Número total de visualizações de página

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Poetas que cantaram o Natal IV

Depois de Guerra Junqueiro, David Mourão Ferreira e Bocage, António Gedeão, em Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

4 comentários:

Rui Fonseca disse...


António,

Gedeão voa mais rente à realidade que os autores que citaste anteriormente.

Li-o depois de ter acabado de ouvir uma notícia de um caso passado esta manhã, que vem relatado aqui

http://www.washingtonpost.com/local/crime/man-dressed-as-santa-clause-shot-with-pellet-gun-in-southeast-washington/2013/12/24/0df8b698-6cbd-11e3-a523-fe73f0ff6b8d_story.html

Resumidamente: Um homem de cinquenta anos, vestido de Pai Natal preparava-se para fazer o que faz há alguns anos: distribuir brinquedos a 800 crianças pobres. Quando respondia à saudação de crianças que o aguardavam "Merry ..." não teve tempo para Christmas por ter sido atingido por um tiro que o feriu, felizmente sem grande gravidade. Prometeu voltar para o ano. Não se sabe ainda quem foi o atirador.

Passa-se isto no país mais rico do mundo, onde quem não tem religião é altamente suspeito.

E daí, Rui, retiras alguma conclusão, perguntarás?

Retiro a conclusão que o poema de Gedeão é pouco conhecido, e muito menos sentido.


Pinho Cardão disse...

Caro Rui:
A realidade e vista de várias maneiras. O Natal, realidade histórica, não foge a regra. Foi por isso que me preocupei em dar essas visões diversas do Natal. O que eu não suporto e que, por ignorância, falta de cultura, ou veneração do politicamente correcto se ignore a data. Este ano, e até ao dia de hoje, Dia de Natal, não ouvi nem uma canção na rádio alusiva a data.
PS:desculpem-me a falta de acento em algumas palavras (que não no texto...) mas estas modernas tecnologias por vezes falham no português.

Bartolomeu disse...

Não sei se o poema "quando um homem quiser" de José Carlos Ary dos Santos, faz parte do "cardápio" poético que o caro Dr. Pinho Cardão se propõe apresentar-nos. Para o caso de não fazer e com sua licença, aqui o deixo:

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

;)))

Pinho Cardão disse...

O meu amigo adiantou-se, caro Bartolomeu. Era um dos que faziam parte do cardápio. O nome do autor prova que o Natal tocou a muitos, e que não e uma questão de religião, mas de cultura e civilização. Só os ignorantes de hoje, sob a capa do politicamente correcto que desculpa toda a ignorância, e até a promove, esquecem o Natal. Mas não prescindem do que ele lhes possa trazer.