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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Genial!

Com a devida vénia ao Autor e à revista Visão, reproduzo o texto genial de Ricardo Araújo Pereira. Uma verdadeira pérola.
 
«É uma história que se contava no início do século XIX. Um homem vai ao médico e diz: "Doutor, estou deprimido. Preciso de ajuda." O médico concorda: "O seu caso é muito grave. Só há uma solução para si: tem de ir ver o palhaço Grimaldi." "Mas, doutor", diz o homem, "eu sou o palhaço Grimaldi". Vamos manter presente esta curiosa ocorrência, que ela ainda vai ajudar-nos a compreender, através de um palhaço do passado, as palhaçadas do presente.

Sempre que alguém o critica, Miguel Sousa Tavares acusa o crítico de querer promover-se à sua custa. Ao longo dos anos, vários especialistas em marketing têm optado por essa campanha promocional infalível que consiste em apontar críticas a MST, e ele tem-nos denunciado a todos. A estratégia dos críticos é bastante pueril: uma vez que, até hoje, nunca se descobriu uma razão válida para criticar MST, fica à vista de toda a gente que as críticas só podem fazer parte de um plano de promoção pessoal do crítico.

Esta semana, no âmbito da campanha de promoção do seu novo livro, MST deu uma entrevista em que chamou "palhaço" ao Presidente da República. MST, sendo licenciado em Direito, conhece o código penal, e sabe que insultar o PR gera, como quase tudo o que é ilegal, uma atenção mediática que é muito favorável à promoção de pessoas e bens. Na minha opinião, toda a gente deveria poder dizer o que pensa do PR, e sobretudo deveria poder dizê-lo da maneira que entendesse. Quer o fizesse nos termos de um vulgar carroceiro, numa tasca qualquer (por exemplo: "Este Presidente é mesmo um palhaço"), quer com a sofisticação subtil e a criatividade engenhosa de um escritor (por exemplo: "Este Presidente é mesmo um palhaço"). Há várias maneiras de se dizer o que se pensa, e os escritores, só porque são mais hábeis com as palavras, não deveriam ter um estatuto diferente dos que manejam o idioma de um modo mais grosseiro. Infelizmente, o código penal não concorda comigo e pune tanto carroceiros como escritores.

No próprio dia em que foi publicada a ofensa que dirigiu ao Presidente, MST deu nova entrevista corrigindo a entrevista anterior, e admitiu que se tinha excedido. Ou seja, MST criticou-se a si próprio. Ora, como todos sabemos, a única razão que pode levar alguém a criticar MST é a vontade de se promover à custa dele. Finalmente, alguém se promove à custa de MST com todo o mérito e justiça - o que nos permite reescrever a edificante história inicial. Um homem vai à agência de comunicação e diz: "Doutor, estou a promover um livro numa época em que as pessoas compram muito menos livros. Preciso de ajuda." O director da agência concorda: "O seu caso é muito grave. Só há uma solução para si: tem de criticar o Miguel Sousa Tavares." "Mas, doutor", diz o homem, "eu sou o Miguel Sousa Tavares."»
 
Ricardo Araújo Pereira, Visão, 6 junho de 2013

9 comentários:

Bartolomeu disse...

Bom, seguindo a mesma lógica, este autopromove-se, à custa dos outros dois.
Acompanho-o na vénia ao autor, estimado JMFA.
Só estou para ver qual vai ser o desfecho do caso MST versus ACS (vulgo PR).
Estou mesmo a ver que mais uma vez, a constituição vai ser mandada às urtigas e o ofendido vai "dar uma" de um benevolente e magnânimo democrata.
Se assim for, os cidadões, na sua ingenuidade e simplicidade ficam sem perceber no mei de toda a opreta, se algum dos actores desempenha verdadeiramente o papel de palhaço. Ou seja; se os palhaços se encontram no aplco... ou na plateia.

Bartolomeu disse...

PS:
Não conheço as leis do principado do Monaco, mas estou desconfiado que nenhuma delas tolera que alguém chame palhaço a um dos membros da família Grimaldi.
Se por ventura, foi essa a intenção do humorista.
Até pode ser que ninguem de lá, leia a revista Visão.
Assim a promoção do autor do artigo seria menor, mas a pena, bom, essa seria muito maior, de certezinha.

Pinho Cardão disse...

Conforme as coisas vão, até sou capaz de apostar dobrado contra singelo que os Tribunais, se o caso lá chegar, o que me permito duvidar, vão elaborar eruditamente sobre o conceito de palhaço e louvar o escrevente pela alegoria assim encontrada.

Luis Moreira disse...

Vão dizer a Cavaco como me disseram a mim em pleno tribunal. Você tem razão, mas eles têm muito dinheiro e vão fazer recursos. Você tem dinheiro para pagar recursos para o resto da sua vida?

Tonibler disse...

Caro Bartolomeu,

os Grimaldi são soberanos, tal como em Portugal o soberano é o povo. O Cavaco é coisa nenhuma, é um criado, e, portanto, pode ser chamado daquilo que me apetecer. Chama-se república. Por serem soberanos, os Grimaldi têm outros deveres que os cavacos não têm. Os Grimaldi representam o Mónaco. O Cavaco representa o estado português, não representa Portugal.

Bartolomeu disse...

Se o homem é nosso criado, está-nos a sair caríssimo, meu Amigo Tonibler.
Além do mais, usufrui de privilégios muito superiores aos dos patrões que lhe pagam o ordenadinho, amais à Maria,e etc.
Mas se como diz, é coisa nenhuma, a situação ainda se agrava, por que estamos a pagar uma fortuna a uma coisa nenhuma, só para lhe chamarmos palhaço político, ou um coisa nenhuma politica.
Parece-me que o nosso mal está em não sabermos escolher a criadagem, Tonibler.

Suzana Toscano disse...

Genial!

Manuel Silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manuel Silva disse...

Nota prévia: Como o meu comentário, educado, cordato, posto em termos sérios foi censurado pelo Dr. Tavares Moreira (pela 2.ª vez, já o tinha feito há dias), deixo ao vosso conhecimento esse facto. O comentário propriamente dito não o guardei, mas sou capaz de o reconstituir. Mas porque não o Dr. Tavares Moreira repô-lo, para que possam aquilatar da verdade do que digo?
Aqui vos deixo o desafio, de um social-democrata (verdadeiro) para outros sociais-democratas, igualmente amantes da liberdade.
E aqui vos deixo o link do vídeo de 3:58 de que o Dr. Tavares Moreira não gostou:
http://www.youtube.com/watch?v=RFEf9_swh3s
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Sr. Dr. Tavares Moreira:
O execrável acto de censura que o senhor acabou de fazer com o meu comentário é bem revelador dos tempos que vivemos.
Tanto mais que é perfeitamente injustificado, na medida em que, quer os termos formais do comentário, quer o conteúdo não o justificam.
Trata-se, portanto, de um acto da mais pura e dura censura.
Motivada apenas pelo facto de o senhor não suportar o contraditório, um contraditório que, de forma eloquente, põe a nu as historietas dos juros amigáveis que os mercados nos cobram.
O Dr. Moreira Rato já tinha ficado embatucado com as perguntas de José Gomes Ferreira, mas, ou por impossibilidade real ou por uma razão de ética, aguentou o incómodo.
O senhor não, não o suportou: logo, censurou.
Se o que prefere é tem um público fiel que se limita a aplaudir o que diz, que fique com esse público e que seja muito feliz.
Mas não me venha com a treta da social-democracia, clamando-se daquilo que não é.
Passe muito bem.
Conseguiu o que queria.