
O estudo “Combate ao tráfico de seres humanos e trabalho forçado na Europa – o caso de Portugal” teve pouca, ou quase nenhuma repercussão. Trata-se de um relatório, onde os autores concluem pela existência de várias formas de exploração laboral, inclusive coacção física, a que os emigrantes portugueses estão sujeitos por esse mundo. Espanha e Holanda constituem dois países, onde os nossos compatriotas são vítimas de graves atentados contra a dignidade humana.
Atendendo às circunstâncias do nosso país, observa-se uma tendência para uma nova diáspora e, sendo assim, mais pessoas irão ser alvo de exploração desumana.
Quando tenho conhecimento de situações, tais como as descritas, não deixo de sentir uma sensação de náusea perturbadora.
Há muitos anos, tive a oportunidade de visitar o museu da escravatura em Luanda. Num pequeno morro, a “Capela da Casa Grande” encerrava com muita simplicidade vários testemunhos daqueles tempos. Gravuras, utensílios diversos, instrumentos de tortura, haveres de velhos escravos, preenchiam aquele espaço, sobranceiro a uma planície de águas tranquilas onde os barcos negreiros iam colher os negros. Era naquele ponto que os concentravam antes de embarcarem para a América, nomeadamente, o Brasil. Foram dezenas, ou melhor, centenas de milhar, os que viram pela última vez a sua terra. A zona, bela e silenciosa, não era suficiente para limpar as alvas paredes do edifício, impregnadas de dores e sofrimentos, facto que eu interpretei como responsável por um crescendo mal-estar que ia sentindo. Roubavam os corpos à África, mas também, antes de os despejarem nos porões dos navios, os despojavam da sua essência ao baptizarem-nos à força. Escravos sim, mas cristãos!
A segunda vez que senti algo semelhante ocorreu no decurso de uma exposição itinerante sobre instrumentos de tortura utilizados pela Inquisição. Em Coimbra, escolheram o Pátio da Inquisição e o edifício onde funcionou esta tenebrosa instituição. Os instrumentos não eram réplicas, eram originais e foram mesmo utilizados em seres humanos a quem se procuravam roubar e escravizar a alma. Sinceramente, não consegui chegar ao fim. A sensação de mal-estar foi tão forte que demorei muito tempo a recuperar.
Hoje, não há escravatura, nem Inquisição, mas os atentados contra a dignidade humana continuam a verificar-se. Na área laboral, e não só, continuamos a verificar fenómenos pouco dignificantes. É preciso que os responsáveis tomem iniciativas, que divulguem os estudos, que debatam até à exaustão toda esta problemática, que sacrifiquem a obscenidade da informação desportiva, da propaganda política, da saloiada de eventos sociais, e foquem mais atenção nas formas modernas de “escravatura” e de “inquisição”. E não me venham dizer que tudo isto sempre existiu e que há-de continuar a existir, ou que não há mecanismos de controlo ou de fiscalização, porque não aceito. Investiguem e punem como verdadeiros criminosos todos aqueles que atentem contra a dignidade humana, a qual se expressa de muitas maneiras, não esquecendo que o trabalho é o seu expoente máximo.
6 comentários:
(off-topic- mas respondendo à questão do post sobre ano lectivo 2005-2006 Florestas....pretendia enviar por mail, mas os senhores não deixaram mail de contacto, o que não me resta outra opção colocar aqui a mensagem)
Estimada Dra. Clara Carneiro
O estimado Dr.Pedro Bingre publicou hoje um post que vai de encontro a algumas das suas dúvidas.
Contudo, permita-me relembrar que aos particulares não é exigido taxação do uso do solo, prática mais corrente nos outros países ocidentais.Relembro também mais de 97% da floresta nacional é privada.
A ZIF torna-se portanto uma medida paralisante...a não ser que os protugueses (algum dia) saibam negociar....as partes podem perder um pouco mas ganhavamos um ouro verde que podíamos ter, amar e cuidar.
http://ambio.blogspot.com/2006/05/quem-paga-factura-do-combate-aos-fogos.html
Cumprimentos cordiais
João Saores, biólogo
editor do blogue BioTerra
http://bioterra.blogspot.com
bioterra@iol.pt
Errata
portugueses
João Soares
Caro Professor:
Comungo também dos seus sentimentos.Aqui há uns anos, também vi em Palma de Maiorca uma exosição sob o tema "A tortura através dos tempos", a qual ilustrava o tema desde a Antiguidade até aos tempos recentes, incluindo também o período da Inquisição. Verifiquei depois que passou por muitas cidades da Europa.
A exposição continha imagens, figurações reconstrutivas e instrumentos e descrevia, com algum pormenor, as torturas.
Como o meu amigo, não consegui chegar ao fim.
E, passados vários anos, ainda me vêm à memória algumas dessas imagens tenebrosas e de crueldade extrema, interrogando-me como é que um homem pode fazer isso a um outro tão igual a si!...
Caro Professor,
Após a leitura do seu post, revivi por momentos a experiência enriquecedora pela qual passei há alguns anos a esta parte aquando de uma passagem pelo Senegal, mais concretamente pela ilha de Gorée. Aí, nessa tela magnífica, cheia de cores pastel, onde o mar parece nos querer cumprimentar com as suas suaves ondas e onde os cheiros nos dizem que estamos de facto noutro continente, deparei-me, à sua semelhança, com a visão sofrida de um antigo “armazém” de escravos. O actual museu da escravatura elucidava os mais distraídos pelo azul profundo, fazendo-os “viver” as atrocidades infligidas aos negros de Gorée, empilhados em pequenas celas (a capacidade era infinitamente inferior à verificada), lutando por uma lufada de ar menos saturado até virem os barcos negreiros que os levariam para novo destino penoso... Perdoem-me este partilhar, mas tal como então os mais desatentos poderiam ver neste pesadelo mais uma casa engraçada de cor esbatida e de braço estendido ao mar, também nós, muitas vezes andamos demasiado apressados para perceber a diferença entre o olhar e o ver e perdemo-nos nos big brothers da vida, sejam eles os dos pontapés ou os da promoção do livro do outro político fantástico, não fazendo NADA. Obrigado, professor, pelo seu lembrar.
O fardo do homem branco! A Arábia Saudita só aboliu a escravatura em 1962. A escravatura já era praticada pelos africanos, quando os europeus lá chegram. Quem eram os fornecedores dos navios negreiros? As tribos africanas mais aguerridas, que faziam do comércio de escravos uma fonte de rendmento. Mas os culpados de tudo são apenas os europeus...
Europeus, negros, asiáticos, polinésios, verdes, vermelhos, que interessa?
Fardo? Sim! De seres humanos.
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