hora de almoço, ou fim do dia, obrigavam-me a levantar, a ir almoçar e que eram mais do que horas para fazer os deveres de casa. Um relógio laboral que marcava a vida com o relógio da torre, o ritual dos comboios, a azáfama dos passageiros, o lançar ritmado das travessas transportadas às costas pelos carregadores, fazendo lembrar Cristos transformados em Sísifos, que mais pareciam condenados às galés do que seres livres, não emitiam sons, nem de dor nem de mágoa, mas à hora devida, o acumular de muitos meio quartilhos libertavam as línguas e, então, sabia que eram humanos. O som matinal da campainha da bicicleta do padeiro despertava-me o desejo de comer o pão fresco e ainda quente; o pregoar e as buzinadelas do peixeiro obrigavam-me a correr na expectativa de poder ver, debaixo do oleado, eventuais polvos no meio daquela salganhada toda; a corneta do petroleiro associava-a ao cheiro do café de cevada e aos brindes, cavalinhos de baquelite, de várias cores, cujas patas e cabeça balanceavam ao toque; o linguajar, ameaçador para mim, claro, dos ciganos a tentarem vender os seus produtos, dizia-me para não me aproximar muito, tinha medo de ser levado com eles por não comer a sopa. Outros sons, alguns arrepiantes, oriundos da vizinhança, e intensificados pela noite, verdadeiros gritos de dor, filhos de agressões de homens brutos e bêbados, perturbavam-me o sono. O que eu gostava mais era das salvas matinais de vinte e um morteiros a anunciar os dias festivos, mesmo sendo cedo não ficava minimamente perturbado, porque, assim que terminasse o bombardeamento, voltava a adormecer, mas o toque longínquo da sineta da quadrilha do compasso, sinal de que o dia seria dedicado a amêndoas, muitas e boas, ou não fosse a Páscoa sinónimo de fartura e de doçarias, despertava-me uma estranha gula. No verão ouvia-se ao longe sons musicais, frequentemente aos soluços, de acordo com a vontade do vento, denunciando agradáveis arraiais pelas aldeias vizinhas. Por vezes, os sinos entristeciam e faziam entristecer com os seus toques de dor, associando-se ao som da matraca que abria o cortejo da morte, outras não, até parecia que se tinham embriagado, tão alegres e repenicados eram os seus toques, já o mesmo não posso dizer da sirene dos bombeiros ao confirmar tragédias mais ou menos graves, de acordo com os diferentes toques e que mobilizava as pessoas num sufoco, fosse qual fosse a hora, de dia, de noite, com as pedras das calçadas e das ruas a ribombarem angústia e, por vezes, algum alívio. Quantas vezes, à distância, conseguia ouvir o barulho da canalhada a ecoar pelo vale, fazendo-me inveja por não poder mergulhar, também, nas águas tépidas e límpidas do rio, ou os estranhos e sonoros ruídos que ouvia no final do ano, associando-os a coisas novas e boas, que nem sempre ocorriam. Tantos sons! Até parece uma sinfonia, sinfonia da nostalgia, dando origem a novos sons que emergem da combinação de sons do passado, sons que não se esquecem e que a noite nunca conseguirá silenciar...


A liberdade deles

Eles são pelo casamento gay, pela adopção de crianças por homossexuais, pela eutanásia, pelas barrigas de aluguer. E manifestam publicamente esse direito.

Eles são pelo direito de ocupar ruas e praças durante dias e semanas, fazendo propriedade sua do que a todos pertence. Eles são os indignados a quem a sociedade tudo deve. E a quem se arrogam o direito de tudo exigir. E exibem publicamente esse direito, tornando-o matéria de facto.

Eles são pela sua total e plena liberdade, sem peias, nem entraves, nem princípios de qualquer ordem. E combatem na rua quem não a reconheça, cidadãos ou autoridade legítima.
Mas eles não reconhecem aos outros o simples gesto de se manifestarem por aquilo que defendem. E, no caso presente, de festejarem a visita do Papa a Madrid.
Eles têm o exclusivo das liberdades. Exclusivismo tal que os governos se vêem obrigados a justificar a actuação das forças policiais. Como se a sua obrigação não fosse a de reprimir quem atenta contra a lei. Mas eles já conquistaram também esse direito de não serem incomodados. A sociedade que aguente. Até um dia...

Para quando...


Vitimas da agressão financeira pelo desgoverno anterior fomos todos nós. Uns mais do que os outros, é certo. Mas antes da Madeira e dos madeirenses, certamente as gentes de muitas zonas do interior deprimido do continente, onde a riqueza distribuída é uma fracção da que se vem  destinando àquela Região Autónoma e o desemprego atinge niveis nunca vistos. Há que o dizer, com firmeza por uma vez, ao Sr. Dr. Jardim.

Por terras da Eslávia do Sul-Subitamente, a Bósnia-XII



De Split para Dubrobnik a viagem corre descansada na estrada do litoral, numa sucessão infindável de pequenas vilas e povoações, praias de pedra ou instaladas em plataformas de cimento, aproveitando as rochas. Cabe dizer que são raríssimas as praias de areia, se é que as há.

Mas eis que, de repente, surge uma fronteira e depare-se-nos a Bósnia. Uma tira de 15 quilómetros acordada entre as nações para que a Bósnia também pudesse chegar ao mar (No mapa, abaixo de Mostar, vê-se claramente a cor da Bósnia a chegar ao mar). Um exemplo das divisões políticas artificiais em que a história é fértil. Fronteira passada sem qualquer formalismo, como normalmente acontece por acordo entre os dois países. O que parece tanto mais estranho quanto as fronteiras entre a Eslovénia e a Croácia ainda são fronteiras à moda antiga.

Passada a estreita faixa, novamente na Crácia, a caminho de Dubrovnik. Para mim, uma das sete maravilhas do mundo. Lá chegaremos.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O caso paradigmático da Parque Expo

A senhora ministra Assunção Cristas anunciou a intenção de o Estado finalmente liquidar a Parque Expo. A razão para esta decisão é óbvia: trata-se de uma empresa criada com finalidade muito precisa e determinada que se esgotou há muito. Porém, sobreviveu mais de uma década além do prazo razoável para o desmantelamento do Expo 98, fase final da existência social da empresa atento o seu escopo. 
A verdadeira razão pela qual sobreviveu dá que pensar e deve constituir uma lição tal o preço hoje a pagar. Oficialmente a Parque Expo manteve-se no universo do sector empresarial público porque era necessária uma entidade gestora de tudo quanto sobrou da Expo 98. Imobiliário, pavilhões, oceanário, marina, infra-estruturas e alguns equipamentos que os municípios de Lisboa e Loures não quiseram assumir. Um acervo heterogéneo constituído sobretudo por bens de rendimento negativo (como é o caso dos pavilhões, com excepção do pavilhão atlântico) cuja manutenção gerou e acumulou dívida. Outra razão para a manter activa foi o aproveitamento do know how adquirido no plano da reabilitação de amplas zonas degradadas. Mas na realidade foi a dimensão da dívida a verdadeira razão para o prolongamento da vida da Parque Expo. É que a liquidação tinha e tem por efeito incontornável a assumpção pelo Tesouro do imenso passivo da Parque Expo. E todos os governos, confrontados com este efeito, foram "empurrando o problema com a barriga" à espera de melhor oportunidade para decretar o óbito (ainda que com pena do desaparecimento dos lugares de administração e não só, que sempre deram um jeitão para satisfazer algumas clientelas mais exigentes). O ponto de chegada é este: em Dezembro de 2010, o endividamento da Parque Expo atingia 224,9 milhões de euros. Os juros suportados nesse ano foram de 4,8 milhões de euros, registando-se 4,98 milhões de euros de prejuízos. Este caso é, pois, paradigmático e - espera-se -, uma lição para todos os que têm o poder de decidir sobre a conformação do sector público a qualquer nível de administração (central, regional, local).

Falta perceber como vai o accionista Estado resolver, nesta particular conjuntura, o impacto da liquidação efectiva da empresa. Seja como for, já se percebeu que o pior é fazer agora o que os outros fizeram, isto é, deixar que se agigante o que já se revelou absolutamente insustentável. Resolvido o imbróglio da liquidação, fica a consciência do tremendo erro que é manter uma empresa deficitária à espera que  surjam melhores condições ou um negócio milagroso, capazes de fazer desaparecer ou diminuir o passivo entretanto acumulado. Estas ilusões espalhadas por gestores iluminados, mas sobretudo interessados num conveniente status quo, termina, sempre mais tarde do que mais cedo, pelo inevitável pagamento de uma factura que ninguém deixa de considerar indecente.