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sábado, 11 de janeiro de 2014

2014

Eis-nos no início de 2014, o Ano Chinês do Cavalo, cujos nativos são, em geral, sociáveis e energéticos, mas também impacientes. Que nos reservará o novo ano?
Das efemérides que serão evocadas escolho três, a que atribuo grande significado: em Portugal, assinala-se o quadragésimo aniversário do 25 de Abril, que nos tornou uma democracia; a nível global, celebra-se o quarto de século da queda do muro de Berlim (que, simbolicamente, marcou o fim dos regimes comunistas no leste europeu) e o centenário do início da I Guerra Mundial (que mais é preciso acrescentar?...).
Na esfera política, vários actos eleitorais serão determinantes à escala global. Salientam-se os que ocorrerão nos 2º, 3º, 4º e 5º países mais populosos do mundo, respectivamente, Índia (eleições legislativas, Maio), EUA (eleições intercalares para o Congresso, Novembro), Indonésia (eleições presidenciais, Julho) e Brasil (eleições presidenciais, bem como legislativas federais e estaduais, Outubro). Destaca-se, ainda, o referendo em que a Escócia decidirá se se torna independente do Reino Unido (Setembro). As sondagens mostram que uma vitória do “sim” seria surpreendente – e poderia ter efeitos imprevisíveis sobre outras regiões/países (como, entre outros, a Catalunha e o País Basco em Espanha, ou o Quebec no Canadá). E até as geralmente pouco interessantes eleições para o Parlamento Europeu (Maio) terão, desta vez, o aliciante de poderem abanar o status quo no nosso Continente, se forças extremistas nacionalistas e eurocépticas ganharem um peso até há pouco tempo considerado improvável. Um reflexo da forma como tem sido conduzido o combate à crise das dívidas soberanas da Zona Euro?...
Na economia, as notícias deverão ser melhores do que em 2012 e 2013, com as projecções a apontarem para um crescimento global mais elevado e também mais equilibrado: o dinamismo dos países emergentes continuará, evidentemente, a ser maior do que o das economias avançadas – mas menos do que em anos anteriores. No Ocidente, quer os EUA, quer a Europa deverão mostrar um maior vigor económico, com (bem) maior dinamismo dos norte-americanos, o que deverá levar a uma actuação diferenciada dos respectivos bancos centrais: o Fed – liderado, pela primeira vez, a partir de Fevereiro, por uma mulher, Janet Yellen – começará a retirar progressiva mas lentamente os estímulos à economia (ainda sem subida dos juros); na Zona Euro (onde a Letónia passou a ser o 18º Estado-membro), a mais débil recuperação prevista deverá levar o BCE a não dar, tão cedo, quaisquer sinais de alteração das actuais condições monetárias expansionistas.
Para Portugal, 2014 será, em minha opinião, um ano com vários motivos para nos animar e deixar esperançados num futuro melhor.
A melhor conjuntura internacional dinamizará (ainda mais) as exportações e ajudará 2014 a ser o primeiro ano não recessivo desde 2010 – o que já não é coisa pouca!... –, consolidando o crescimento que regressou desde que, no segundo trimestre de 2013, a economia passou a adicionar riqueza à que tinha sido criada nos três meses anteriores. Boas notícias que permitirão, por certo, desejadas melhorias no mercado de trabalho – apesar da austeridade adicional que consta do OE’2014, muito concentrada na esfera pública (única forma de reduzir o – excessivo – peso da despesa pública, torná-la sustentável e libertar a sociedade do sufoco fiscal em que se encontra) e, dessa forma, prejudicando menos a economia como um todo.
E 2014 marcará, também, a 17 de Maio, o fim do Programa de Assistência Económica a Financeira (PAEF) a que estamos submetidos desde Maio de 2011, por razões de todos conhecidas. Um PAEF que, creio, acabará bem. Porquê?... Porque não só é do nosso interesse (claro!), como interessa, também, à Europa e à Troika: ninguém deseja uma “segunda Grécia” – e todos desejariam uma “segunda Irlanda”. Um factor que, naturalmente, agora que a credibilidade perdida em 2011 está a caminho de ser recuperada, deve ser por nós usado para conseguir condições realistas (que até agora nos faltaram, incluindo no tempo para reduzir o desequilíbrio das contas públicas) para cumprir o necessário desendividamento. E será uma saída “limpa” (a la Irlanda) ou com um Programa Cautelar?... O nível dos juros que continua a ser pedido pelos investidores para financiarem a dívida pública portuguesa indicia que um Programa (Cautelar) que apoie o nosso regresso progressivo ao financiamento em mercado é, ainda, o cenário mais provável. Mas em cinco meses acontece muita coisa –  e as melhores notícias na economia e nas contas públicas (em 2013, o défice público terá sido inferior ao objectivo, ao contrário do que tem sido usual) aumentarão a confiança dos investidores (reduzindo os juros), pelo que creio ser prematuro descartar a possibilidade, ainda que reduzida, de Portugal poder imitar a Irlanda... Porém, a boa notícia que constitui, sem dúvida, o fim do período de resgate, não significa facilidades a partir daí, mesmo admitindo que o cabo das tormentas já terá sido dobrado: afinal, temos objectivos orçamentais a cumprir, estipulados no Novo Tratado Orçamental Europeu, e a consolidação orçamental está longe de ser concluída – pelo que algum tipo de condicionalidade, com ou sem Programa Cautelar, será sempre a realidade que nos espera.

Uma nota final para referir que 2014 será marcado, a nível global, por dois eventos desportivos (um dos quais nos dirá muito). Em Fevereiro, terão lugar os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, na Rússia – que já detêm, pelo menos, o record de serem (de longe...) os mais caros de sempre. Em Junho e Julho terá lugar, no Brasil, a “Copa do Mundo de Futebol”, onde se falará Português, onde Portugal participará, e onde aposto que Cristiano Ronaldo & Cia. homenagearão a memória de Eusébio e tudo farão para nos dar mais um motivo que torne 2014 um ano de boa memória. Feliz ano novo, caro leitor!...

Nota: Este texto foi publicado no Jornal de Negócios em Janeiro 07, 2014.

8 comentários:

Floribundus disse...

os que menosprezam os chineses

'tirem o cavalo da chuva'

Antonio Cristovao disse...

para os portugueses que vêm a sua vida maioritariamente condicionada pelo que aprovam ou desaprovam em Bruxelas, a eleição europeia é a que mais vai importar para nós.O alheamento que autoridades e cidadãos dedicam ao que se passa por lá ajudaria a nossa vida colectiva se fosse mudado radicalmente.Quanto teriamos a ganhar se jovens e empresarios tivessem uma atitude activa sobre o que se decide por lá? provavelmente muito.

Miguel Frasquilho disse...

Caro António Cristóvão, muito obrigado pelo seu comentário, em relação ao qual não podia estar mais de acordo!...
Saudações cordiais.

Bartolomeu disse...

Na China, o ano de 2014 é o do cavalo. Mas aqui, no extremo ocidental da Europa, desde há 40 anos consecutivos que temos um caldeirão de animais em cada ano. Temos tido de tudo em quantidade com destaque para burros, camelos, hienas, cobras venenosas e avestruzes. Um perfeito jardim zoológico... à beira-mar plantado. Resta saber se os fenómenos meteorológicos de grande amplitude e imprevisibilidade que têm sucedido com maior frequência nos últimos tempos; com o mar a rebentar com as defesas costeiras e a invadir zonas afastadas da orla marítima, vai arrastar com ele essa bicharada toda...

Carlos Sério disse...

Repete o Miguel Frasquilho os três principais anúncios do governo e dos seus apoiantes e que constituem o estribilho da ofensiva massiva da propaganda do governo e que passou a ouvir-se em tudo o que é órgão da comunicação social. São eles:
“ …dinamizará (ainda mais) as exportações e ajudará 2014”;
“Consolidando o crescimento que regressou desde que, no segundo trimestre de 2013”;
“Boas notícias que permitirão, por certo, desejadas melhorias no mercado de trabalho”;
Vejamos, um por um, como são falsos e falaciosos tais pronúncios.
1.-As exportações portuguesas não estão nada dinâmicas. O “dinamismo” verifica-se apenas nos combustíveis minerais que cresceu de 8,6% de Jan/Set 2012 para 10,6% de Jan/Set 2013. Qualquer dos outros três maiores sectores exportadores tiverem quedas naquele período, assim, Máquinas e Aparelhos caíram de 15,2% para 14,7%, Veículos e outro material de transporte de 11,9% para 10,7% e Metais Comuns de 8,2% para 7,9%. A subida das exportações só pelo facto da nova refinaria da Galp estar a exportar mais não dá direito a ninguém e muito menos a um economista que se diga “dinamizará (AINDA MAIS) as exportações.
2.-“Consolidação do crescimento”, meu caro Miguel Frasquilho, o que o crescimento está é tudo menos consolidado. Na verdade, se no 2º trimestre de 2013 ele teve um valor positivo de 0,8% do PIb o certo é que já no trimestre seguinte, no 3º. Trimestre de 2013 ele caiu para apenas 0,2% do Pib. Não sei o que isto traduz de “consolidação”
3.- “ melhorias no mercado de trabalho”, o certo é que a população empregada era de 4.656.600 em Setembro de 2012 e passou para Setembro de 2013 para apenas 4.553.600. Em períodos homólogos, de Set. de 2012 para Set.de 2013 perderam-se mais de 100.000 empregos.
Mas muitos outros indicadores económicos desmentem a propaganda do governo, por exemplo:
(I)Em termos homólogos, o índice de VENDAS NA INDUSTRIA com destino ao mercado nacional registou uma variação de -2,2% em outubro (-1,0% no mês anterior).
(II) A variação homóloga do índice de vendas na indústria com destino ao mercado externo situou-se em 1,7% em outubro (5,3% no mês anterior).
(III) O índice de volume de negócios nos SERVIÇOS apresentou, em outubro, uma variação homóloga nominal de -4,0% (-2,9% no mês anterior). O índice de emprego diminuiu, em termos homólogos, 3,5% (variação de -3,1% em setembro).
(IV) O Consumo intermédio (CI) do ramo agrícola deverá registar, em 2013, um decréscimo nominal ligeiro face a 2012 (-0,2%), resultante de uma diminuição do volume (-2,6%) e de um aumento dos preços (+2,4%).
(V) No 3º trimestre de 2013 foram licenciados 4,1 mil edifícios e concluídos 4,7 mil edifícios em Portugal. Os edifícios licenciados diminuíram 20,6% face ao 3º trimestre de 2012, correspondendo a um decréscimo menos acentuado que no trimestre anterior (-18,4%). Os edifícios concluídos continuaram a diminuir em termos homólogos (-27,6%), e de forma mais acentuada que no trimestre anterior (-16,6%).
(VI) O crédito malparado das empresas atingiu um record desde que o Banco de Portugal publica estes dados (1977), (4.265 e 2.341 milhões de euros só nos sectores da construção e actividades imobiliárias, respectivamente); o crédito malparado nos empréstimos à habitação igualmente atingiu em Outubro o seu máximo histórico de 2.390 milhões de euros.

Miguel Frasquilho disse...

Caro Carlos Sério, um feliz ano de 2014 para si e todos os seus!...
... Sobretudo, um ano com menos amargura...
Eu não disse que tudo ia correr bem - e no passado, até bem recente, quanto achei que era de criticar, e de dizer coisas um pouco diferentes, fi-lo. Far-me-á essa justiça e creio que se recordará.
Agora, que os indicadores apontam, já desde há algum tempo, e de forma consistente, no sentido positivo, ah, isso apontam...
Quase dá a sensação que você quereria que as coisas corram de modo diverso... Mas tenho a certeza que não é isso!...
Mais uma vez um feliz ano de 2014!...

Carlos Sério disse...

Caro Miguel Frasquilho,
já agora gostaria de conhecer os seus "indicadores". Ou será que os indicadores que apontei e que cobrem a generalidade da actividade económica nacional retirados do Boletim Mensal de Estatísticas, Novembro de 2013, não contam para si e para o governo?
Francamente não acho que a situação do país esteja melhor ou vá melhorar a curto ou médio prazo. Não apenas pelos indicadores que apontei como pelo que vejo ao andar na rua por esse país fora.
Porventura, àqueles que circulam apenas entre a Assembleia da Republica e as instalações do governo terão outra visão, aceito.
Agora, se a economia se mede pelo valor bolsista dos activos financeiros dou-lhe razão, a coisa está melhor, mas se a economia se mede pela melhor qualidade de vida da população, pelo melhor salário dos trabalhadores, pela melhor protecção à velhice, à doença e invalidez, pela melhor protecção ao desemprego ou pelos melhores cuidados de saúde e educação aí a coisa não está melhor.
Como social democrata defendo a economia do bem estar-social e não a economia do bem-estar dos "mercados". Penso que residirá aqui a nossa diferença de interpretação quanto aos tais indicadores.

Carlos Sério disse...

Caro Miguel Frasquilho,
Igualmente para si e para os seus, um óptimo e feliz ano de 2014.