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quinta-feira, 31 de março de 2011

Crónicas da geração do meio

A terceira empregada em poucos meses declarou que não ia ficar, que sairia no dia seguinte sem mais demoras, deixando a senhora sem ninguém, logo agora que estava a correr tão bem a recuperação da cirurgia que lhe devolveria um pouco da mobilidade perdida. Sobraram os argumentos do costume, mas vocês não vêm que ela não quer ter maçadas, era o que faltava ter aqui uma pessoa dia e noite e não me fazer companhia, faz má cara às novelas, aos almoços e às limpezas da casa, não serve, filhas, não serve, é uma tristeza ter que aturar alguém que não está aqui de boa vontade. A quarta parecia óptima, tratava-a bem, fazia companhia, não era respondona e tinha boa apresentação. Mas, filhas, não vêm que a mulher não sabe cozinhar? Faz umas sopas horríveis, além disso deu-me um remédio errado, não costumo tomar o verde ao almoço mas sim ao jantar, não posso confiar numa pessoa assim, nem uma sopa sabe fazer, e trocou o remédio, garanto que trocou… A quinta tinha grande experiência de tratar idosos, currículo comprovado, recomendações, mas lá limpezas e cozinha é que não, arranja-se a mulher-a-dias para ajudar. A embirração começou logo às primeiras semanas, então vocês não vêm que a mulher é surda, eu chamo e não responde, deve mas é ficar a dormir à socapa, tem a outra para fazer o trabalho, é claro, ontem quis um copo de água e esperei meia hora, estou para aqui entregue a uma tonta, além disso não faz a cama logo de manhã, sim, claro, ela tem que me arranjar quando me levanto de manhã, mas não gosto de voltar ao quarto e ver ainda a cama por fazer, ontem deixou-me sozinha para ir fazer a cama e eu ia caindo, isto é lá pessoa de confiança, um dia destes deixa-me cair e sempre quero ver, claro, já disse que não serve, é muito desatinada. A sexta sim, longos anos a tratar de um doente idoso, que lhe deixou muitas saudades, bom sinal, é pessoa de se afeiçoar, fica toda a semana e em caso de necessidade fica também ao sábado, não, parece que não gosto do olhar dela, e arrasta os pés, essa mulher é lá capaz de poder comigo, mas se insistem experimento, é mais uma estranha a invadir-me a casa…. Uf, já lá vão quinze dias, tudo parece organizado e limpo, estás contente? Parece impossível!, então não vêm como ela é bruta, como é que ela me calça os sapatos, não tem cuidado nenhum, um dia destes arranca-me um pé, está uma pessoa que não se pode mexer e a ser tratada com sete pedras na mão, mas pronto, é muito triste chegar a velho e sofrer estes maus tratos, mais valia morrer… A sétima disse logo que sabe tratar de idosos mas quer organização, sai à sexta, volta à segunda, e nada de confusões lá em casa, visitas é só depois de avisar, era o que faltava!, eu agora ando às ordens das empregadas, nem pensar, na minha casa mando eu, não quero cá essa mulher, escusam de a contratar. A oitava…

13 comentários:

Salvador Massano Cardoso disse...

A geração do "meio" é geração que anda à rasquinha! Anda à rasquinha porque tem de tratar dos pais e anda à rasquinha porque tem de ajudar os filhos. Anda à rasquinha, mas é o principal suporte da sociedade. O que é que aconteceria sem ela? Nem quero pensar...

Anónimo disse...

(Suspiro...)

Anthrax disse...

Então mas ainda ninguém fez um "job description"? É que eu fiquei sem saber o que é que a "velhota" queria.

Anónimo disse...

Acompanho o caro Amigo Ferreira de Almeida no seu suspiro...

Bartolomeu disse...

Anthrax... tásse mêmaver... queria ter de novo 20 anos... 40, vá.
Ainda nos queixamos porque o governo queria aprovar o PEC IV e continuava tudo de mal a pior... a senhora do post já ía no PEF VII (Plano de Estabilidade Funcional) e mantinha a esperança no PEF VIII.
Não ha nada que chegue à paciência dos mais velhos...

Anthrax disse...

Ah ah ah ah ah ah ah :D

Naaaaaaah, não queria ter de novo 20 anos. Aos 20 anos as pessoas fazem coisas muito parvas ainda.

Além disso, os 40 são os novos 30 e eu gosto dessa ideia.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
Pois a sua história repete-se nos tempos que correm. Tenho uma amiga que está permanentemente com o coração nas mãos por causa da Mãe e das empregadas porque raramente se entendem. E algumas empregadas não servem mesmo, não são qualificadas para o trabalho e o que querem é um biscate, mas fazem-se pagar, não querem maçadas e os patrões ou querem assim ou então nada feito. Como há falta delas fazem o que querem. Já isto não é bom.
A Mãe não querendo perder o seu querer precisa de permanentemente chamar a atenção dos filhos para a sua insatisfação. Há uma espécie de vitimização. Há sempre alguma coisa na nova empregada que não satisfaz. E se não há inventa. Os filhos que têm as suas vidas e querem o melhor para a sua Mãe andam num permanente corrupio, a fazerem colecção de queixas e de empregadas.
É uma crise difícil de resolver que não vai lá com PECs. O ideal seria um PEEF - Plano de Estabilidade Emocional e Funcional. Mas não é garantido que cheguem a acordo...

Bartolomeu disse...

Tem toda a razão, cara Drª Margarida... enquanto a (velha) Senhora se mantiver dependente e as empregadas não deixarem de vir com defeito... será impossível chegarem a um acordo. A menos que... as filhas ofereçam um chicote à senhora e lhe reforcem a dose do sargenor, ou as empregas irrompam um dia na residência, de kalashnikov em punho.

Ana Rita Bessa disse...

...e o pior de tudo é que o problema não reside na oferta, mas na procura.
Na procura de uma senhora que dificilmente encontrará a resposta de autonomia, de força e lucidez, de dignidade que sente ter perdido. E por isso, na procura de um sentido num combate contra a vida que é a real, nas vidas que a atormentam na sua vida idealizada.
Na procura de filhos e netos da melhor solução para um plano prático da vida, a tal que é real.
E o desejo de um equilíbrio vital entre a procura de paz e a oferta de desconforto.
Conheço muito bem o que descreve...

aulas disse...

É bem o que a Ana Rita descreve, é esta job description cujos requisitos é impossível de preencher...

Bartolomeu disse...

Saiba a minha caríssima amiga, Margarida Côrrea de Aguiar, que ontem, o Senhor Presidente da República, ao ser interpelado na rua por reporters televisivos acerca do PEC, respondeu, possívelmente na linha da sua anunciada decisão "Vou ser mais contido nos comentários.", utilizando a sigla "PEEF" de sua autoria.
No primeiro instante, pensei que estaria a plagia-la, o que, não seria muito próprio de um presidente, mas essa dúvida desvaneceu-se, quando S. Excelência dececou: Fundo de Estabilidade Económica Funcional!
Baralhou-se um bocadinho nas vogais, mas como ía em andamento, presume-se que as irregularidades do terreno sejam as responsáveis pelo engasgue.
Ol leitor de CD's do meu carro, também salta as músicas, quando passo em pisos esburacados... e não foi comprado nos chineses, já vinha na viatura.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Bartolomeu
Teve graça! Não sei se ria, se chore?
Não é só de ajuda financeira que precisamos, estamos, também, a precisar de ajuda psicológica ou, mesmo, do foro psiquiátrico. As emoções há muito que estão em crise acelerada a caminho do abismo. Um plano de resgate emocional também faria sentido...

Bartolomeu disse...

Ha muito que optei pelo riso, cara Drª. Margarida, desafiando o ditado popular que diz: muito riso, pouco ciso. Do meu ciso trato eu e, se o meu riso for contagiante, então pode ser que esteja a contribuir para desanuviar o serviço nacional de saúde.
O buzilis, é que neste país, aos políticos, falta cada vez mais a razão. Que por ninguem a ter, todos acham que a têm em excesso, tão excessivamente o acham, que a esbanjam a rodos, retirando-lhe qualquer utilidade que pudesse ter.