quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2006

Qual catástrofe?

O Sindicato dos Professores FENPROF veio classificar de "catástrofe" o anunciado encerramento de escolas degradadas, com elevadas taxas de insucesso escolar e número reduzido de alunos (menos de 10, ao que entendi). Não ouvi que alternativa propõem para as crianças nem nenhum desmentido sobre os factos que foram apontados como motivo para o encerramento. Portanto, não sei onde está a catástrofe, excepto a que existia até agora para os poucos meninos condenados a frequentar uma escola sem crianças.

14 comentários:

Marga disse...

Por acaso a Srª. Dr.ª viu ontem à noite o jornal da SIC?

Catástrofe é o transporte de cerca de 20 crianças amontoadas numa carrinha de 9 lugares, por caminhos estreitos onde nem sequer a carrinha cabe numa aldeia lá longe.... da capital.
Para o próximo ano lectivo essa escola básica vai receber muitos mais menimos, fruto da extinsão de diversas escolas básicas, que vão ser transportados como qualquer carga por essas aldeias fora.
É isto o que queremos para as nossas crianças? Estas ainda estão beneficiadas, porque todos os dias ouvimos histórias de crianças que têm de fazer vários KMS por dia para irem à escola.
Como estes exemplos há muitos mais por esse país distante da capital.
É assim que querem combater o insucesso escolar, ou a estatistica não abrange o país profundo?
Que motivação terão estas crianças para irem à escola ?
O que eu penso, e é o que vemos todos os dias é que quem está na capital, sentado a uma secretária não conhece o país real.
Promove as alterações mas não conhece o país real nem as dificuldades das gentes que vivem em aldeias remotas. Retiram-lhes as escola, mas depois não se criam as condições dignas, e de segurança, para que os filhos dos portugueses que habitam em aldeias remotas tenham direito a um ensino digno e de qualidade. O insucesso escolar começa aí.

just-in-time disse...

Ó Marga
Essa da "extinção"não vem nada a calhar.

Marga disse...

Ó just-in-time

Você também é daqueles que raramente tem dúvidas e nunca se engana?

David Justino disse...

Cara Marga,
também eu vi a reportagem com a carrinha atafulhada de miúdos e devo dizer quew fiquei escandalizado. Perante isto, o que se deveria fazaer? Responsabilizar a Ministra? Parar com o processo de reordenamento que está no terreno há quase quatro anos e com resultados positivos? Ou "chamar à pedra" o motorista, o Presidente da Junta Junta de Freguesia ou o Presidente da Câmara por não terem sanado o problema?
Porque é que neste tipo de situações se "chuta sempre para cima" e não se assumem as responsabilidades?
E foi logo a calhar: declarações do Francisco Almeida do Sindicato dos Professores da Região Centro a denunciar a "catástrofe" e a coincidência de uma reportagem feita à medida para fundamentar a "catástrofe".
Ele há coincidências ...

Marga disse...

Caro djustino

É claro que a reportagem exibida naquele momento não é inocente.
É claro que a culpa não é da ministra da educação, mas dos orgãos do poder local que julgo, têm de providenciar o transporte dos alunos ao nível do ensino básico.
A reportagem tem o mérito de trazer à luz do dia os inúmeros problemas que estão ainda por resolver no interior "desquecido e ostracisado". Não basta só reordenar é preciso pensar, e solucionar muitos dos problemas que se levantam com essa reorganização. Há muito para fazer para que tenhamos o problema do insucesso escolar resolvido.

Ele "não há coincidências..."

crack disse...

Não estando em causa que o encerramento de escolas degradadas, ou com diminuto número de alunos, se justifica plenamente, até para assegurar às crianças que as frequentam melhores condições de escolarização, é um facto que, neste momento, não estão reunidas as condições para que o encaminhamento destas crianças para outros estabelecimentos de ensino venha a constituir uma melhoria efectiva no seu quotidiano escolar. A questão do transporte escolar é apenas um dos grandes problemas que esta medida não acautelou ainda devidamente, isto apesar de o governo ter já legislado sobre a matéria, mas sabemos bem que as autarquias locais nem sempre têm os meios, ou a vontade, para cumprirem de imediato os normativos, e a fiscalização é a que se conhece. Portanto, no imediato, vamos continuar a ter alunos a irem para mais longe de suas casas, em transportes inseguros (isto, quando há transportes) para escolas tão ou mais degradadas dos que as que deixaram, o que confere alguma legitimidade aos argumentos daqueles que dizem que esta medida não traz qualquer benefício imediato para aqueles que abrange.
Será esta realidade um argumento de «catástrofe», a justificação para que nada se faça? Obviamente que não, até porque a resistência ao encerramento de escolas radica em interesses que pouco, ou nada, têm a ver com o que é melhor para os alunos. Acontece que, no quadro de assimetrias locais e regionais como aquele que caracteriza o nosso país, ao governo competirá gerir esta questão com bom senso e cautelosa medida, acompanhamento muito próximo e com a adequada firmeza perante obscuros interesses locais, mas o discurso da 5 de Outubro, até agora, pode ser facilmente confundido com um sacudir a água do capote, de tal forma parecem precipitadas e mal explicadas algumas decisões. Apesar disso, dê-se o benefício da dúvida, até porque, afinal, a medida é uma boa medida.

diogenes disse...

No final do mês de Outubro fui prestar um serviço numa empresa e dormi em Penamacor. Aí tive oportunidade de conhecer esta história. Alguém contou-me que uma mãe andava muito preocupada com a filha que tinha entrado para o 5º ano de escolaridade. As aulas já tinham começado há quase 2 meses e a filha continuava a chegar a casa a chorar e a dizer que não queria voltar à escola.

Um dos argumentos eleitorais do eleito presidente da câmara de Penamacor era o de que todas as freguesias do concelho mantinham as suas escolas primárias a funcionar, com 1, ou 2 ou 5 alunos.

Quando os alunos terminam a primária e são encaminhados para a escola do 2º ciclo, escola centralizada na sede do concelho, os alunos das aldeias sentiam-se perdidos e aterrados. Habituados a uma professora quase exclusiva, habituados a escolas, recreios e salas de aula pacatas e silenciosas eram lançados às feras em turmas de 20/25 alunos, alguns deles 2 e 3 anos mais velhos, num ambiente ruidoso e intimidatório... é um choque e é crime. Crime pois estamos a cortar as pernas a essas crianças... por isso não posso deixar de concordar com as palavras do Pinóquio, é importante realizar esta revcolução, não por motivos económicos mas para dar mais oportunidades a essas crianças.

diogenes

Suzana Toscano disse...

Cara Marga, pouco posso acrescentar aos comentários que aqui foram escritos pelo DJustino, Crack e bem ilustrados por Diógenes.Um escola ao lado de casa ainda que degradada e quase vazia de crianças até podia justificar-se se o sucesso escolar resultasse do ratio 1/1 aluno professor. Acontece que, nessas escolas, em geral, os níveis de insucesso saõ elevadissimos. Então, o que é que há a defender? O transporte pode não ser o melhor, ir para longe tem imensos inconvenientes, tudo isso é verdade. Mas não se podem povoar as aldeias desertas ou envelhecidas e as poucas crianças que aí vivem têm direito a ir para uma escola digna desse nome. O que é que lhes dará igualdade de oportunidades, ir a pé para uma escola fantasma ou andar uns kls até uma escola a sério, com todos os inconvenientes que isso possa ter mesmo que, como deverá acontecer, cada situação seja devidamente tratada?

jdoutelcoroado disse...

Meus Caros,
Concordo que é necessário "fechar" escolas com poucos alunos.
Concordo que não é benéfico para ninguém - alunos, docentes, custos, sucesso escolar!
Agora, expliquem-me, por favor, se alguma de todas as razões referidas permitem esta "brutalidade" - crianças do 1º ciclo terem de percorrer 80 kms para irem à escola?
É a nossa eterna mania de medir tudo pela mesma bitola!
É fundamental pedir que, para situações diferentes, haja soluções distintas!
Basta de demagogias e incompetências!`
É verdade que dá mais trabalhinho resolver caso a caso mas, convenhamos, às tantas até pagamos para se resolverem os problemas! Para alguma coisa hão-de servir os impostos que pagamos.

ferrolho1 disse...

esta questão também é económica. obriga a uma afectação mais racional de recursos da adm. local : mais investimento no transporte escolar e menos desperdício em rotundas e palmeiras. Concentração de recursos humanos e financeiros da adm. central em melhores, menos e maiores escolas, com economias de escala daí resultantes. Melhor preparação das gerações futuras para aproveitamento de oportunidades de trabalho mais exigentes.

just-in-time disse...

Vamos lá tentar sistematizar:
1º- as escolas básicas devem ficar próximo de casa;
2º- os transportes escolares têm de satisfazer requisitos;
3º- pela evolução demográfica e social e pela fraca mobilidade das famílias, a necessidade de escolas básicas,é alvo de uma dinâmica geográfica;
4º- as autoridades vão satisfazendo as novas necessidades, construindo novas escolas;
5º- o grande buzilis está na mobilidade dos docentes, ou porque não está suficientemente inscrito na definição das carreiras, ou porque não está previsto um mecanismo financeiro que compense custos associados,ou porque há um efeito "conservador" que não está suficientemente tratado;
6º- finalmente, será preciso analisar, a relação entre esse conservadorismo e a respectiva capacidade reinvidicativa.

Tonibler disse...

Como disse um dia, se o ministério não tinha a certeza de dominar o processo mais valia estar quieto. E, aí está, tudo a empurrar com a barriga a vida dos miúdos. Isto só mesmo com prisão....

just-in-time disse...

Temos que separar as águas.
As prevaricações, os imcumprimentos da lei e as actuações socialmente danosas t~em de ser punidas.
Mas o governo, central ou local, tem de preparar e concretizar soluções que resolvam os problemas actuais e previnam os futuros. Ora, muitos dos problemas de rede escolar t~em origem na demografia e podem ser antecipados com prazo razoável.
Agora podemos ir à questão sindical e reinvidicativa. Não vou entrar na sua análise em profundidade, mas apenas deixar uma chamada de atenção para um aspecto de "envolvimento".
Muitos dos colaboradores do ME são professores, ou foram-no por períodos significativos. Isto não constitui um anátema, mas tem algumas vantagens e outros tantos inconvenientes.
Para tirar dúvidas, comparemos com outras áreas:
- no M. Agric. há poucos agricultores;
- no M. da Saúde há poucos médicos e menos doentes;
- no M. das O.P. não haverá empreiteiros,
- no M. da Economia tb. não haverá empresários:
- no M. da Seg. Social não deverá haver nem reformados nem desempregados;
- no M. Fin.não há banqueiros nem seguradores; há muitos contribuintes, mas já lá vai o tempo em que os f. públicos não pagavam impostos.
E mais não digo.

antipublico disse...

A Madeira iniciou este processo há 12 anos. Que está quase concluído:

Reordenamento da Rede Escolar

http://www.madeira-edu.pt/drpre/ArtiFiles/T233.htm

e Escola a Tempo Inteiro

http://www.madeira-edu.pt/drpre/ArtiFiles/T212.htm

Infelizmente, para a imprensa nacional (e não só) é "politicamente incorrecto" divulgar processos positivos realizados por AJJ...
Assim, vão discutindo e debatendo, ignorando que "entre portas" já têm um processo idêntico concretizado. A uma escala menor, regional, mas com todas as variantes...

Uma vantagem: Autonomia.

http://blasfemias.net/