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terça-feira, 4 de junho de 2013

Não tem...



- Anda bem de saúde?
- Não. Nem por isso. Ando com vertigens. Tomo medicamentos, mas não fazem grande coisa.
Face triste, postura um pouco tensa, feições a relembrar que em tempos terá sido bela, largos pneus induzidos pela idade ou por qualquer terapêutica.
- O que é que lhe aconteceu? Teve algum episódio grave que a marcou?
Olhou meio surpreendida e disse:
- Sim. Foi ele.
- Ele? O que é que lhe fez?
- Ah, foi desde que as crianças nasceram.
- Tem filhos?
- Duas.
- Que idades?
- A mais velha 35 e a outra 33.
- Mas o que é que ele lhe fez?
- Tenho medo que me ponha na rua.
- Na rua? Mas ele põe-na na rua?
- As minhas filhas também lá trabalham, e eu não percebo, sou do quadro, mas não sou efetiva.
Aqui fiquei confuso sobre o "ele".
- "Ele" quem?
- O engenheiro.
- O engenheiro?!
- Sim, o engenheiro da fábrica. Meteu-se na cabeça que vou para a rua. E depois o que é que vou fazer? Nem consigo dormir.
- Não há de ser nada. Mas diga-me, há pouco falou de "ele" e das crianças, que agora são mulheres e até trabalham no mesmo local que a senhora. Esse "ele" não é o engenheiro, pois não? Não pode ser.
Calou-se e depois de um breve momento olhou-me e avançou:
- É o meu homem. Não gosto dele, nem quero nada com ele. É por causa da mulher do café, uma vizinha.
Contou a história, em traços breves, mas profundos.
- Mas isso já passou, não passou?
- Sei lá se passou ou não. Eu penso que sim, mas nem sei. Pelo menos durante mais de dez anos tive de suportar a afronta.
- São coisas que já lá vão.
- Ah, são, são! Eu sei lá. Ele diz que já não tem, não sei se tem ou não. Há mais de um ano. Mas eu também não me importo. É capaz de não ter mesmo, fumava muito e quando era mais novo também bebia. Ele diz que não tem, é capaz mesmo de não ter. Já lhe disse para ir ao médico, mas ele não está para aí virado.
- Pois é, essas coisas tratam-se muito bem hoje em dia graças a Deus, ou melhor, graças a uns medicamentos.
- Eu já lhe disse que é bem feito. Não tens? É castigo pelo que andaste a fazer. E não te ter caído já tens muita sorte. É muito bem feito. Ai, quantas pragas não lhe roguei senhor doutor, quantas, mas quantas.
A conversa continuou e a senhora desabafou.
Ao despedir-se, agradeceu-me pelo facto de a ter ouvido.
Com os ombros em acento circunflexo, dando passos curtos, mas pesados,  escondia a sua tristeza apenas audível numa voz arrastada:
- Não tem. Não tem. Bem feito.

5 comentários:

Bartolomeu disse...

O que distingue, para além do óbvio, uma mulher de um homem?
Ambos começaram por ser um girino que ganhuo, devido às suas capacidades atléticas, uma prova de natação a milhares de outros.
Esse feito, repercute-se pela vida fora e o mesmo carácter lutador e ganhador, é o responsável por ema panóplia imensa de conflitos nas relações. Sempre um a tentar impor-se ao outro; sempre um a pretender dominar o outro; sempre um... apretender aniquilar o outro.
Mesmo quando o amor prevalece, não se ameniza o desejo de domínio, o desejo de sobreposição. O próprio acto sexual, estriba-se, quer da parte de um, como do outro, numa manifestação de poder, de controle, de domínio.
É da natureza humana.
E o facto de "não ter" pode agravar ou inflamar esta característica, quer num, como no outro.
Caso tivesse "caido"... talvêz a posição dos ombros da senhora se alterasse e passassem a ser em "U", confirmando a consumação da sua 2ª vitória.
(extraído da tese de doutoramento defendida por Bartolomeu, no exame de antropoligia genética/paridontal)
(és tão parvinho, bartolomeuzinho. tenhamos paciênciazinha)
;))

Salvador Massano Cardoso disse...

:)

Suzana Toscano disse...

um pouco confusa, esta senhora, mas realmente o instinto não precisa de racionalidade, se não era para ela bem feito que não fosse para mais ninguém. Um vingançazinha bem sentida...

Manuel Silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manuel Silva disse...

Nota prévia: Como o meu comentário, educado, cordato, posto em termos sérios foi censurado pelo Dr. Tavares Moreira (pela 2.ª vez, já o tinha feito há dias), deixo ao vosso conhecimento esse facto. O comentário propriamente dito não o guardei, mas sou capaz de o reconstituir. Mas porque não o Dr. Tavares Moreira repô-lo, para que possam aquilatar da verdade do que digo?
Aqui vos deixo o desafio, de um social-democrata (verdadeiro) para outros sociais-democratas, igualmente amantes da liberdade.
E aqui vos deixo o link do vídeo de 3:58 de que o Dr. Tavares Moreira não gostou:
http://www.youtube.com/watch?v=RFEf9_swh3s
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Sr. Dr. Tavares Moreira:
O execrável acto de censura que o senhor acabou de fazer com o meu comentário é bem revelador dos tempos que vivemos.
Tanto mais que é perfeitamente injustificado, na medida em que, quer os termos formais do comentário, quer o conteúdo não o justificam.
Trata-se, portanto, de um acto da mais pura e dura censura.
Motivada apenas pelo facto de o senhor não suportar o contraditório, um contraditório que, de forma eloquente, põe a nu as historietas dos juros amigáveis que os mercados nos cobram.
O Dr. Moreira Rato já tinha ficado embatucado com as perguntas de José Gomes Ferreira, mas, ou por impossibilidade real ou por uma razão de ética, aguentou o incómodo.
O senhor não, não o suportou: logo, censurou.
Se o que prefere é tem um público fiel que se limita a aplaudir o que diz, que fique com esse público e que seja muito feliz.
Mas não me venha com a treta da social-democracia, clamando-se daquilo que não é.
Passe muito bem.
Conseguiu o que queria.