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quinta-feira, 10 de março de 2011

Porque são tão poucas?

O acesso das mulheres a cargos de topo voltou a estar na agenda europeia. A comissária europeia para a justiça, Viviane Reding, defendeu recentemente a necessidade de introdução de legislação que obrigue as empresas a colocar mais mulheres em lugares de topo.
Tenho a maior das dificuldades em aceitar que as mulheres ascendam administrativamente – através da imposição de um sistema de quotas - a lugares de topo, na política ou nas empresas, relegando para segundo plano o critério do mérito. É por assim dizer uma desqualificação para as mulheres ascenderem a cargos de topo por imposição da lei. Nestas circunstâncias a escolha das mulheres brindadas com este acesso só poderá obedecer a definições arbitrárias que não as dignificam.
Na Europa temos países a diversas velocidades nesta matéria. Enquanto na Noruega mais de 35% dos cargos de topo de empresas são ocupados por mulheres, em Portugal este indicador resume-se a 4%. O que estes números mostram é um contraste grande não apenas de mentalidade, mas também na abordagem que é feita ao valor da diversidade do género, por quanto sabemos que sendo os homens e as mulheres diferentes todos perdemos se não formos capazes de uma representação equilibrada que favoreça a complementaridade.
Nunca ouve tantas mulheres, como agora, com qualificações superiores. Hoje estão em maioria nas universidades e começam a ter um grande peso em determinadas profissões, como por exemplo na magistratura, na docência, na investigação, em certas especialidades médicas ou em actividades de apoio social.
Porque é que as mulheres não chegam aos lugares de topo? Poderá em parte ser explicado pela mentalidade machista, mas terá também que ver com a cultura instalada que não é favorável a que as mulheres lutem por essas posições. Será que estes problemas se resolvem com quotas?
Concordo com a comissária europeia quando diz que em tempos de dificuldades económicas faz todo o sentido ir buscar mulheres para ocuparem lugares de topo porque não estamos em época de desperdiçar o capital humano disponível.
A ascensão das mulheres a estes cargos será, tudo indica, um processo lento, mas imparável. Será que se justifica, pelos benefícios que advêm da diversidade, que este processo seja acelerado com a introdução obrigatória de quotas? Porque não, uma via intermédia em que fossem estabelecidas recomendações para uma maior representatividade das mulheres, que seriam seguidas ou não pelas empresas e entidades públicas, sujeitando-se posteriormente, com a necessária publicitação, ao reconhecimento ou sanção sociais?
Qualquer que seja a via, o importante é que os lugares sejam desempenhados pelos melhores, homens e mulheres, pelas qualificações e capacidades que detêm para desempenharem bem as funções.
O tema parece estar, também, na agenda política nacional. Se está, que haja prudência nas decisões, porque igualdades artificiais não muito obrigada...

4 comentários:

Mané disse...

Cara Dr. Margarida Corrêa de Aguiar,
Creio que no seu penúltimo parágrafo de uma forma teórica encontra-se a solução.
Trata-se de uma medida simples, mas que não sei por que razão a sua aplicabilidade não acompanha a racionalidade do conceito de Igualdade.
Luta entre sexos parece-me que sempre existiu e irá existir. È de facto algo impregnado no ser humano. Em que não me admira que no futuro mais próximo, a possibilidade de mudança estética de Género, seja uma ferramenta a utilizar nessa luta permanente de poder.
Cumprimentos,

José Maria Brandão de Brito disse...

Cara Dra. Margarida Corrêa de Aguiar,
Deixe-me felicitá-la pelo excelente post e pela posição, a meu ver totalmente acertada, que nele assume.
Este é um tema muito sensível por pertencer ao núcleo mais restrito do "politicamente correcto" que faz lindamente abordar. Aos pontos que explanou gostaria de juntar, se me permite, um só: O sistema de quotas forçadas pode ser contraproducente no longo prazo por favorecer o acesso de mulheres com o "naipe" de qualificações "erradas": mais "veia política" em detrimento de atributos técnicos ou capacidade de gestão, o que poderá criar um estigma relativamente ao desempenho de mulheres em lugares cimeiros da sociedade.

Suzana Toscano disse...

Margarida,concordo com a sua abordagem do tema, levamos décadas de atraso quer em relação ao acesso aos níveis superiores de educação das mulheres, quer na evolução da mentalidade machista, quer na cultura instalada quanto à "normalidade" de uma mulher chegar ao topo das empresas, sobretudo se na competição houver homens. Fui e sou contra as quotas mas já começo a convencer-me a não ser muito radical nisso, acho que no Parlamento e na política se progrediu muito mais depressa com as quotas e que as mulheres que entraram exactamente por causa disso têm ganho experiência e muitas das que hoje têm bons desempenhos não teriam lá chegado de outra forma. Começo a dar-me por vencida, embora acredite que a geração que agora tem 30 anos já não precisará de quotas para nada.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Mané
Seja muito bem-vindo! A sua questão é pertinente. Também eu me pergunto. A não aplicabilidade creio estar no facto de, por um lado, os decisores serem maioritariamente homens e, por outro lado, as mulheres ainda optarem por encolher de ombros.
Mas é uma questão de tempo.
Caro Dr. José Maria Brandão de Brito
Concordo plenamente com o seu ponto. O sistema de quotas obrigatórias não escolhe necessariamente a competência e o mérito, pelo que pode criar o estigma que mencionou no seu comentário.
No entanto, o acesso das mulheres a posições de topo também lhes dá a oportunidade de desenvolverem capacidades que não sendo assim estariam adormecidas.
Suzana
Alguns países europeus mais bem colocados no peso das mulheres em lugares cimeiros começaram por introduzir quotas obrigatórias. Mas há outros aspectos a ter em consideração, como por exemplo o nível educacional da população e a existência ou não da cultura do mérito.