quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006

Descartáveis

Experiência não é aquilo que acontece a uma pessoa. É aquilo que uma pessoa faz com o que lhe acontece
Aldous Huxley

O Diário Económico de hoje refere um estudo da Axa que mostra que metade dos portugueses que já se reformaram fê-lo voluntariamente e antes do limite mínimo de idade previsto na lei. Isto apesar de prepararem mal a reforma, pelo menos financeiramente, e de receberem pensões baixas.
No mesmo jornal, um artigo de Ricardo Reis intitulado “A Felicidade” , diz que outros estudos mostraram que as pessoas gostam de ter um emprego, mas que trabalhar é das actividades que faz as pessoas mais infelizes, apesar de encontrarem felicidade na relação com os outros.
As moderníssimas (ou se calhar nem tanto…) teorias de gestão dizem que a satisfação dos empregados e o seu envolvimento nos objectivos da empresa são factores essenciais da competitividade e reflectem-se claramente na capacidade de captar e fidelizar clientes.
Por outro lado, as inúmeras técnicas de avaliação de desempenho têm evoluído para formas cada vez mais sofisticadas e complexas de detectar insuficiências, necessidades de formação, adequação de perfis , etc, etc, tudo com o objectivo declarado de aumentar a produtividade integrando cada pessoa da melhor forma no seu posto de trabalho e preparando-a, em simultâneo, para o desejável reconhecimento ou progresso na carreira.
Então, de onde vem a dissonância? Porque é que cada vez mais assistimos à saída precoce de técnicos qualificados, ou de pessoal dedicado, que deram os seus melhores anos às empresas ou ao Estado, e que vão para casa ou se dedicam a trabalhos esporádicos para aproveitar o que sabem e ganhar um complemento de reforma?
É certo que a capacidade de reagir ao que nos acontece vai sendo menor com os anos e com a habituação a estatutos adquiridos, tornando fácil a marginalização ou o rótulo de excluído. Mas não é menos verdade que a gestão da mudança pode e deve estar atenta a estas dificuldades, evitando o desperdício de quem ainda pode ter muito a dar e, ao mesmo tempo, tornando credíveis as políticas de bem estar social e profissional.
Caso contrário, teremos algumas empresas muito produtivas e jovens e uma sociedade de gente amarga, desiludida e meio perdida na sua velhice precoce, a lamentar os anos desperdiçados num trabalho que nunca lhes conheceu o nome.
Uma sociedade de descartáveis.

6 comentários:

Antonio Almeida Felizes disse...

Também sobre este assunto, atente-se neste estudo de Luis Graça "Cidadão Descartável" do qual retirei este pequeno excerto:

[..]Dos resultados do Segundo Inquérito Europeu sobre Condições de Trabalho, realizado em entre finais de 1995 e princípios de 1996 pela Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho, a uma amostra representativa dos 147 milhões de trabalhadores da UE.

Se limitarmos as questões da cidadania às oportunidades de participação e consulta, os trabalhadores portugueses foram aqueles que, em 1995/96:

Terão sido os menos consultados em relação às mudanças ocorridas a nível da organização do trabalho e/ou das condições de trabalho (apenas 25%, contra 45% na UE e 65% na Holanda, responderam ter sido consultados);

Tiveram menos hipóteses, a seguir aos espanhóis, de discutir problemas relacionados com o trabalho, com os respectivos representantes (por ex., delegados sindicais) (13% contra 22% na UE, 12% em Espanha e 37% na Dinamarca);
Ou com a sua chefia directa (30% contra 57% na UE, 27% em Espanha e 75% na Finlândia e Suécia);
Ou com os seus colegas de trabalho (36% contra 68% na UE, 87% na Suécia e 36% em Espanha).

Finalmente, Portugal também é o Estado-membro da UE onde é menos provável um trabalhador ter uma discussão franca com o seu chefe acerca do seu desempenho profissional (23% contra 41% na UE, 29% em Espanha e 67% na Finlândia).
[..]

Cumprimentos,
AAF
http://regioes.blogspot.com
..

Arrebenta disse...

Felizmente que o Cavaco nos vem libertar agora deste pesadelo.
The Messiah!...

http://braganza-mothers.blogspot.com/

Adriano Volframista disse...

Creio que a explicação reside no facto de estarmos condicionados, culturalmente condicionados, no horror à ganância. Sem ganância não existe capitalismo, na versão individualista anglo saxónica que se globalizou.
Repare,creio que foi num governo, em que participou, que se institui, (na Função Pública) a avaliação e os prémios, se não institui tentou implementar; mas o prémio era um louvor,nem se pensou em pagar (ergo, fomentar a ganância)esse esforço.
Há dias um dos meus filhos com,12 anos, comentava que no colégio (privado) que frequenta, estavam a prosseguir o lucro em demasia, porque cobravam tudo e os preços que praticavam eram muito altos.Não foi fácil explicar-lhe que essa é a função de qualquer empresa, achava que estava a "roubar" as pessoas.
Note que não incuto esse sentimento,vem da cultura que apreende na escola.
A geração que reune os requisitos para a reforma viveu uma parte importante da sua vida na quase miséria, alcançou uma prosperidade quase inimaginável, há trinta e cinco anos atrás, OS SEUS OBJECTIVOS FORAM ALCANÇADOS.
Sabe, o país é o que temos não o que desejamos ter.

Cumprimentos
Adriano Volframista

ferrolho1 disse...

cara Suzana, o emprego é a melhor forma de inserção social, mas a crescente competição entre empresas, cidades e países, tendo efeitos muito positivos no desenvolvimento civilizacional também tem o seu lado negativo. Há os que, como diz, com o avanço da idade já não acompanham o ritmo que lhes é exigido.
A situação de reformado cria outras oportunidades de trabalho. Uma das vantagens da nossa sociedade é cada um poder lutar contra o "descartável" - é a liberdade e iniciativa individual e não a ganância.
O exército de reformados também cria novos mercados, como o turismo residencial sénior.

Virus disse...

Não li o artigo, mas amanhã vou lê-lo. Acerca disto apenas posso dizer o seguinte:

- As pessoas, no geral, ganham mal para o que fazem;
- O relacionamento dos empregados, com os chefes e patrões (no geral) é um relacionamento falso, 1-porque os patrões e chefes não gostam de ouvir um não, ou de serem contrariados. 2-porque os empregados se não forem devidamente motivados (não só de $ falo eu) não estão para se "chatear" com a empresa. 3-Só dizem ao patrão o que ele quer ouvir, mesmo que não acreditem no que dizem, porque sabem ser a melhor maneira de "subir".
- A maioria dos patrões, ou hierarquias dependentes dos mesmos, estão-se nas tintas para o empregado... é só mais um, e se diz "não" então é para "encostar"!
- Não há verdadeiros objectivos no trabalho de cada um...

Isto aplica-se à grande maioria das empresas e serviços de todos os sectores público e privado.

Resumo, as pessoas o que querem mais é saltar fora desta agonia, garantir um rendimento seguro já (enquanto o Estado não volta a mudar as regras e lixa mais uns), e depois logo se vê... de preferência vão fazer alguma coisa de mais produtiva (muitas vezes até a mesma coisa e no mesmo sítio), onde ganham o mesmo ou menos, que acumulam com a reforma, têm uma relação mais aberta com os chefes ou patrão, porque já não são "propriedade" deste porque lhe paga o salário o qual precisam para sobreviver!

Suzana Toscano disse...

Caros comentadores, obrigada pelas informações que acrescentaram e que, de facto, confirmam que o panorama nacional não é brilhante. É claro que as culpas não só dos empregadores, também há muita acomodação e maus hábitos, culturais inclusivé, que contribuem para isso. Mas é bom irmos pensando nesta realidade, para podermos mudar o que for possível ir mudando, como se v~e pelas estat+isticas que António Felizes aqui trouxe, noutros lados faz-se bem melhor.

http://blasfemias.net/