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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Parlamento em sinal aberto, democracia com sinal de fecho

Nota prévia: para os espíritos mais sensíveis não lerem, digo desde já que se trata de um post integralmente politicamente incorrecto.
Assunção Esteves quer o Canal Parlamento em sinal aberto. Os Deputados ficar-lhe-ão gratos, com toda a certeza. Mas, com não menos certeza, querer o Canal Parlamento em sinal aberto é enorme atentado à democracia. Pela exibição pública que irá fazer da despudorada retórica dos nossos deputados, verborreia vazia de senso, mas abundante de acusações, insultos e violência verbal. Porque é esta que vingará na memória e que apagará a palavra responsável daqueles Deputados que vêem no Parlamento uma forma de serviço à nação e aos portugueses. Quando em circulação, a má moeda expulsa sempre a boa moeda.
Diz-se que o Parlamento é o símbolo da democracia. Não o nego. Sem Parlamento não há democracia. Mas se for um Parlamento onde os deputados se respeitem, enquanto pessoas e enquanto eleitos, onde procurem os consensos necessários ao país, onde afirmem as suas convicções sem menosprezar as alheias. Onde os deputados não se insultem, dia a dia, debate a debate, minuto a minuto, onde não usem linguagem violenta e grosseira, onde não façam da mentira o seu ideal político, onde não usem da mais boçal e desavergonhada demagogia para minar credibilidades e apoucar adversários, no fim, enganar quem os elegeu. Onde se promova o mérito, se enalteça quem cria riqueza, em vez de louvar o demérito e a mediania.
Onde os Deputados fossem elites pensantes e não servos da gleba mendicantes, sempre prontos a mostrar serviço ao suserano, atropelando correligionários e adversários por qualquer pedaço de terra, um lugar em S. Bento ou numa qualquer autarquia ou serviço central ou regionalizado.
Retóricas boçais de quem se acha senhor absoluto da verdade e da razão, como se outras verdades e outras razões também não tivessem sido sufragadas é atentado à democracia diariamente praticado no Parlamento. Querer exibi-las por grosso e por inteiro é colaborar nesse atentado. Por melhores que sejam as intenções. Já bastam os excertos que as televisões nos dão.
Os bons Deputados não merecem ser enxovalhados pela sub-mediania reinante.

4 comentários:

Flash Gordo disse...

A galambada é um estilo novo no parlamento, que assim se tornará permanente. É um estilo agressivo, de ofendido, pretenciosamente esperto, culto e sabedor, mas quase sempre cheio de pequenos truques que violam o princípio da verdade, toda a verdade, nada mais que a verdade. O parlamento vai galambar como nunca.

Tonibler disse...

Caro Pinho Cardão,

Não é por escondermos as coisas que elas não existem. Pelo contrário.

Quanto à "má moeda", como já defendi num comentário aqui há uns tempos, há que retirar o dinheiro da equação, as incompatibilidades. Não há, hoje, justificação para que o cargo de deputado não possa ser exercido remotamente e gratuitamente. E os poucos obstáculos que possa haver a isso, seriam muito fáceis de remover.

Quando se tirar o dinheiro da equação, é vêr a galambada toda a partir e a representação do povo a ficar entregue a quem faz de facto alguma coisa na vida sem que a sociedade tenha que prescindir dos seus elementos valiosos ou estes da sua vida pessoal e profissional...

Rui Fonseca disse...

Caro António,

Concordo contigo: as transmissões em directo são um meio excepcional para a promoção demagógica. Portanto, um factor acelerador da erosão democrática. Aliás, escrevi várias notas no meu caderno acerca do tema.

Curiosamente, Tonibler levanta uma questão que me obriga a abusar deste espaço. Diz ele "Não há, hoje, justificação para que o cargo de deputado não possa ser exercido remotamente e gratuitamente".

Em Maio de 2007 escrevi isto:

"INTERNET DAY

Há dias, Vital Moreira comentava no Público a proposta, mais uma vez repetida, do PSD para a redução do número de membros do parlamento. O motivo invocado na proposta (excesso actual de deputados relativamente às necessidades dos trabalhos parlamentares) é visto pelos partidos com menor representação parlamentar como uma forma subreptícia de os eliminar e, deste modo, é contestada à direita pelo CDS e à esquerda pelo PCP e BE.
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Vital Moreira, e com ele outros constitucionalistas, além de analistas políticos ou simples comentadores, têm realçado o papel dos pequenos partidos na animação do debate parlamentar e a perda que a redução da sua presença ou eventual desaparecimento representaria para a democracia portuguesa.
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É, no entanto, por demais evidente que se este último argumento é válido o primeiro tem pertinência: a intervenção de muitos deputados no parlamento limita-se a estarem e levantarem-se quando recebem instruções nesse sentido. Há deputados activos que realizam grande parte do seu trabalho na Assembleia da República mas também há deputados passivos que poderiam exercer as suas funções de representação a partir de qualquer ponto do país, e nomedamente do território por onde foram eleitos. As telecomunicações (de que hoje se celebra o dia, e particularmente o dia mundial da Internet) atingiram já níveis de sofisticação que dispensam facilmente a deslocação e a presença de deputados que vão a S. Bento para se levantarem ou carregarem no botão quando é preciso, podendo, para comodidade deles e redução dos encargos da Assembleia da República, realizar esses actos de representação nos locais onde se encontrarem à hora dos debates e das votações.
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Ideia bizarra? Por agora, sim.
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Mais tarde ou mais cedo, deixará de o ser."

Com Tonibler, passamos a ser dois.

Pinho Cardão disse...

Três...