segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2006

Movimento anti-560

Uma crónica publicada num diário do norte com o sugestivo título “tristeza” aponta para um drama que diariamente atinge cada vez mais os portugueses: o encerramento de unidades industriais com o consequente empobrecimento do país e despedimento de vários operários. Desta feita, a empresa dedicava-se à produção de material de desenho, única no país: a Molin.
O autor, engenheiro de profissão, conta a história de um aluno que levava sistematicamente com faltas porque não tinha dinheiro para comprar um estojo. O engenheiro disponibilizou um estojo da Molin, que já não usava, pensando ter ajudado o rapaz. Nada feito! A professora exigia que os alunos usassem um estojo marca Kern, logo, o dele não servia para nada. Teve conhecimento do facto, protestou, mostrou a sua indignação, mas, como é habitual neste país, ninguém lhe deu atenção. Na análise subsequente explica que não havendo procura de uma marca nacional é de esperar que tenha de encerrar as portas. Aqui está um exemplo de falência de uma empresa condicionada pela falta de procura em que, muito provavelmente, os professores, adeptos da Kern, tiveram a sua quota-parte de responsabilidade.
Logo a seguir, no mesmo jornal, é anunciada a falência dos estaleiros de S. Jacinto. Neste caso parece que havia procura por parte de países estrangeiros mas faltava o financiamento. Não sei se havia procura ou não, o que sabemos é que existe um agravamento exponencial de uma crise em que trabalhadores perdem os empregos, cerca de 150.000 pessoas podem perder o emprego a qualquer momento, o trabalho precário aumenta – nos últimos dois anos mais de 70% dos novos empregos enquadram-se nesta categoria – enfim, um desânimo bastante cinzento que nos faz meditar como encontrar soluções.
O esforço mediado por alguns compatriotas no sentido de estimular a economia nacional, comprando “português”, como é o caso do movimento 560, não deve ser aliciante, nem ter, pelos vistos, qualquer projecção, o que é pena.
Não sei quantas pessoas existem no nosso país e que apresentam condutas do tipo “senhora professora que exige material de desenho Kern”, nem sei se fazem parte de qualquer movimento anti-560! No caso da tal senhora professora estou convicto de que faz parte do movimento 76, os dois dígitos identificadores do código de barras da Suiça.
Tristeza de país.

4 comentários:

Pinho Cardão disse...

Caro Professor:
De facto, tristeza de país, que tais anormalidades produz.
No que respeita à falência Molin, ainda gostava que alguém me contasse o que se passou,já que a informação que tenho é que a empresa era prestigiada, fabricava com qualidade,tinha encomendas e o dono não se terá poupado a esforços para reabilitar a empresa.
Para mim,até agora, é um mistério!...

Tonibler disse...

Caros,

Escusamos de estar com gandes coisas, nós devíamos ter uns 10 ou 12% de desemprego. Não temos porque uma boa parte dos empregos que não deviam existir, são pagos com impostos que são retirados a quem produz. Falir é o sentido natural de uma sociedade assim.

Toda a gente sabe disto e toda a gente engonha. Desde que o Barroso tomou posse como PM que se diz que é desta. Já lá vão 4 anos...Então, como é natural, faliram essas e vão falir outras.

Salvador Massano Cardoso disse...

Caro Tonibler

Significa isso que temos de atingir, fatalmente, os tais 10 a 12% de desemprego como sinal de extinção das tais empresas que vivem dos impostos e que consequentemente não servem para nada?
É preciso atingir 10 a 12% de desemprego para que os impostos não sejam mal gastos?
É preciso atingir 10 a 12% de desempregados para ficarmos mais ricos (os que trabalham, claro!)?
O que vai acontecer aos 10 a 12% de desempregados? Passam a viver à custa dos impostos, ou não? Se viverem não irão tornar-nos mais pobres?
Ou será que têm de sair desta tristeza de país?
Raios me partam se consigo compreender certos fenómenos! O que eu sei é que fico aterrorizado com o crescente desemprego dos portugueses. Não vai haver dinheiro para a Segurança Social no futuro, não vai haver dinheiro para a Saúde (cada um que pague a sua!), não vai haver empregos, afinal o que é que vai haver?

Tonibler disse...

Caro Massano Cardoso,

Não se anda a dizer a mesma coisa há anos? E, mesmo assim, a nossa escolha foi significativamente diferente? Então, foi a nossa escolha soberana que nos leva a tudo isto. Sim, caminhamos para que cada um se safe com a sua reforma, que cada um se safe com a sua saúde, com a sua educação, etc... Mas estou enganado ou quando se fala em mudar qualquer coisa, seja onde fôr, toda a gente protesta?
Mas para que as coisas não cheguem a esse ponto, estou confiante que os meus caros concidadãos resolvem a situação, tornando-nos a todos espanhóis. Afinal, deve dar mais uns subsídios...

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