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domingo, 13 de março de 2011

Tinta mágica

Olho para a folha amarela do meu bloco de notas. Olho e vejo que esconde pensamentos fugidios. Tento agarrá-los mas não consigo, talvez porque não têm forma ou por não serem suficientes claros para que as palavras os possam registar.
Os pensamentos são como as pessoas, enfermam e gozam dos mesmos atributos, vícios e virtudes. Ultimamente, sinto a latejar na cabeça o conceito poder, o que me provoca dores de cabeça e mal-estar. O poder é algo intrínseco a muitas espécies, condicionando as relações e hierarquias entre animais tão díspares como os seres humanos. A par do “poder biológico”, tão bem visível nas lutas para que um elemento se torne no alfa, o homem adaptou-o, transformando-o no “poder cultural”. Hoje, em princípio, excetuando, eventualmente, uma ou outra comunidade primitiva que possa andar “perdida”, ninguém anda à cabeçada ou à pedrada para ser primum inter pares. Não. Hoje, o poder é uma manifestação eminentemente cultural, não obstante o uso de maquinaria de guerra, a opressão física e os atentados às liberdades individuais, comuns em muitas comunidades. Estas, afinal, revelam enorme capacidade de absorção do primitivismo biológico nas esferas política, social, religiosa e organizativa. Mesmo nas sociedades democráticas notam-se jogos e atitudes que pretendem condicionar os comportamentos dos outros. Não os matam, não os mandam para o exílio, não os encarceram, mas ameaçam-nos de várias maneiras, umas vezes dissimuladamente, outras não.
Os que desejam pugnar pelo desenvolvimento social, através da intervenção cívica, veem-se às vezes preteridos ou condicionados. Os resultados são visíveis, estagnação, falta de iniciativas, insucesso das medidas e ausência de progresso. Não quer dizer que o progresso, passe a redundância, não “progrida”! Claro que avança, mas muito lentamente, tão lentamente que demora anos para que possamos ver os resultados. Entretanto, as gerações ficam privadas do prazer e do direito de as usufruir. A única forma de acelerar o progresso e o desenvolvimento é através da participação cívica dos mais capazes. Mas é também necessário saber ver quais os benefícios e as vantagens das iniciativas e pugnar por elas e não andar a reboque da inércia política, muitas vezes atacada de mesquinhez, filha de um “poder” que, apesar de vestir da capa da cultura, não consegue esconder a sua origem biológica e irracional. Esta forma de manifestação do poder é uma triste realidade que acaba por prejudicar terceiros. Esquecem-se que o que está em primeiro lugar é o bem-estar dos outros, dos mais necessitados, dos que apostam nas suas capacidades, outorgando-lhes autoridade para responderem aos seus anseios mais do que legítimos. Mas não, muitos não fazem mais do que qualquer animal que, para obter a posição dominante, não têm qualquer rebuço em utilizar todas os estratagemas para derrotar os concorrentes, estratagemas que não obedecem a princípios éticos e à lealdade.
Animais que lutam pelo domínio da alcateia, da manada ou do bando são compreensíveis e revelam uma natureza própria. Nos humanos, esta força latente continua a manifestar-se, por vezes, com demasiado violência, através do poder politico. É mau, porque mesmo que ganhem, é um ganho transitório, cujo prazer se esvai em pouco tempo como a água entre os dedos. Ainda poderão ficar com alguma humidade residual, que depressa secará, assim como o próprio que, com o devido tempo, ficará seco de ideias e de vida sem ter contribuído para o bem-estar dos seus concidadãos.
O poder não deve ser autolátrico nem ser utilizado para satisfazer interesses individuais, mas sim para servir os que depositaram tão honrosa distinção. São poucos, pelos vistos, aqueles capazes de compreenderem o verdadeiro significado do poder.
E assim, a folha amarela do meu bloco de notas, subitamente, ficou recheada de algumas reflexões. Afinal, alguém teria utilizado tinta mágica, que, com o calor da alma, mostrou o que andava escondido...

5 comentários:

Bartolomeu disse...

Estou desde ontem a "mastigar" este texto e o seu sentido.
O primeiro pensamento que ele me suscitou foi a frase em latim «Mens sana in corpore sano», que segnifica como se está mesmo a perceber; uma mente sã num corpo são.
Para mim, esta frase é uma fórmula alquímica que permite ao Homem, atingir o grau máximo do equilíbrio e harmonia entre si e tudo aquilo que o rodeia.
Mas sabemos por experiência que esse equilíbrio, apesar de não ser quimérico, é de difícil alcance. Contudo, é aquilo que consciente, ou inconscientemente, move a vontade humana e motiva o Homem a porseguir o caminho que o conduzirá ao estádio superior de graça e que as influências do universo desejam e trabalham, para que seja alcançado.
Se cada um de nós fizer a sua parte...
;)

Anthrax disse...

E eis pois que senão... aparece um fabuloso texto do Prof MC.

Não sei se concordo com a ideia de "poder cultural", tenho de pensar sobre isso.

Mané disse...

Caro Bartolomeu,
Uma dica para que isso seja possível.
http://www.youtube.com/watch?v=ScbON-y5U2k
Cumprimentos,

Bartolomeu disse...

Agradeço-lhe a atenção, caro Mané.
A cada passo das nossas vidas, se for dado com os sentidos bem dispertos, percebemos que não existem impossíveis.
A água, como bem sabemos, é um dos quatro elementos-base, imprescindível á manutenção da vida na Terra. Se entendermos inteiramente esta evidência, e agirmos na infimidade das nossas vidas de acordo com ela, estaremos a dar um enorme passo, no sentido da evolução individual e colectiva.

Suzana Toscano disse...

caro Prof. salvo no caso do uso da força, pela guerra, assassínios, etc, quem chega ao poder é porque convenceu a "tribo" de que é o mais capaz para defender os interesses colectivos.Mas, como diz, depois é a luta do poder pelo poder,é a luta em si e os interesses dos que deviam defender passam para segundo plano.