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terça-feira, 8 de março de 2011

Antes de ir às compras...

Ouvi há dias, numa das quotidianos reportagens sobre a crise, um cidadão declarar tristemente que já não vai aos centros comerciais porque como não pode comprar não suporta a infelicidade que lhe dá ver tantas coisas que gostaria de ter e já não estão ao seu alcance.
Lemos alternadamente que a única saída para a crise é o crescimento das economias, mais produção, mais exportação, mais consumo e que é impossível continuarmos a crescer a este ritmo, o que seria se os chineses, os africanos, os indianos e todos os países e classes sociais que ainda não conheceram as delícias do bem estar material europeu pudessem produzir e aumentar os seus PIBs e indicadores de riqueza? O impacto humano seria catastrófico, os recursos naturais estão em delapidação selvagem, os terrenos aráveis não chegam para produzir os alimentos de que necessitam 7 biliões de pessoas...As revoluções sociais já visíveis a olho nu reclamam isso mesmo, mais riqueza, mais bem estar, o direito ao acesso a tudo aquilo que é ainda o modelo das sociedades da felicidade individual e da liberdade, e a resposta é a medição rigorosa da riqueza que cada um produz e o preço a que vendem os que têm as matérias primas necessárias a essa produção. Durante quanto tempo conseguiremos aumentar a produção desta “riqueza” que levou à loucura das bolhas imobiliárias, das fortunas assombrosas, dos defices monumentais que mostraram que o dinheiro não é, em si mesmo, um bem transacionável? Nunca se ouviu tanto a palavra sustentabilidade e nunca se viu a sustentabilidade ser tão frágil, sustentada apenas no aumento dos índices que se sabe não serem capacidade para progredir indefinidamente, o índice das necessidades materiais satisfeitas que criam insatisfações crescentes. Será que, como se dizia no filme “Inside job”, é da natureza das coisas continuar enquanto estão a dar rendimento, até que estoirem, ou seremos capazes de ter imaginação para encontrar uma nova forma de viver?
Serge Latouche, professor de economia e autor do livro “O desafio do decrescimento”, acredita que “a sociedade do crescimento provoca uma escalada de desigualdades e de injustiças, cria um bem estar ilusório e que não suscita uma sociedade convivial mas sim uma “antisociedade” doente da sua riqueza” (p. 13, ed. Pluriel). A sobriedade deve ser, segundo o autor, uma via individual para aumentar a felicidade, mas o projecto político para o desenvolver já é mais difícil de o descrever aqui. Vou continuar a ler o livro. Logo agora que me apetecia tanto ir às compras...

13 comentários:

Oscar disse...

O problema básico, que não paro de repetir é simples: o mundo não aguenta tanta gente a consumir tanto. Dado um enunciado tão simples, a solução torna-se dificil.

Anónimo disse...

É nestas alturas que vejo as imensas vantagens de ser sóbrio e frugal de costumes (alguns usam a palavra forreta e outras por estas linhas)...

Ana Rita Bessa disse...

...vá às compras, Suzana. Compre ovos, farinha e afins. Faça um bolo e um chá. Convide amigos. Pelas, 17h (so very british tea time, à volta da mesa do lanche, juntem-se e partilhem como, nas vossas vidas, se concretiza uma outra forma de viver, crescente nos "necessários decrescimentos". Talvez seja esta a receita para começar a fazer um bolo maior, magro em excessos e forte em esperança.

Anónimo disse...

Que belo conselho, Ana Rita.

Bartolomeu disse...

Não sei se o Dr. José Mário está na brincadeira, se está a tornar-se convidado para o lanchinho comunitário mas, em boa verdade, o comentário da Ana Rita, faz todo o sentido. Assim como faz todo o sentido, a citação de Serge Latouche, que a Drª Suzana nos apresenta.
Sabemos perfeitamente bem, que a sociedade evoluiu com a congregação, e nunca com a individualização. E na verdade, aquilo que podemos observar ultimamente, é a uma crescente individualização, um afastamento e uma sectarização, tanto a nível social, como profissional e ainda, intelectual.
O progresso individual, faz-se da interacção e da partilha de conhecimentos e experiências e esses, assentam no reconhecimento da igualdade.

Anónimo disse...

Não estou na brincadeira não, caro Bartolomeu. E muito menos a insinuar-me para o lanche. Gostei muito do comentário de porque às vezes temos de agir como a Ana Rita aconselhou: dar prioridade às coisas simples e boas que a vida nos proporciona, partilhando os momentos que podemos fazer bons com os amigos. Gostei particularmente da ideia de que essa é a receita para fazer um bolo maior...

Bmonteiro disse...

Testemunha ocasional do que se passa nos corredores e lojas de um qq centro comercial, dou comigo a fotografar os/as clientes.
Concluo que 100% dos que entram nas lojas, vão para ver e tocar nos artigos expostos.
Que uns 99% dos que compram um artigo, saindo pouco depois com um saco nas mãos, adquiriram algo de que não necessitavam.
Tanto melhor para o comércio,
enquanto a crise ou falta de dinheiro,
não nos levar a ter mais juízo.
Aqui estaria uma das vantagens, de na formação juvenil, voltar nas escolas ao uso da bata do antigamente ou dos uniformes escolares.

Fartinho da Silva disse...

"Aqui estaria uma das vantagens, de na formação juvenil, voltar nas escolas ao uso da bata do antigamente ou dos uniformes escolares."

Caro Bartolomeu, cuidado que o status quo ainda o apelida de reaccionário e do tempo da outra senhora... :)

Suzana Toscano disse...

Caro Óscar, o mundo não aguenta tanta gente a consumir tanto mas, no entanto, o estímulo - a aparentemente a solução para a crise - é todos terem forma de consumir cada vez mais.Li há pouco tempo que a China está a desenvolver políticas de aumento do consumo interno o que, para quem exporta, parece excelente. No Japão, tradicionalmente uma sociedade frugal e com a cultura da poupança, as novas gerações tornaram-se consumistas até ao enjoo, fanáticos de gadgets e de roupas e adereços. E ouvem-se cada vez mais os execessos absurdos dos novos milionários, com uma bela fotografia no mundo do futebol.
Caro zuricher, o mais certo é que nos seus hábitos frugais esteja a ser vanguardista da nova moda que se avizinha, nem que seja por necessidade imperiosa.
Ana, essa sua forma simples de dar um bom conselho faz-me pensar que stive aqui a perder tempo a elaborar sobre o tema quando a Ana o resume tão simplesmente. Prometo seguir o conselho, aliás tenho essa hábito, ou tinha, na altura em que as famílias se juntavam para passar as tardes do fim de semana. Lá terei que reformular a minha lista de compras...
Zé Mário, o meu amigo tem pergaminhos na arte de bem receber os amigos, nesse particular já está também na vanguarda dos novos hábitos :)
Caro Bartolomeu, é isso mesmo, o individualismo como forma de desagregação, á custa de procurar-se a felicidade na acumulação de bens perde-se a riqueza do encontro e da partilha.
Caro Bmonteiro, se a tese da frugalidade e das novas formas de satisfação pegar -e é inevitável - também o comércio terá que sofrer a adaptação. Os centros comerciais gigantescos provavelmente ficarão desertos, mesmo de quem só os procura para imaginar o prazer que teria em possuir, de facto, a quantidade de coisas que se tornaram indispensáveis e que são absolutamente marginais na nossa forma de encontrar alegria.

Bartolomeu disse...

É evidente que sim, Dr. José Mário. É evidente também que já se começa a notar uma consciencialização para a necessidade de começar a juntar ingredientes para que esse bolo ganhe forma. Sobretudo os mais jovens, começam a ter iniciativas nesse sentido, dando-nos a feliz esperança que como sempre tem sido ao longo dos tempos, as novas gerações encontram por si mesmas, o caminho da renovação e da readaptação.

Bartolomeu disse...

É possível, Fartinho... mas a opinião do satatus quo, nunca até ao presente, limitou o meu pensamento. Podemos manter-nos perfeitamente em sociedade, sem hipotecar a nossa individualidade.
;)

Ana Rita Bessa disse...

Suzana, pouco passa das 17h. Não é importante um pequeno atraso, quando over tea, se poderá ajudar a mudar o mundo. Com pouco,em pequeno e no possível.Já me cheira a bolo :)

Suzana Toscano disse...

Ana, já estou a trabalhar para corresponder à expectativa, este fim de semana já fiz mais umas tacinhas de marmelada, congelo a polpa dos marmelos, como manda a economia doméstica dos tempos frugais, e vou fazendo ao longo do ano, assim não tenho que comprar e além disso não há marmelos que se comparem aos que o caro Pinho Cardão generosamente distribui pelos amigos (só aos que fabricam) na época alta!