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sábado, 30 de março de 2013

A Páscoa da minha aldeia

Era dia de gloriosa primavera. O Sr. Abade, de sobrepeliz e estola, e os mordomos, capa vermelha, um com a cruz, outro com a caldeirinha da água benta, outro com a campainha, que anunciava a comitiva, calcorreavam a freguesia, povo a povo, caminho a caminho, casa a casa, da mais rica à mais pobre, da mais perdida no monte à mais central, junto à fonte ou à igreja.
O mordomo da campaínha fazia também de tesoureiro, guardando os envelopes das ofertas em dinheiro que as casas mais abastadas faziam ao Senhor Abade. E havia ainda o homem do cesto, o membro hierarquicamente mais baixo da procissão, cuja função era guardar os ovos, presente dos mais pobres ao Senhor Abade.
A profusão das flores da primavera e o perfume das glicínias junto aos muros apareciam realçadas pelo sol brilhante da estação e davam um ar de incontida festa, que os tapetes de rosmaninho, junto às portas, mais acentuavam. E as escadas, decoradas a alfazema e a alecrim, anunciavam a alegria da visita. As casas, sujeitas à lavagem anual, mostravam o ar limpo e fresco do chão esfregado com sabão amarelo.
Na melhor sala da casa juntava-se a família: pais, filhos, avós e netos.Boa Páscoa, Boa Páscoa, saudemos o Senhor que nos vem visitar, dizia o Senhor Abade. As pessoas ajoelhavam e a cruz passava de boca em boca para o beijo pascal. Por vezes o crucifixo era mesmo beijocado com grande profusão e intensidade, nada escapando, desde a cara, aos joelhos e aos pés de Jesus Cristo. Nos casos mais extremos, o mordomo tirava um pano branco do bolso e limpava o crucifixo para a próxima devoção.
Mesmo as casas mais humildes, em cima de uma mesa mais ou menos tosca, tinham sempre uma cruz, um folar, uma garrafa de vinho e ovos. Vai alguma coisa, Sr. Abade? Não, que temos caminho a andar. E tem aí os seus filhos; olhe que eles estão com apetite!...Ao sinal discreto do Senhor Abade, o homem do cesto retirava ou não os ovos da oferta.
As casas mais ricas caprichavam na recepção.Na melhor toalha de linho, sempre o folar, mais uma profusão de bolos e doces e vinho fino, para acompanhar. Mas aí não havia ovos. Normalmente, um envelope com dinheiro. Vamos lá fazer as honras da casa, dizia o Senhor Abade!... E então alguns dos mordomos tiravam a barriga de miséria, dado que os pitéus expostos e o vinho do porto não eram manjar habituado a passar por aquelas gargantas.
O que o Senhor Abade sempre fazia era ir junto à cama dos doentes. E se era recebido com queixumes, na despedida sentiam-se sempre mais reconfortados.
Por vezes, o mordomo da cruz hesitava entrar numa ou noutra casa. E cochichava com o Sr. Abade. Que lhe dava ordem de entrar. Ao que eu me sujeito, ter que levar a cruz a gente amamcebada...
A Páscoa era um dia festivo. Os tempos mudam e fica a nostalgia. Hoje, na minha terra, continua a haver visita pascal, mas sem o Senhor Abade. Saem diversas cruzes para despachar serviço e tudo acaba mais depressa, logo de manhã. As pessoas têm outras coisas que fazer!..
Já não é o mesmo, dizem! É verdade. Mas coisas melhores virão, diz-nos a esperança.
Nesta boa esperança, uma Páscoa festiva e excelente para todos!...

4 comentários:

Massano Cardoso disse...

Por aqui também se "industrializou". Agora é um faz de conta, sem piada nenhuma. Cumprem o calendário. Apenas conseguem realçar a beleza de um passado e ao mesmo tempo são incapazes de criarem novas lembranças para poderem ser contadas no futuro.
São os tempos...
Gostei do apontamento. Recordou-me tantos outros que outrora vivenciei.

JM Ferreira de Almeida disse...

Também nós desejamos uma Páscoa feliz. E para recordar, deixo acima o imortal João Villaret com um cheirinho de Páscoa na aldeia.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Os tempos são outros, com coisas melhores e outras piores. As coisas boas recordam-se sempre, nunca perdem o significado, ficam na memória para sempre, fazem parte do que somos. É pena que desapareçam, há coisas que não tinham que mudar...
Votos de uma Santa Páscoa.

Suzana Toscano disse...

Desaparecem umas e aparecem outras, se calhar nós, às vezes, é que já não nos sentimos parte delas.