domingo, 19 de Fevereiro de 2006

Ensino Superior “à Bolonhesa”

A minha menor assiduidade no 4R tem um culpado: processo de Bolonha. Ainda mal refeito de dez anos de exercício de cargos políticos, dediquei-me de alma e coração a um autêntico processo de “reinserção social” no meio académico. Para além de ter retomado o ansiado contacto com os alunos, esperava dedicar o remanescente da minha agenda a investigar e a produzir alguma ciência de forma a recuperar nos próximos dois anos o que andei a desperdiçar em cerca de sete ou oito. Não seria uma missão impossível caso a vida académica não fosse além do que é fundamental: investigar, ensinar, formar. Só que a vida académica tem, cada vez mais, outros imperativos.
Em primeiro lugar, a responsabilidade de voltar a dirigir um departamento, cerzir um tecido macerado pelo conflito e pela dificuldade de cooperar cientificamente, dar despacho às resmas de papel e requerimentos que nos depositam diariamente na secretária, participar em dezenas de reuniões onde ouvimos os mesmos lamentos, detectamos os mesmos vícios identificados há dez ou vinte anos e de onde saímos com o sabor amargo do tempo perdido.
Em segundo lugar, o desafio da adesão ao processo de Bolonha, esse desígnio que uma vez mais a Europa nos coloca para que tenhamos a oportunidade de pormos a casa em ordem. As últimas semanas passei-as em reuniões onde se reconfiguraram currículos, distribuíram-se créditos, identificaram-se competências. Criaram e reconverteram-se cursos, disciplinas, áreas científicas, matrizes de 1.º e 2.º ciclos. Eu sei lá …
Depois de tudo isto não consigo ultrapassar os “mixed feelings” que me atormentam: parece que tudo tem de mudar para que tudo fique na mesma. É dramático!

9 comentários:

Tonibler disse...

Caro djustino,

Com a ressalva de que sou um sujeito que não percebo nada disto, cheira-me que os esforços de adaptação do ensino superior a Bolonha são fundamentalmente colocar aquilo que se fazia em 4 anos, em 3, pôr as culpas o legislador por tal facto e encontrar utilidade para o mesmo número de professores e matérias por mais inúteis que sejam. Pode ser que lá a "sua" casa seja uma excepção, mas nas outras...

Arnaldo Madureira disse...

Caro David Justino:
1º "Bolonha" é uma questão de competitividade (duração/formação/certificação), não é?
2º Se é, considerando a organização escolar e o produto formado a montante do Ensino Superior e considerando a organização do próprio Ensino Superior, acha possível uma formação competitiva com apenas 3 anos?

António Viriato disse...

Oxalá(expressão difícil de utilizar nestes últimos dias)o processo de Bolonha não venha a traduzir-se em mais um logro para o nosso Sistema Educativo. Haverá sector mais desanimador para a nossa experiência democrática de Abril ? Quantas reformas, quantos métodos, quantos processos já se experimentaram, com os pobres resultados conhecidos ? Já alguém saiu responsabilizado deste enorme insucesso processual ? Dois graus de Ensino, o Primário e o Secundário, em completo caos permanente, com taxas de insucesso vergonhosas, apesar dos baixos padrões de exigência ; um grau superior, que se desvaloriza em grande percentagem, mesmo se mantém ilhas de excelência; um mar de cursos sem credibilidade científica e/ou pedagógica, que ninguém consegue travar; enfim, um quadro negro, continuamente diagnosticado, mas pouco ou nada melhorado.E se passarmos aos restantes sectores da sociedade portuguesa : à Economia, à Indústria, à Agricultura, às Pescas, à Justiça, à Saúde, à Defesa, que poderemos dizer ? Ai, Portugal, Portugal, como te haveremos de ver no futuro ?

Antonio Almeida Felizes disse...

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Caro DJustino,

"Bolonha", pelo potencial transformador de mentalidades e processos, será talvez uma ultima possibilidade de, com nexo, reformar o decrépito ensino superior em Portugal e definitivamente transforma-lo em algo de efectivamente útil para o País.

"Bolonha" vale, sem dúvida, todo o seu esforço e empenhamento.

Cumprimentos,

Antonio Felizes
http://regioes.blogspot.com
..

adkalendas disse...

Caro David Justino
Esse sentimento de que fala, "parece que tudo tem de mudar para que tudo fique na mesma. É dramático!" é o mesmo que nós, professores dos ensinos básico e secundário, sentimos quando há uma reforma. E elas sucedem-se.
E as práticas? Reformam-se?

diogenes disse...

Caro djustino:

"Em primeiro lugar, a responsabilidade de voltar a dirigir um departamento"... perdoe-me a pergunta, mas como tem a liberdade de responder ou não!

Dentro de três anos o departamento vai ser visto como um sucesso, e a sua gestão vai ser felicitada por todos. Porquê? O que é que fará as pessoas considerarem o departamento como um caso de sucesso?

David Justino disse...

Meus caros comentadores,
antes de mais um obrigado pelos comentários que levantam vários problemas e para os quais não terei a devida resposta.
Julgo que o chamado processo de Bolonha é uma óptima oportunidade para qualificar o ensino superior. A minha dúvida está em saber se os nossos professores estão dispostos a rever os seus métodos de ensino, no sentido preconizado, ou se vão "adaptar-se" às novas regras com velhos procedimentos. A verdadeira mudança que se deseja não é dos 3+2 ou 4+1, ou das cargas horárias. Essa mudança só será efectiva se passar por novos métodos de ensino e por metodologias de desenvolvimento de competências que vão muito para além das velhas aulas "de cátedra".
Sobre o problema das reformas, o desafio é outro. Não está na concepção ou na regulamentação (que também tem problemas). Está na forma como cada escola, cada departamento, cada professor ou cada aluno a concretizam na aprendizagem. Não há nenhuma reforma que corresponda à diversidade de problemas de todo o sistema de ensino. Mas, em muitos casos, a anti-reforma é uma maneira de não mexer em nada.
Sobre o sucesso do meu Departamento. Como avaliá-lo? Se conseguirmos fazer mais e melhor investigação, se eu conseguir convencer os meus colegas a colaborarem mais, quer em termos pedagógicos quer na investigação científica, e se tudo isto se traduzir em alunos melhor preparados e em mais alunos a inscreverem-se nas licenciaturas, mestrados e doutoramentos, já ficarei contente.
Hoje em dia e um pouco por todo o país, muitos cursos debatem-se com uma quebra acentuada de alunos. O nosso primeiro objectivo é recuperar a "procura" por que se assim não for, já temos para onde ir ... rua!
Depois de alguma crise nos últimos anos existe consciência do desafio que enfrentamos, o da sobrevivência!
Cumprimentos para todos.

diogenes disse...

Agradeço-lhe a resposta. A maioria ou ignoraria a questão, ou responderia com conversa fiada.

"Se conseguirmos fazer mais e melhor investigação (1), se eu conseguir convencer os meus colegas a colaborarem mais (2), quer em termos pedagógicos(2.1) quer na investigação científica (2.2), e se tudo isto se traduzir em alunos melhor preparados(3) e em mais alunos a inscreverem-se(4) nas licenciaturas (4.1), mestrados (4.2) e doutoramentos (4.3), já ficarei contente.
Hoje em dia e um pouco por todo o país, muitos cursos debatem-se com uma quebra acentuada de alunos (5). O nosso primeiro objectivo é recuperar a "procura"(6) por que se assim não for, já temos para onde ir ... rua!"

Quase que cada uma das afirmações que faz neste trecho pode ser traduzida em um/dois indicadores mensuráveis, o que dará um total de 10/12 indicadores que permitem tirar a fotografia do departamento hoje, e desenhar o futuro desempenho desejado para o departamento. Como existe uma lacuna... há que promover a transformação cirúrgica, alinhada, concentrada nos indicadores.

Anthrax disse...

Caro Dr. "D",

Vi-o falar sobre o processo de Bolonha e tive de aqui vir meter a colherada.

Relativamente a este assunto sabe há quanto tempo estão preparados os dossiers dos promotores de Bolonha? Há pelo menos 2 anos. Sabe há quanto tempo está pendurado o despacho? Há pelo menos 2 anos também. Sabe o que é que acontece cada vez que vamos às reuniões em Bruxelas? Desata-se tudo a rir quando olham para nós e dizem "Ah sim, Portugal é o costume, ainda está à espera" e passam à frente. É que nós curtimos "buézes" fazer estas figuras nas reuniões da Comissão. Aliás, aquilo que nós gostamos mesmo é, depois de fazermos todo o trabalho que nos é solicitado, que os despachos Ministeriais fiquem pendurados por causa das guerras de quintal e outras coisas afins.

Ah sim, e também ficamos loucos de alegria quando depois de termos feito todo o trabalho de sapa, vem um funcionário público iluminado e diz: "Agora, vamos dar isto a outros e fazer tudo do início", sem nunca ter havido um despacho inicial. A sério, isto tem a sua graça, porque depois quem tem de ir dar a cara às reuniões, somos nós. Mas ei! Ao menos divertimos os convivas e sempre vamos passear a Bruxelas à pala do erário público.

http://blasfemias.net/