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quarta-feira, 23 de março de 2011

O poder da demagogia

A retórica é - sempre foi - o instrumento por excelência do tribuno, do político. Esta é uma herança da Antiga Grécia, em particular dos sofistas, para quem, mais do que a solidez e consistência das ideias, importava a força do argumento. Nos tempos de hoje, em que a comunicação é rainha, a capacidade de fazer passar uma mensagem nos meios de comunicação social é decisiva, na esfera política, como na económica, na religiosa ou na cultural. Acontece que relativamente à primeira, qualquer governo em funções dispõe de uma vantagem desproporcionada que decorre da maior notoriedade das figuras que o compõem, das inúmeras ocasiões de “corta-fitas”, no controlo que exerce – directa ou indirectamente – sobre as empresas de comunicação social. Esta assimetria no acesso e controlo da comunicação social é negativa, mas dir-se-á: faz parte da vida democrática. Porém, a vantagem de que os governos auferem deve ser usada com decência, sob pena de distorção grave da democracia. Serve este delongado prólogo para ajudar a perceber porque razão se gerou, nas instâncias europeias e nos mercados financeiros internacionais, a percepção de que o “chumbo” do PEC IV enfraquece a posição financeira de Portugal.

Como é absolutamente claro, qualquer ministro ou secretário de estado do governo português tem mais eco na imprensa e agências de notícias internacionais do que qualquer dirigente da oposição. Esta constatação justifica a reacção adversa do "mercado" à possibilidade de antecipação das eleições: afinal, nos últimos dias, os membros do governo têm insistido veementemente na relação entre a queda do governo e o colapso financeiro do país. Contudo, essa reacção não é a mais racional do ponto de vista financeiro; senão vejamos: (i) A crise internacional veio pôr a nu a total inadequação da política económica do governo socialista, pelo que a sua remoção deveria ser encarada com alívio por credores e investidores; (ii) o programa do PSD, que está "a milhas" do socialista na vertente económica, inclina-se de forma inata para um maior conservadorismo orçamental e para um recuo nas funções económicas do estado - algo que é tido pelo FMI, CE, Eurogrupo, etc, como promotor do potencial de crescimento da economia. Deste modo, a vantagem eleitoral do PSD que ressalta das sondagens deveria reduzir a apreensão dos “mercados” relativamente à condição financeira de Portugal e não o contrário, como parece estar a acontecer.

Existe, porém, outra possível explicação para esta reacção contranatura dos mercados internacionais, que não a assimetria do acesso à comunicação social entre governo e oposição. Reza assim: a urgência da situação financeira e a pressão dos parceiros europeus implica pouco espaço de manobra na definição das políticas com implicações orçamentais, tornando, nesta matéria específica, menos relevante a côr que compõe o governo; daí que preocupação dos “mercados” possa simplesmente advir do receio que o PS, tal como fez no governo, continue a prejudicar o país na oposição, desta feita gerando instabilidade nas ruas, ao lado dos partidos de esquerda que hoje acusa de radicalismo e irresponsabilidade.

21 comentários:

Tonibler disse...

PSD??? Nã, nã!!!!....A mim prometeram-me o FMI!!!!

Bartolomeu disse...

Isso, vai ser só quando o meu amigo, e eu e a maioria dos portugueses, deixarmos de respirar, caro Tonibler.
Até lá... ainda ha mais 3 furos no cinto.

Anthrax disse...

Caro JM2B, camarada Tóni e Bartolomeu (eu ia dizer "querido" Bartolomeu mas depois os demais poderiam achar que eu estava a indicar algum género de preferência e a incorrer na prática de discriminação, o que não seria positivo quando hoje até estou na disposição de fazer um comentário menos galhofeiro),

Adiante Rocinante que a bela Dulcinea espera-nos para o jantar! Sim, porque hoje ou vou beber caipirinhas para celebrar, ou vou beber caipirinhas para afogar as mágoas!

JM2B, vou alinhar com o camarada Tóni. A promessa (ou qualquer coisa assim do género) foi o FMI, qualquer outra opção é defraudar-nos as expectativas.

Ao contrário da corrente cataclísmica anti-FMI, a verdade é que - neste momento - a intervenção de técnicos de carácter imparcial e isento, é mais digna de confiança. Não pretendo fazer publicidade ao Francis Fukuyama e ao seu livro "Trust", mas a verdade é que actualmente os políticos Portugueses padecem de falta dela (dela, confiança).

Além disso, não é que sejamos, propriamente, inexperientes com o FMI. Eles já cá estiveram anteriormente por isso a malta já tem experiência com eles.

Relativamente aos parceiros europeus, eles gostam sempre de pressionar isto e aquilo, mas:
1 - não são Deus; 2- não são imunes a ideias parvas (nota: eu trabalho com eles todos os dias e de vez em quando as luzinhas estão acesas, mas não está ninguém em casa e acreditem, os alemães não são excepção). Por isso, é um mito pensar que eles são mais do que nós. No entanto, é verdade que dá jeito apontar o dedo e dizer "Foram eles que mandaram, eu não tenho nada a ver com isso". Essa é uma táctica que, de vez em quando, também utilizo para beneficiar a gestão do meu programa aqui dentro.

Relativamente aos mercados (e economia em geral) é claro que é tudo baseado na percepção que se tem das coisas e do seu valor. É assim em todo lado e com todo o tipo de bens e serviços, mas até isso (como muito bem observado) pode ser e é manipulado.

Eu não sou adepta de ideologias cuja denominação termine em "ismo", acho que só servem para causar embaraços e não têm qualquer utilidade (excepto quando se quer testar algum tipo de armamento, aí dá jeito haver algum "ismo" para bombardear), mas não posso deixar de condenar a extrema desigualdade que existe em Portugal através de um sistema que permite uma discrepância brutal de salários. Por um lado temos altos quadros, cujo vencimento é acima da média europeia. Por outro lado temos todos os outros, cujo o vencimento é abaixo da média europeia. Com isto não quero dizer que é o Estado que tem de ser o paizinho de toda a gente, mas tem - obviamente - que ter uma função reguladora e tem o dever de assegurar o bem-estar daqueles que menos podem.

Por isso, se eu tiver que penar (considerando que entranto não fujo p'ra Finlândia) com a entrada do FMI em Portugal, mas isto servir para acabar com esta pangaiada toda, ó meus amigos... eu aperto tudo o que puder apertar de bom grado. Mais do mesmo é que não obrigado.

Caboclo disse...

Deixe eles virem para a rua ....eles que venham ...eles que venham ..

Bartolomeu disse...

Anthrax, querida, o uso do adjectivo "caro(a)" neste blog, retira qualquer sentido mal intencionado, àquele com que qualifica o meu nome, pela simples razão de ambos significarem o mesmo.
De qualquer modo prefiro "querido", por não se confundir com algo dispendioso e pelo qual se torna necessário pagar.
Sim... confesso, sou um adepto de "borlas".
Apraz-me registar que a relação entre a sua pessoa, Rocinante e a bela Dulcineia (não sei se por esta ordem) atingiu já o ponto da partilha de refeições. O meu espírito curioso impeliu-me a questionar, se os menu's eram confeccionados no palácio, utilizando produtos da horta, ou se era contratado um catering, contudo, rendi-me ao poder da discrição e, desde que não falte a fava e a aveia ao Rocinante, que coitado, esfalfa-se todos os dias carregando nos lombos a seu amo, arrojado batalhador contra gigantescos moínhos, tudo bem.
Quanto à Finlândia... se me permite, aconselho-a a escolher um cantinho do globo mais tépido. Eu sei que continuando a registar-se o aumento global da temperatura, mais decénio, menos decénio, a Finlândia poderá tornar-se num paraíso tropical mas, até lá, temo que a minha amiga não se adapte aos rigores metereológicos e ainda me apanhe para lá uma carraspana que a deixe de rastos.
Deixe-se estar por aqui e participe conjuntamente com estes amigos de excepção, no surgimento da tão desejada IV República.
Atenção, que o "IV" pode dar lugar a más interpretações, convem estar atenta!
;)))

Pinho Cardão disse...

Excelente interpretação dosa factos, caro Brandão de Brito.

Cara Anthrax:
Gostei especialmente dessa expressiva palavra "pangaiada".
Diz tudo, é sonora e esteticamente perfeita.

José Maria Brandão de Brito disse...

Para os devidos efeitos, o FMI já chegou. O recurso formal tem como único acrescento a disponibilização de financiamento a custos mais razoáveis.

Cara Anthrax,
A desigualdade é um assunto que também me preocupa muito, porque sendo ela tão gritante e generalizada dificilmente pode ser atribuída à dispersão natural do talento ou da sorte. O que está em causa é a existência de um processo de geração de desigualdade. Isso é matéria de discussão mais aprofundada noutra altura...mas acho que um bom candidato seja o estado tentacular que em Portugal tanto se tem desenvolvido nos últimos anos.

Caro dr. Pinho Cardão,
Muito obrigado pela sua simpatia...mais uma vez

Anthrax disse...

Bem hajam as caipirinhas!!!

Mais houvesse (fundos note-se), mais eu teria aproveitado!

Meu querido Bartolomeu, com adjectivos ou sem, posso garantir-lhe que o Rocinante está muito bem tratado e a "ama" não é assim tão pesaducha (não que seja esse o entendimento das suas palavras, eu é que sou criativa).

A pergunta é: Já podemos pegar fogo ao barraco?

Mas olhem que o discurso do PPC está a ser bonito... embora fosse escusada a referência ao pântano :S

Bartolomeu disse...

Deixe-me acrescentar, querida Anthrax que os discursos dos 4 líderes partidários, mais o do meio-verde, foram lindos. Estranhei não ver agitadas as bandeiras dos partidos, que vulgarmente aparecem nos discursos eleitorais, mas talvez não tinham tido tempo de as tiras das arcas...
Quanto ao pântano, querida Anthrax, penso que PPC ainda tem lá o pé enfiado até ao pescoço mas, acredito que haverá no PSD gente capaz de lhe atirar uma corda para o puxar para a margem, só não sei é se esses, estarão dispostos a fazer a força necessária...
Mas acredito que sim, que o rapaz encontrará a força anímica suficiente para se livrar do lamaçal, mantendo o estilo incomparável do "eu sei como se faz, mas não digo".
Veremos...

António Transtagano disse...

Ao meu velho amigo JM Ferreira de Almeida


Há dias, passando os olhos pelo 4ª República, li um editorial seu intitulado «O "pertuguês" dos Directores do Diário de Notícias», a propósito do uso indevido da conjugação causal "porque" em vez da preposição "por" e do pronome "que".

Como não poderia deixar de ser, os comentadores deram largas à sua imaginação. Houve quem chegasse a dizer que aqueles erros de grafia seriam para poupar nos espaços, pois assim poderiam escrever mais... (Olá, Dra. Suzana Toscano!)

José Maria Brandão de Brito escreve agora, neste longo e incisivo editorial:

"(...)Serve este delongado prólego para ajudar a perceber porque razão se gerou, nas instâncias internacionais(...)"

Porque razão ou por que razão?


Para ser coerente, JM Ferreira de Almeida deveria assumir uma das seguintes atitudes:

1. Apagar este post;

2. Apagar o editorial de José Maria Brandão de Brito;

3. Premiar o editorialista com uma boa palmatoada;

4. Apagar o editorial de 12 de Março de 2011.

Continua sempre actual o velho ditado "é mais fácil ver o argueiro no olho do vizinho(...)

Sans rancune,

Cumprimentos
António Transtagano

Bartolomeu disse...

Ó Trans Tagano... o meu amigo trocou as mãos!
O post a que se refere não foi escrito por José Mário Ferreira de Almeida, tão pouco comentado.
Vá admita um pedido de desculpas. É nobre e justificado.
No entanto o que está em causa no post que faz referência, não tanto a gramática, mas sim o conteúdo da mesma, ou a quem ele era dirigido...
Quando eu era puto diziam-me os mais velhos: antes de abrires a boca, certifica-te daquilo que vais dizer.

José Maria Brandão de Brito disse...

Caro António Transtagano,
Obrigado pelo reparo; a exigência dos nossos leitores é a nossa maior motivação.

António Transtagano disse...

Ó Bartolomeu, não troquei as mãos, não!

Eu referi dois editoriais: o de José Maria Brandão de Brito, onde eu postei, e o editorial de 12 de Março, da autoria de JM Ferreira de Almeida.

Eu bem sei que este editorial não é da autoria de JM Ferreira de Almeida nem por este comentado (et pour cause)!

E foi por isso que me dirigi a JM Ferreira de Almeida...

Vá lá, Bartolomeu, faça um esforçozinho e leia os dois editoriais, este e o de JM Ferreira de Almeida, do dia 12 de Março.

Perdeu, assim, uma boa oportunidade de estar socegadinho.


Caro JM Brandão de Brito

Não tem que me agradecer pois não cometeu nenhum pecado. A minha observação, como compreenderá, não se dirigia a si! Pretendi apenas chamar a atenção de quem vê com facilidade o argueiro no olho do vizinho (neste caso os directores do Diário de Notícias) e não vê a trave no próprio, sendo que este é a "casa" onde JM Ferreira de Almeida escreve e critica... Julgo que terá compreendido.

Bartolomeu disse...

Para início de conversa, caro Trans Tagano... sossegadinho, escreve-se com dois "s".
Não. Calma! Não estou a tentar exercer nenhum género de censura, únicamente defendo os meus direitos.
É que, aqui no blog, sou eu o detentor exclusivo de todos direitos à prática do analfabetismo. Se o meu amigo pretende entrar para o colégio, terá de fazer o favor de marcar uma entrevista com a minha secretária, por forma a combinarmos a verba a pagar.
Depois... continuo sem entender a que post se refere, mas pró caso tanto faz, é igual, portanto não carece de se preocupar com mais explicações.

António Transtagano disse...

Também acho que não vale a pena, sobretudo quando se pretende "únicamente" desviar as atenções do essencial para o acessório.

Nas suas lições de português, deve ensinar aos seus alunos que o sujeito e o complemento directo não podem ser separados por vírgulas. E será bom que estes olhem para o que o professor diz e não para o que ele faz.

Bartolomeu disse...

O sujeito, no caso em apreço, é forçoso que seja directamente separado do complemento, por forma a não permitir que no futuro, seja indirectamente relacionado com o predicado.
Hmmm?
Não, meu amigo Trans Tagano, parece-me que quem leu mal, não fui eu.
Mas pronto, ficamos assim... combinado?!

Anónimo disse...

Meu caro Transtagano, seja bem regressado com o seu estilo sempre estimulante.
Vejo com satisfação que nesse posto de observação o meu caro se mantém atento e nestes já largos tempos em que fez sentir a sua ausência não notou nada no 4R que o fizesse vir a terreiro.
Encontrou agora uma pretensa relação entre o que o Professor Brandão de Brito aqui opiniou e o que eu escrevi em 12 de Março. Confesso-me confundido. O problema é certamente meu, mas não entendo a relação que pretende estabelecer. O meu texto de 12 de Março (se não se enganou na data) chama a atenção para os dislates da apresentação do PEC IV. Juntei prova. Pode confirmá-la no site oficial do Ministério das Finanças bastando para tal clicar no link do post.
Se depois de ler o que vem escrito acreditar, fique ciente de que não me admiro...
Sempre a considerá-lo.

António Transtagano disse...

Meu Caro JM Ferreira de Almeida

Se ainda for a tempo de lhe pedir as minhas maiores desculpas, elas aqui ficam!

Realmente, em vez de Pinho Cardão, "tresli" JM Ferreira de Almeida! Acontece!

Por idêntica razão, devo desculpas ao caro Bartolomeu que me chamou a atenção para o erro. Confesso que não o levei a sério, pois, quando por aqui passava, via sempre nele a imagem da ironia e da boa disposição, sem evidentemente deixar de realçar a sua chama e o seu enorme talento! Aqui fica, também, se ainda for a tempo, o meu pedido de desculpas!


Caro Dr. Pinho Cardão:

Era o meu Amigo o visado no meu post. Mas quedou-se caladinho que nem um rato!!! Deu-lhe jeito a si mas deixou-me "entregue aos bichos"...!

Sans rancune,
Cumprimentos

Bartolomeu disse...

Ora, ora, querido Trans Tagano (secalhar pensou que se livrava do adjectivo, não?)
Quais rancune, quais carapuça! Estou com o Dr. José Mário, também aprecio quem escreve sem peias, e demonstra o que sente. Devo a esses o estímulo que mantem em parte a manutenção do meu fraco intelecto.
Além do mais aprecio também quem sabe pedir desculpa na altura certa. É em minha opinião, um bom sinal de honradez.
Ainda um dia havemos de combinar uma almoçarada, vai ver!
;)

Pinho Cardão disse...

Caro António Transtagano:
Não fiquei calado como um rato e até passei quase todo o dia, veja lá, de boca aberta, mas no dentista, e sem poder falar, a não ser nos intervalos da broca. Por isso, só agora vim a este post, e avisado por um dos Autores do 4R.
Mas creio que todos ganhámos com o facto involuntário de ter estado de bico calado. Caso contrário, poderia não haver oportunidade de se terem escrito os excelentes comentários acima quer do Bartolomeu, do Ferreira de Almeida e também seus, do mais refinado humor.
Continuemos assim, que o Blog gosta.

Anónimo disse...

Já agora atiro-vos para aqui http://estadosentido.blogs.sapo.pt/1485360.html