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quarta-feira, 2 de março de 2011

Teletransporte


- Professor? Viva! Sou eu. Pela voz vi logo quem era, uma doutoranda. – Não percebi nada do artigo que me enviou! – Não! Porquê? Era muito técnico? – Nada disso, eu é que não consigo perceber aquela coisa do teletransporte do ADN! Como é possível uma coisa destas?
Estávamos a falar de um artigo, ainda não publicado, de Luc Montagnier, prémio Nobel da Medicina pela descoberta do VIH, que tenta demonstrar que uma molécula de ADN pode transmitir informações para células distantes e até para água. As enzimas “captam” o ADN como se fosse real e põem-se a trabalhar, uma espécie de teletransporte! Até ao momento ainda foi publicado em nenhuma revista. Deve estar a ser sujeito a apreciação por parte de árbitros. Estou com uma curiosidade dos diabos para ver o que vai acontecer. De qualquer modo, esta incursão, de um prémio Nobel, nesta área fez-me recordar Jacques Benveniste e a “memória da água”, trabalho que foi publicado na Nature, há alguns anos, mas que foi denunciado como sendo uma fraude, por um “caçador” especializado em truques. A experiência relatada por Benveniste só ocorria quando estava presente uma colaboradora.
Há quem afirme que Montagnier ensandeceu, o que não é de por de parte, porque nem os prémios Nobel estão livres de tamanho destino.
Tudo isto por causa das diferentes artes de curar e do cientificismo subjacente às mesmas. Já tivemos muitas conversas a este propósito. Considero que é muito difícil não encontrar alguém que não tenha poder de curar. Até os médicos são capazes de “curar”. Mas estes têm a obrigação científica de provar o que fazem e o que deixam de fazer. Os outros praticantes da arte de curar estão numa melhor posição; não têm necessidade de provar o que quer seja sob o ponto de vista científico. E quando as suas práticas são sujeitas às regras da ciência já se sabe o que acontece. Mas, muitos perguntam: - Eles, também, não curam? – Claro que curam. Olhar para uma paisagem, ler um belo poema, ir a um santuário, ouvir uma palavra de um amigo, dar atenção a um conselho do padre (por algum motivo também são conhecidos por “curas”, do tempo em que tratavam fisicamente as pessoas, depois foram proibidos e passaram a conselheiros espirituais), ir à bruxa ou usar as disponibilidades de um carteiro – Lembrei-me desta profissão, por causa de um doente que tem o sorriso mais malandro do mundo e que, quando era novo, "consolava" muitas senhoras, quem o diz é a mulher que vem com ele à consulta! Sorri, sorriso alargado, encolhe os ombros, diz muito pouco, mas os olhos confirmam, e de que maneira! -, são, entre outros, verdadeiros curandeiros. Não vejo mal nenhum nisso. O que me admira é a necessidade de muitas práticas tentarem esconder-se atrás da medicina e quererem ombrear com ela, talvez para justificar e alargar a área de atuação. O caso da homeopatia é paradigmático.
A primeira vez que ouvi esta palavra andava no sétimo ano. Recordo de ter lido, num fascículo de uma enciclopédia que andava a colecionar, algo sobre esta matéria que me deixou perplexo. Ainda discuti com os meus colegas à hora do almoço, quando jogávamos ao póquer de dados nos bombeiros do Carregal do Sal. Saíamos ao meio-dia do colégio, comíamos em cinco minutos, outros cinco para fazer corta-mato por um atalho e conseguíamos arranjar quarenta e cinco minutos para nos divertirmos. Quando faltava cinco minutos para a uma, abalávamos à pressa, entrando na sala no preciso momento em que a campainha deixava de tocar. Dominadores do tempo. No decurso de uma partida disse à rapaziada que não entendia como era possível tratar doenças com medicamentos que produziam os mesmos efeitos, diarreia com um diarreico, febre com um produto que aumentava a temperatura e ia debitando o assunto, perguntando aos outros se conseguiam entender aquilo. Claro que não me deram troco e nem me deixaram que perguntasse à professora de Ciências como era possível tal coisa. – Deixa-te disso, não a chateies e a nós também não, joga como deve ser. Foi a primeira vez que ouvi falar de Hanneman e das célebres e esquisitas diluições a ponto de não haver uma única molécula na solução. Dizem que é a “memória da água” que faz o efeito! Irra, se a água tivesse mesmo memória, e se lembrasse de tudo por onde já passou e do que levou em cima... Até tremo com os seus efeitos. Agora, esta do teletransporte do ADN também está a causar algum estremeção. Ponho-me a pensar o que fará o meu ADN quando estiver próximo de uma cachopa jeitosa. Já estou a vê-lo a teletransportar-se e a fazer não sei o quê, mas, desde já, declaro que não me responsabilizo por quaisquer consequências...

1 comentário:

Suzana Toscano disse...

Caro massano cardos, definitivamente, parece que estamos condenados a que todos os nossos gestos e pensamentos sejam captados e "tele-transportados" até se espalharem no universo. eEstá visto que a natureza tem escondidos muitos wikileaks...de facto não se inventa nada, é tudo um processo de descoberta. Aguardamos ansiosos a notícia do tal artigo!