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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

São Sebastião

Tarde de domingo de inverno. Um sol infantil diverte-se convidando os desejosos de calor a espraiarem-se debaixo dos seus raios. Não lhe respondi, tinha de ir a um funeral. Na estrada secundária observei um movimento inusitado para aquele lado meio deserto. O que é que estará a acontecer? Ao fim de meia centena de metros observo uma mancha escura e silenciosa a invadir a estrada. Estacionei o mais possível à direita para deixar passar uma estranha procissão. Para a terríola era muita gente, de idade a maioria, vestidos de escuro, com uma ou outra criança com ar divertido e um casal de namorados que, indiferentes ao momento, iam manifestando ternura amorosa. Os devotos iam ao molhe, sem ordem, até pareciam uma coorte romana a ir para a batalha. As suas faces eram dignas de fazerem parte dos quadros da Paula Rego. Ainda procurei sinais de alguma devoção, mas, sinceramente, não consegui vislumbrar, pelos menos nos que foram alvo da minha atenção. Senti que nos tempos do paganismo hordas semelhantes deveriam ter os mesmos comportamentos e expressões. Tudo se mantém igual. As mesmas pessoas, os mesmos rituais e o mesmo sol. Além da bandeira empunhada por um "irmão" vestido de vermelho, três andores ornamentados de flores chamaram-me a atenção. O primeiro, um sagrado coração de Jesus, pequeno, de braços abertos, ia visivelmente aflito, tomara, passo sim passo não ameaçava tombar para o lado esquerdo, não por sua culpa, mas devido a dois voluntários perfeitamente desemparelhados. O do meio transportava um santo ainda mais pequeno, tão pequeno que só quando passou por mim é que vi que era um santo António, afogado no meio das flores, mas sempre com um ar divertido. Por fim, airosa e triunfalmente, apareceu o terceiro andor com o são Sebastião, de maiores dimensões, belo, expondo ao sol o seu peito nu cravado por três setas, as quais não lhe deveriam provocar nenhum desconforto, a ver pela face serena. Uma procissão entre muitas outras que deverão ter-se realizado nesta altura do ano em que se comemora o seu dia. São Sebastião padroeiro da peste e das doenças infeciosas. Talvez seja esta a razão, peste, que atormentou as populações, a base de um culto processionário que ainda corre em muitas povoações do país. Mas, ao olhar para a serenidade e a beleza do santo, lembrei-me de imediato de dois escritores, Oscar Wilde e Yukio Mishima. Este último, por numa das suas obras fazer uma impressionante descrição homoerótica que nunca mais esqueci a propósito do sacrifício sofrido pelo oficial romano. Quanto ao primeiro, Wilde, também homossexual, após um período de prisão "por práticas contrárias à natureza", converteu-se ao catolicismo adotando o pseudónimo de Sebastião. Não pude deixar de sorrir. A Igreja Católica, adversa a certas práticas, entre as quais a homossexualidade, homenageia um santo que é o "patrono dos homossexuais". A multidão, na sua fé e respeitadora de velhas tradições, transportou-o hoje da sua capela para o único banho de sol que pode apanhar ao longo do ano. Quase que me apeteceria dizer que, debaixo de quentes e suaves raios de sol, vi que algo de estranho se estaria a desenvolver sob o seu peito nu, uma certa volúpia, decerto, a prenunciar futuras tradições...

4 comentários:

al cardoso disse...

Uma excelente prosa a respeito do mesmo santo a que me referi tambem no meu blogue!
Na minha regiao e considerado o patrono dos militares, pois ele tambem o foi.
Nao lhe conhecia esta ligacao a homosexualidade, estamos sempre a aprender!
E um santo muito popular por todo lado, mas pensei que pelo facto de estar quase nu, fossem as mulheres as maiores devotas!

Um abraco dalgodrense.

Catarina disse...

: )
Uma das muitas contradições da Igreja católica.
Bom fim de semana, caro Prof., e que a sua criatividade continue a manifestar-se através de escritos tão interessantes como este.

Ilustre Mandatário do Réu disse...

já imagino um filme pasoliniano, com D. Sebastião gay retornando (montado num puro lusitano claro) numa manhã de nevoeiro e encontrando a futura tradição em marcha.

pano para mangas...

José Gonçalves Cravinho disse...

O Cristianismo ao tornar-se a Religião oficial do Império Romano,tratou de criar Santos e Santas para substituir os Deuses e Deusas do Paganismo,mas afinal não deixou de manter a Idolatria e
com toda a sua pompa e riqueza própria de Reis e Imperadores não deixou de ser materialista e pagã.
E a Igreja sabe que o Povo crente e supersticioso gosta de rituais, de espectáculo,de procissões com Bandas de música e foguetes e no fim,comes e bebes e até com bebedeiras e zaragatas o que nada tem de espiritualidade cristã mas simplesmente,materialismo pagão.