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domingo, 5 de janeiro de 2014

"Sepultar a dor"

Perguntou-me se conhecia o fulano. 
- Quem?
- Não o conhece?! Ele trabalhou comigo muitos anos na fábrica, e, com um gesto largo, apontou na noite escura como o breu para o lado de lá do rio, como a querer comprovar a sua identidade. Vivia na quinta mais a mulher, que estava muito adoentada, coitadita. Eram ambos velhotes.
- Está bem! Mas o que é que aconteceu, perguntei, antevendo o pior, porque o estilo de linguajar, aliado à idade avançada, só podia ser o prelúdio de um passamento.
- Na véspera do ano novo tiveram que chamar o 112. A mulher não se sentia bem e levaram-na para o hospital. Ela andava em cadeira de rodas. Estava muito doente, coitadita. Depois, quando regressaram tiveram que lhe dizer que tinha morrido. Veja lá, como são as coisas. O marido, quando ouviu, sentiu-se mal e não é que também acabou por morrer. Como são as coisas, senhor doutor, como são as coisas. Afligiu-se e morreu. Eles davam-se muito bem. Viviam sozinhos, isolados na quinta, mas eram boa gente. Gente de trabalho, de muito trabalho, e honesta, muito honesta. Acabaram por ser enterrados no dia do ano novo e na mesma cova. Viveram juntos, morreram no mesmo dia e foram sepultados na mesma cova.
- Sabe, ainda bem, apesar da tristeza da notícia da morte de alguém, fico aliviado. Não sofreram com a separação, e a dor também acabou por ser enterrada com eles, homem, mulher e a dor da separação sepultados ao mesmo tempo. Uma bela forma de começar o ano novo, viver juntos, morrer juntos e dormir juntos para a eternidade. Onde foram enterrados? Disse-me o local. Mas não deverão ter tido grande acompanhamento. Praticamente ninguém os conhecia.
- Não faz mal. Eu tenho alguma ideia deles quando era pequeno, mas vou registar este episódio, pode ter a certeza, nunca mais o esquecerei pela emoção que me despertou e por saber até onde pode ir o coração das pessoas que se amam. 

Almas desconhecidas que se libertaram da vida sem serem alvo de qualquer atenção. Para eles, dedico esta descrição e lembrança. Entendam como quiserem, até como sendo uma forma de oração, mas o que interessa é que vai passar a ser uma bela recordação guardada silenciosamente no meu coração.

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