sexta-feira, 13 de Julho de 2007

Fiscalidade e Competitividade (IV): Pérolas Socialistas

Neste conjunto de posts que tenho vindo a publicar sobre o colóquio "Fiscalidade e Competitividade", que no passado dia 12 de Junho teve lugar na Assembleia da República, deixei propositadamente para o artigo final dois episódios relevantes que ilustram bem a mentalidade com que o Governo Socialista (e o próprio PS) encaram a questão fiscal.

Duas verdadeiras pérolas.

Começo por Luís Campos e Cunha. Na sua intervenção no colóquio, o ex-Ministro das Finanças, ao apresentar uma lista dos maiores obstáculos ao investimento estrangeiro, saiu-se com um comentário deste género: “Como se pode ver, a partir de um inquérito de opinião a empresários portugueses, elaborado pela consultora Deloitte, a carga fiscal sobre as empresas não é nem o primeiro, nem o segundo, maior obstáculo ao investimento estrangeiro; é o terceiro. Logo, não é dos mais importantes”. E repetiu o mesmo argumento num artigo de opinião no “Público” de 22 de Junho último!... Pois, é isso mesmo: a carga fiscal sobre as empresas é o terceiro obstáculo mais importante, de entre nove (sim, 9!!!) considerados!... E, portanto, para Campos e Cunha, se entre 9 está em 3º lugar, é porque não é importante… Imagine-se, estar no top 3!... Pergunto-me se serão mais relevantes o 4º, 5º ou mesmo o 8º e o 9º… E já nem refiro o facto de, para cerca de 30% dos inquiridos, a carga fiscal ser a dificuldade principal…; ou de os incentivos fiscais serem considerados, no mesmo estudo, o factor principal de captação de investimento estrangeiro…; ou que, de entre os principais custos de contexto identificados, os “custos fiscais – impostos directos” se encontrarem em 3º lugar em 11 (lá está, “pouco relevante”, de acordo com Campos e Cunha)…; ou que, ainda, nas áreas em que seria mais importante reduzir os custos de contexto, entre 8 factores, os impostos directos aparecerem em 4º e os indirectos em 5º... que mais é preciso acrescentar?!...

Mas também o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais (SEAF), Amaral Tomás, se distinguiu na sessão de encerramento – e de forma inesperada, nada de acordo com o seu registo, que até aqui tinha considerado sempre honesto, técnico e competente. Afinal… pois não é que o SEAF, em determinada altura, concluiu que Portugal era fiscalmente competitivo porque “conseguia negociar contratos individuais de investimento estrangeiro”! Contado ninguém acredita, não é? Mas será esse tipo de investimentos a maioria? Não me parece! Será mesmo, digamos, uma minúscula minoria …

E todos os projectos de investimento (nacional e estrangeiro) de montante inferior a EUR 5 milhões, que não podem ser objecto de tratamento individualizado? Neste segmento – que inclui a esmagadora maioria dos investimentos, e todas as PME, que representam mais de 99.5% do nosso tecido empresarial – seremos competitivos? Creio que a resposta é clara: não! E portanto, foi com sincera pena que ouvi esta argumentação da parte de quem nunca esperei que a usasse. Mas que revela, em conjunto com a intervenção de Campos e Cunha, e de outras, proferidas por colegas meus do PS, a importância que o Governo dá a esta matéria: nenhuma.

Já desde há muito tempo (seis ou sete anos, pelo menos) que penso, coerentemente, que esta área é fundamental em termos de competitividade – e, portanto, acho que a posição do Governo é, nesta matéria, profundamente errada. E prejudicial para o país, que todos os anos empobrece – também (mas não só, claro) – porque não somos fiscalmente competitivos. Mas se ainda tivesse algumas dúvidas, o que ouvi e vi no colóquio realizado no passado dia 12, tê-las-ia dissipado completamente.

5 Comments:

At 20:45, Blogger Virus said...

Por isso é que o meu caro se deve ter "torcido" todo quando fez parte da equipa da M.F.Leite a "grande visionária" das políticas fiscais hoje aplicadas tão zelosamente pelos actuais Ministros das Finanças...

...Como refere e muito bem (inclusivé do que me lembro de o ouvir/ler em várias entrevistas em programas de economia e outros) há muito tempo que pensa, COERENTEMENTE, que esta área é fundamental em termos de competitividade.

Só me resta dizer (e não sou nada religioso) Deus nos livre e guarde de ter esta mulher à frente do Clube Disney, digo, PSD...

 
At 23:42, Blogger Tonibler said...

Comentário aqui http://tonibler.blogspot.com/2007/07/fiscalidade-e-competitividade-prolas.html por ser muito grande

 
At 17:00, Blogger Rui Fonseca said...

A mim, não me admiram as palavras do SEAF. O senhor está empossado numa função política, tem de comportar-se como tal. Depreeende-se daqui que a passagem para a política implica o personagem a ser menos honesta? Claro que não, ainda que muitos levem o papel tão a sério que se tornem, realmente, menos sérios.

Mas uma coisa é mentir, outra é omitir.

Miguel Frasquilho, por exemplo, tem defendido a sua dama (de redução dos impostos) com persistência. Admitamos até que também com coerência, se persistência e coerência se confundem por aí em algum plano.

Mas, nitidamente, sem consistência: porque Miguel Frasquilho sabe, mas esgueira-se a enfrentá-lo, que a redução de impostos não é uma política, será quanto muito uma componente. Faltando-lhe as outras vertentes a base não se sustenta.

Claro que podemos reduzir os impostos se reduzirmos o perímetro de intervenção do Estado, por exemplo.

Que diz Miguel Frasquilho a isto: que se paguem aos funcionários excedentários, pedindo dinheiro para o efeito.

Claro que se as coisas fossem assim tão simples só por ignorância crassa ou falta extrema de honestidade, o Governador do Banco de Portugal diria que não é possível reduzir os impostos pelo menos até 2010.

É possível que uma coisa ou outra aconteçam na pessoa de Vítor Constâncio.

Quanto a Campos e Cunha, ele também disse que o IRC=0 é possível sem afectar o montante das receitas fiscais, dentro de determinadas circunstâncias.

Será, também ele, pouco informado ou menos honesto?

 
At 14:46, Blogger Miguel Frasquilho said...

Caro Rui Fonseca,

Lamento que tenha estado tão pouco atento ao que escrevo sobre esta matéria... A verdade é que nunca defendi a área fiscal como panaceia para todos os nosso males, como o meu caro deixa entender que acontece. Simplesmente, o que não posso admitir é que se ataquem outras vertentes da competitividade e se esqueça sistematicamente a área fiscal. Quando tudo, mas mesmo tudo o que vamos conhecendo a nível internacional nesta matéria me diz que tenho razão. Até já a França (de Sarkozy, claro...), meu caro!... E agora as propostas de Rajoy em Espanha, para as eleições do próximo ano!... Já nós... uma tristeza completa.
Não é que isso me importe muito, mas ao menos faça-me justiça meu caro: se alguma coisa tenho sido, para além de persistente, é coerente...

 
At 09:22, Blogger Rui Fonseca said...

Caro Miguel Frasquilho,

Não sei se a sua pachorra é tanta que o tenha levado a espreitar se mais algum comentário caiu para aqui.

Eu só hoje, confesso, tive tempo para ler o seu comentário às minhas impertinências.

Por mero acaso descortinei a notícia, que transcrevo a seguir, no Jornal Negócios. Como pode constatar nem só Vitor Constâncio está contra.

Transcrevo:

"Economistas do BCE contra redução fiscal até às eleições
Baixar os impostos antes do final da legislatura é uma decisão que pode sair cara. Quem o diz, desta vez, é o BCE, com base na história recente de outros países.

--------------------------------------------------------------------------------

Rui Peres Jorge
rpjorge@mediafin.pt

Baixar os impostos antes do final da legislatura é uma decisão que pode sair cara. Quem o diz, desta vez, é o BCE, com base na história recente de outros países

Um estudo publicado esta semana pelo Banco Central Europeu (BCE) onde são analisados os desempenhos orçamentais alemão, francês e português - países que enfrentaram procedimentos por défices excessivos - sustenta os alertas que vêm sendo dados por vários economistas e conclui que "os governos implementam más políticas em tempos económicos favoráveis".

 

Enviar um comentário

<< Home