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domingo, 9 de junho de 2013

A tragédia portuguesa: resposta a Suzana

No excelente post  que aqui deixou, elencando os oito momentos das tragédias gregas, convidou a Suzana Toscano a referir em que fase nos encontramos. Belo, mas difícil exercício!...
É que a tragédia grega teve autores identificados. Passaram séculos, mas Ésquilo, Sófocles e Eurípedes mantêm os seus direitos autorais. Ao contrário, na tragédia portuguesa, bastaram meia dúzia de anos para apagar o nome do autor do texto. Mas ele existe, e anda por aí, com nome de filósofo grego e aprendiz de filosofia muito rive-gauche. Procurando fazer esquecer o desafio insensato que fez às perenes leis da natureza, duplicando a dívida da cidade em 6 anos, violando assim os poderes instituídos e os ditames dos deuses, da família e da economia. Sócrates foi bem o autor da peça nossa tragédia e convém lembrá-lo até que a voz nos doa.
O primeiro andamento, a Hybris, foi escrito por ele e só por ele. Por isso, foi ele quem trouxe o Pathos e a dor; e a ele se deve o Ágon e a luta contra a ordem estabelecida. Desafiou as Parcas e traçou o Anankê, porque as políticas que impôs só podiam trazer um destino de sofrimento.
Perseguido pelo destino contra o qual atentou, buscou alterar o rumo dos acontecimentos, montando uma artificial Peripécia, acordada à pressa com uma Tríade de falsos Deuses. Mas, no fundo, nunca reconheceu a peripécia como obra por si escrita, e depressa criou e se identificou como uma nova roupagem, não de autor, mas de personagem vitimizada, numa perfeita Anagnórise. Claro que o resultado só podia ser a Catástrofe, independentemente das novas personagens chegadas à tragédia. Estava escrito no livro do destino!...
Pelo que, e respondendo à Suzana, estamos no último capítulo. O mais longo, porque as emoções do autor e a sua mentira persistem dominicalmente, a gosto de um também trágico serviço público. Alimentando assim as suas próprias paixões e as dos seus amigos de conveniência, que continuam espalhando o medo e dificultando as soluções, cegos perante a razão e a luz. A Katharsis ainda não foi feita. Seguramente está para durar.
Até lá, teremos um Portugal Acorrentado, ao modo do Prometeu de Ésquilo. É que os deuses não perdoam a violação das leis naturais. Sobretudo se violadas por filósofos que se sentiam tão irresponsáveis como eles.
Não, a tragédia não foi escrita a várias mãos. Tem um autor. Mas no país das tragédias clássicas, havia a cicuta para o prevaricador; no país das imitações, a cicuta é para o cidadão, servida pelas antenas do serviço público.
A catarse ainda não começou. É aí que estamos, cara Suzana.

8 comentários:

Bartolomeu disse...

O comentário que o Dr. Pinho Cardão publica, estaria escorreito; não fosse o caso de estimada autora Suzana Toscano, ter colocado a questão do título do seu post, no presente e não, no passado.

Suzana Toscano disse...

Notável resposta, caro Pinho Cardão, muito lhe agradeço o interesse que lhe mereceu o mote! Na sua forma de interpretar, as cenas surgem mais longas no tempo, de modo que cada fase se estendeu até hoje adiando a catarse, surgindo os novos personagens da fase anterior como os que apenas desvendaram o que todos sabiam, que a tragédia se desenhava desde o hybris. O que é sem dúvida uma interpretação muito fiel ao guião que podemos ler se voltarmos atrás. Acontece que a fase que antecede a catarse é de uma tensão e dor insuportáveis, se for prolongada e, sobretudo, se ousar repetir cenas das quais os espectadores já pensavam ter saído, como o reconhecimento, a tragédia não tem fim à vista... Mas acaba sempre mal. O que todos desejaríamos era que o guião não se cumprisse como um destino fatal e os deuses fossem derrotados.

Suzana Toscano disse...

O caro Bartolomeu tem razão, eu já tinha considerado a catarse em momento anterior, mas pelos vistos podemos considerar que se sobrepõe várias peças, incluindo a corre no palco europeu, todas misturadas, como se o coro que anuncia a mão pesada dos deuses cantasse a várias vozes. Complicada, esta obra, os gregos eram geniais nas suas composições trágicas, fazendo intervir ambição, política, sociedade, destino, inteligência, coragem e fraquezas. Enganos e esperança, também.

Bartolomeu disse...

Será que foi essa genielidade grega, que a estimada Drª Suzana refere, a responsável pelos sucessivos perdões da dívida suberana grega e consequentemente (ou não), a concessão de novos empréstimos?
«Os deuses devem estar loucos»!
Ou então o director da companhia, enfeitiçou-se pela beleza de uma das actrizes.

Pinho Cardão disse...

Não há presente sem passado, caro Bartolomeu.
Acontece que os que atentaram contra o destino são os que dificultam a busca da solução.
E a catarse tem também que passar por eles. Agora.

Cara Suzana:
Notável foi a sua evocação da tragédia grega. Fascinado, desde os tempos da escola, pela história, cultura e civilização grega,não podia deixar de seguir o mote.
Julgo que os gregos nos ensinaram tudo; pena é que, sobretudo os políticos,e também os auto-ditos politilógos ou cientista da política, pouco ou nada saibam do que a cultura grega significa para o mundo ocidental.
De facto, e reportando-me ao seu comentário, também referi "as novas personagens chegadas à tragédia". Elas vão, de facto, prolongando a trama. Porque ainda não encontraram as falas capazes de mover a vontade dos deuses severos, que obrigam os terrenos a mais sacrifícios. Mas são estas novas personagens que procuram inverter o destino e apaziguar os deuses. Tendo a oposição permanente dos que concitaram a sua fúria, atentando contra a natureza.
Mas, a pouco e pouco, o destino será invertido. A Grécia não criou apenas a tragédia. Criou também o drama, uma forma mais atenuada da descrição da vida. E ainda a comédia, quando o drama acaba. Lá chegaremos. Até porque os gregos também deram forma à esperança. No fundo da arca, depois de saídos todos os males do mundo, a fome, o frio, a doença, Pândora encontrou, lá bem escondida nas dobras do pano, a luzinha da esperança.
Chegaremos a bom porto.

Paulo Pereira disse...

Caros,

É falso que a tragédia economica portuguesa recente tenha começado em 2006.

Já em 1991 a balança comercial era fortemente negativa , e foram as remessas dos emigrantes e os subsidios da UE que mascararem a debilidade da economia durante 10 anos e permitiram a adesão ao euro.

Aderimos ao Euro com um escudo sobrevalorisado e o Euro chegou a estar 50% acima do dolar, estando agora 30% acima.

desta forma não temos competividade nas empresas para dentro do Euro e muito menos para fora do Euro.

Pinho Cardão disse...

O essencial da actual crise portuguesa tem tudo a ver com a tragédia das finanças públicas. Ponto final.
Claro que, numa crise, há sempre outros factores. No caso, também os há. Mas são marginais.
Mas quem não quer distinguir entre o substancial e o acessório é porque não quer simplesmente ver. Por maior que seja a evidência.

Paulo Pereira disse...

Não é verdade o que diz. Existem dois problemas interligados, a falta de crescimento economico e desemprego traz menos receitas fiscais.

A Itália e a Belgica têm uma divida publica superior a Portugal e estão melhor que Portugal.

A Espanha tem menor e está em crise forte.

O problema é a falta de competividade das empresas, o que já vem de 1991, como se pode verificar no deficit comercial desses anos .

Sem entender isto vamos continuar a patinar .