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sábado, 21 de dezembro de 2013

Inverno da vida

Já o conheço há muito. Entrava sempre a claudicar, um estranho coxear que lhe dava uma certa graça, a recordação de um velho acidente. A simpatia precedia a entrada, e o sorriso meigo o cumprimentar do aperto de mão. Delicado, e sempre acompanhando da mulher, mais nova, nos últimos anos via-se mesmo que era mais nova, porque o carrear dos anos e o trabalho acelerou-lhe a senescência, permanecia quase sempre calado. A mulher fazia as honras da consulta, mas fazia-o com um carinho extraordinário, diria mesmo comovente, tratando-o como se fosse o filho que nunca teve. Algo de singular, para não dizer espetacular. Gostava daquela supremacia feminina, nítida mas amorosa, um cuidado cheio de ternura que devia perdurar há dezenas de anos e que nunca vi ao longo da minha existência. Acabei, naturalmente, por me afeiçoar ao casal. As doenças, que acumulava de ano para ano, iam sendo compensadas, mas a última, grave, prenunciadora de um fim próximo e de terapêuticas agressivas, preocupou-me sobremaneira. Na prática "não o quiseram" e nem lhe deram a devida atenção, pelo que tive de assumir a responsabilidade de o tratar e acompanhar. Surpreendi-me com a evolução da doença, nunca esperei tamanha recuperação. Um alívio, pensei, assim posso dar-lhe algum conforto e permitir que um amor de seis dezenas de anos continue a aquecê-los. Mas o tempo, aliado à sacana da lesão da perna, começaram a tolher-lhe a marcha. Aflita, a mulher perguntou-me como é que eu agora iria vê-lo: - O "pobrezinho" já não consegue andar. - É fácil! Vou vê-lo a casa. - O senhor doutor é capaz disso? Perguntou com uma cara de espanto. - Disso e muito mais. Então eu não iria cuidar do seu marido? A conversa continuou com a descrição dos cuidados necessários coisa que cumpria de uma forma tão certinha que quase poderia utilizar como um exemplo perfeito de adesão à terapêutica.
Telefonou-me ontem, perguntando se poderia então ver o seu marido. Hoje, à hora aprazada, na aldeia meio perdida e quase deserta, sem sem saber onde morava, não me foi difícil encontrar a casa. Estava à minha espera junto à cancela da entrada de uma habitação muito humilde. Uma vizinha fazia-lhe companhia. Cumprimentaram-me efusivamente, mostrando gengivas despovoadas de dentes, e entrei para a cozinha, que estava do lado de fora da habitação. - Não se importa de o ver na cozinha, pois não, senhor doutor? Ele assim está mais quentinho. Subi as escadas e entrei num pequeno espaço, aquecido com o calor de um fogão de lenha, antigo, um calor que me fez recordar o fogão da minha casa que debitava um calor semelhante. Ouvi o mesmo crepitar da lenha a arder e vi a vermelhidão a transparecer no espaço limpo e humilde. Falámos, divertimo-nos, e o meu doente, com os seus quase noventa anos de idade e sessenta de casado, ria com uma felicidade tão quente como o calor que brotava do fogão. As análises tinham sido feitas e os resultados maravilharam-me. Transmiti o meu sentir e alegria, que os contagiou, uma bela prenda de Natal, pensei. A mulher, cheia de cuidados, sorriu, e, com um olhar pintado de uma bela esperança, a querer mesmo brilhar, disse-me: - Acha que ainda vamos fazer sessenta anos de casado para o ano, senhor doutor? - Se vai? Claro que vai, por que é que não deveria? Olhei para o meu amigo que, com um sorriso muito meigo, simples e difícil de encontrar, me comunicou: - Oh, seja o que Deus quiser. - O que Ele quiser e eu também, homessa! A conversa continuou e, à saída, depois de ter dado a volta, esperavam para me saudar a mulher e duas vizinhas, que, interrompendo uma amena cavaqueira, enfeitavam a rua, sinal de que há ainda vida naquele povoado. 
Conforta-me trazer do passado certas imagens e revivê-las, porque estão impregnadas de sabedoria, humildade, consideração e de uma bela poesia que me enche o coração. Agora, não posso esquecer-me de julho do próximo ano para poder felicitar e cumprimentar um casal de velhos amigos que me ajudam a saborear a vida. Viver é isto mesmo, partilhar momentos em que somos capazes de transmitir e oferecer um pouco de felicidade.
Santa Comba Dão, sábado, solstício de inverno de 2013.

8 comentários:

Unknown disse...

Palavras ( sentimentos ) que mexem com um tipo.
Bom Natal para si e todos os seus.

Salvador Massano Cardoso disse...

Muito obrigado. Retribuo com satisfação os votos de Festas Felizes.

MM disse...

Lindo! Vou dormir melhor, saboreando o calor humano deste post... Votos de bom Natal e optimo 2014.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Professor Massano Cardoso
É um lindo conto de Natal!

Jose' Salcedo disse...

Bem haja. Um Natal Feliz. Abraço.

Salvador Massano Cardoso disse...

Feliz Natal. Um abraço.

Suzana Toscano disse...

Um verdadeiro dia de Natal o que aqui nos trouxe. Um grande abraço.

al cardoso disse...

Uma mensagem cheia de amor e esperanca, que reconforta qualquer alma!

BEM HAJA E UM SANTO NATAL!