terça-feira, 28 de Fevereiro de 2006

86 milhões de dias

Às vezes ainda me surpreendo com o que pode ser escrito em abono ou contra os assuntos que se querem ver apoiados ou criticados. Não quanto às ideias ou argumentos que podem vir suportar essas teses, mas quanto ao modo imaginativo (!) como se pretende impressionar os que ainda não conseguiram apreender na íntegra os méritos ou defeitos das ditas.
Foi o caso do artigo de António Perez Metelo no DN Econonomia de 27 de Fevereiro onde, sob o título "Solidariedade e Rigor", este vem explicar as virtudes do modo como o complemento de reforma está a ser executado, sublinhando com euforia o anúncio do Primeiro Ministro sobre a antecipação do calendário de alargamento do suplemento.
Diz Perez Metelo que "este anúncio representa um ganho potencial de 86 milhões de dias para uma melhoria sensível do nível de vida dos concidadãos mais carenciados deste país"! 86 milhões de dias??? perguntarão, julgando que se trata de uma gralha. Também pensei o mesmo, li e reli, e receio perceber. É que, se dividirmos este número esmagador por 365 dias, encontramos os cerca de 230 mil eventuais beneficiários em causa! Somamos beneficiários e temos...dias! E o autor ficou tão impressionado que "perante isto", considera "irrisórias as críticas quanto à excessiva burocracia do processo de candidatura". De facto, o que são uns míseros milhões de horas e dias perdidos pelos mesmos milhares de cidadãos e centenas de funcionários, perante 86 milhões de dias de antecipação de bem estar? Nada. Visto assim, mesmo nada, salvo que a mesma defesa pode ser invocada em favor de mil e uma burocracias tão criticadas pelo mesmo autor.
Considera ainda o extraordinário escrito que este milagre só é possível porque as contas públicas de 2005 fecharam em muito bom estado - êxito indiscutível, que fica assim plenamente confirmado perante os espíritos mais cépticos...
Se nos lembrarmos que tempos houve em que PM considerava que qualquer défice acima dos 3% significaria o descalabro e que defendia, e bem, o rigor da informação, compreende-se a minha surpresa.
Não havia necessidade.

6 comentários:

Menino Mau disse...

uuuhhmm...vejamos Suzana este antónio Peres Metelo não é aquele que enquanto editor de economia da sic zurzia de grande o cavaco e depois recebeu como paga ir para o Alto comissariado de Portugal para Timor nomeado por António Guterres?Tambem foi daqueles que quando da nova direcção do dn,manteve o seu emprego a par de João morgado Fernanes.Porque será?de certeza que não é por causa do guaraná!!

Arnaldo Madureira disse...

1. Perez Metello é um socialista comprometido e tudo o que diz e escreve é relativo, mas a utilização dos grandes números para impressionar é uma lei da política que todos já utilizámos muitas vezes.
No entanto, não devemos estar satisfeitos por o Governo transferir algum rendimento para idosos que não têm outros rendimentos e que já não podem mais trabalhar?
2. Independentemente do apreço por esta prestação extraordinária, é necessário começar a co-responsabilizar os cidadãos na garantia da sua reforma. Não é possível continuar a alimentar a ideia de não valer a pena capitalizar para a reforma, porque a solidariedade social não nos deixará morrer de fome.

just-in-time disse...

Ainda há pouco se abordou este tema no 4R, a propósito do exercício das oposições.
Existem, e é bom, diferenças de convicções, avaliações e soluções.
Acontece, e é mau, um excessivo resguardo em taticismos e hiperbolismos.
Temos necessidade de rigor e objectividade e compete às elites praticá-los.
Já não queremos discursos sem arestas, sejam redondos, ovalados ou elípticos.

JardimdasMargaridas disse...

As carências dos nossos idosos têm origem na solidão e na exclusão social. Com baixas, quase inexistentes pensões, é certo! Num caminho tão empenhado de reformas, seria bom que o Governo se assegurasse que os impostos que todos nós pagamos para a Acção Social (e são biliões, rivalizam bem com os milhões do António Perez Metelo) são realmente canalizados para os nossos idosos pobres, que os apoios sociais são suficientes e de qualidade. Antes de criar mais despesa, impõe-se verificar se é possível fazer mais e melhor com a actual despesa. A nova “estrela da solidariedade” parece ser uma medida politicamente “agradável”, mas é duvidosa a sua racionalidade económica e social. Temo que “a montanha pariu um rato”. Porque será que temos a tendência para irmos sempre pelo caminho mais fácil, “aparentemente”?

Suzana Toscano disse...

Muito bem vindo à tertúlia do 4R JardimdasMargaridas! Fica já avisado que o risco que corre é o de já não poder passar sem vir aqui dar uma espreitadela diária e, não raras vezes, ir também por acréscimo visitar os excelentes blogues dos nossos comentadores!
Quanto ao que diz, concordo plenamente quando duvida da racionalidade económica e social desta medida "politicamente agradável". Arnaldo Madureira considera que devíamos estar satisfeitos com esta decisão a favor dos mais carenciados, mas o problema está em avaliar a sua eficácia. Chega mesmo aos que mais precisam? E, como diz, é disso que eles precisam, opu seria melhor fazer-lhes chegar um apoio directo, de assistência, de ajuda em casa, de integração? Não irão os filhos e netos reduzir os apoios que davam nesta mesma proporção ou então ficar eles com mais estes tostões? Creio perceber que é esse risco que aponta, e muito bem. Não se trata de não dar, mas de dar da maneira certa.

Parker disse...

ola

http://blasfemias.net/