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sábado, 31 de março de 2007

Consciência social e geracional


A fase que a Europa atravessa de lento crescimento económico e elevado desemprego, deve contribuir para reflectirmos para além dos valores materiais de uma qualquer economia da eficiência.
Com efeito, pensar sobre a justiça social – sobre perspectivas acerca da igualdade e da pobreza – sobre os valores políticos – da democracia e da liberdade – e acerca da relação entre as pessoas e as comunidades em que se inserem é um exercício fundamental para a compreensão do caminho económico e social que queremos prosseguir.
Esta reflexão tem muita actualidade e ganha grande importância em Portugal, um país em que se torna necessário encontrar uma nova dimensão para a relação entre o papel do mercado e o papel do Estado. Uma discussão que faz falta, verdadeiramente adiada...
A pobreza na Europa é uma realidade. A pobreza é um grande estigma social e económico. Devíamos preocupar-nos com as dificuldades dos pobres. É uma obrigação moral, uma obrigação aliás reconhecida por todas as religiões. A vida, a liberdade e a felicidade são direitos inalienáveis. Sem a garantia da igualdade de oportunidades e de um nível básico de rendimento a “busca da felicidade” não tem significado.
Acredito que todos beneficiamos de uma sociedade que seja menos dividida. Porque uma sociedade que aposta na igualdade de oportunidades é uma sociedade que tira melhor proveito dos seus recursos humanos e assim sendo é uma sociedade em que a estabilidade social e política é maior, com claros benefícios para o crescimento, porque é menor o nível de contestação.
Falar de igualdade de oportunidades é falar de oportunidades para as crianças e como tal o seu futuro não deveria estar dependente da situação dos pais. Uma criança desfavorecida que não tenha as mesmas oportunidades na escola e que, por exemplo, tenha uma alimentação subnutrida nos primeiros anos de vida poderá ter o seu futuro comprometido. Portugal tem muito para fazer neste domínio.
Mas nenhuma oportunidade é mais importante do que a oportunidade de emprego. Por isso, a Europa deveria firmar um compromisso com o pleno emprego, com um emprego para toda a gente que queira trabalhar, desenvolvendo programas de educação e de formação que facilitem a mobilidade de emprego. Não sei se a "flexigurança", agora tão na boca dos nossos governantes, será por si só suficiente.
E também nos devemos preocupar com a lealdade e a justiça entre as gerações, a actual e as vindouras. O “crescimento” de hoje e as opções políticas de hoje não devem fazer-se à custa do bem estar das gerações futuras. Esta consciência geracional deve estar hoje mais presente do que nunca, colocando o objectivo da sustentabilidade – a preservação do ambiente, a conservação dos recursos naturais, a manutenção e construção das infra-estruturas, o fortalecimento da cultura, etc. – no centro da discussão sobre igualdade de oportunidades. Opções do tipo OTA reflectem esta preocupação?

6 comentários:

antoniodasiscas disse...

A propósito deste artigo que considero extremamente incisivo na definição e na caracterização que faz dos actuais problemas sociais com que se debate a U.E.,problemas estes mais condizentes com uma expansão económica do que com um desenvolvimento harmonioso que deveria integrar entre outras variáveis, as tais que determinam a chamada qualidade de vida,lembro-me de uma intervenção do Dr. Franco Nogueira que com imensa objectividade pôs exactamente em causa o facto de algum dia se poder vir a alcançar aquela mesma harmonia, na medida em que, veja-se o que já aconteceu na aprovação da constituição dita europeia, cada país vai, isso sim, procurando servir-se e utilizar da melhor maneira as " benesses " que o seu estatuto lhe confere - e neste contexto a Espanha tem sido exemplar para si própria - deixando para os outros estados a resolução e a implementação de medidas eminentemente sociais, que em boa verdade deveriam ser a preocupação dominante de todos, na procura constante da tal harmonia.

Anónimo disse...

É bem verdade Margarida. Apesar do discurso político, não são as pessoas que estão em primeiro lugar. O desemprego passou a ser um múmero. Uma percentagem mais ou menos expressiva. Um indicador. Pondera-se no desemprego, mas esquecem-se os desempregados. Poucos são os que refletem nas implicações na vida das pessoas, das famílias, desse flagelo.
Dizem-me que a dimimuição do emprego será uma inevitabilidade nos próximos tempos, exigência dos ajustamentos macroeconómicos. Pode ser que sim nas biblias da economia. Nas páginas da história da Europa a escrever nos próximos anos, esperemos que o modelo económico não ignore esse que é seguramente o maior dos cancros sociais.

Suzana Toscano disse...

O divórcio crescente entre as pessoas e a política resulta de se reconhecer cada vez mais que os decisores se escondem atrás de "modelos" e de regras técnicas sem fazerem a sua projecção sobre a realidade social, como bem refere o FAlmeida. Houve muitos progressos nestes 50 anos, não podemos ignorar isso, mas também as pessoas se tornaram muito mais exigentes nas suas aspirações, já não é a sobrevivência mas a qualidade de vida até serem velhinhos. A política é cada vez mais exigente como actividade complexa, de coordenação e de influência, o pensamento está a recuperar algum campo e são já muitas as vozes que questionam qual a reflexão associada à acção.E os países começam a reagir a soluções uniformes, a identidade não se confunde com bairrismos mas tem que ser bem avaliada no contexto das decisões para que não seja tudo posto em causa e acabe cada um a levar o que pode, como diz aqui o antoniodasiscas...

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro antoniodasiscas
Os cidadãos europeus estão hoje muito preocupados com as questões sociais, designadamente com as que advém do desemprego ou do envelhecimento da população, bem como, por exemplo, com a segurança na reforma.
Sem dúvida que teremos que ser capazes de renovar a Europa, mais preocupada com a sustentabilidade do crescimento económico e do bem estar social.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

José Mário
Diz bem, é uma verdade que não são as pessoas que estão em primeiro lugar. E é precisamente esta verdade que nos deve fazer reflectir que tudo o resto – que certamente é muito – só faz sentido se formos capazes de criar uma Europa da igualdade de oportunidades. O cancro do desemprego é um flagelo social que deve estar no centro das decisões políticas.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
Muito importante o que refere, aliás na linha dos comentários do antoniodasiscas e do José Mário: "a identidade não se confunde com bairrismos, mas tem que ser bem avaliada no contexto das decisões para que não seja tudo posto em causa a acabe cada um a levar o que pode...". Também aqui é grande a responsabilidade política. Assobiar para o ar não resolve os problemas!