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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Autocolante...


Delicio-me com pequeninas histórias, pessoais, as contadas por amigos, as que ouço indiscretamente, as que presenceio, enfim, é só parar, olhar e escutar, elas aparecem como o velho comboio fumarento a apitar ao fundo da linha.
Às vezes registo-as, porque considero que podem ser úteis, a mim são com toda a certeza, dão-me prazer e ajudam-me a viver, mas pode ser que também sejam interessantes para outros, sobretudo para os mais pequeninos, que têm de aprender a voar, a ser autónomos como os pássaros. Mas como não são pássaros, têm de saber, também, o valor dos princípios e criar o seu código de honra de forma a ficarem bem com eles próprios, mais tarde, quando forem confrontados com as consequências das atividades humanas, nem sempre as melhores, nem sempre condignas e nem respeitadoras da condição humana. Uma batalha sem fim, uma derrota anunciada, que, apesar de tudo, merece ser travada. É bom, muito bom, sair da vida em paz, bem consigo próprio, mesmo que os seus exemplos desapareçam no ar como o mais puro dos fumos.
Final de tarde muito agradável, o telefone toca e a forma de início da conversa antecipava mais uma história. Sabes uma da tua neta? Pronto, pensei, deve ter sido coisa bonita, o que é que a miúda se lembrou de dizer ou fazer desta vez. Conta, disse entusiasmado. Fomos ao supermercado e uns senhores deram-nos uns sacos por causa do “Banco Alimentar Contra a Fome”. A tua neta ouviu e depois de recolher alguns produtos entregámo-los. Foi então que a conversa se distendeu. A menina disse que temos de ajudar os pobres, que têm de comer e que todos devem ajudar porque hoje são eles que precisam, mas amanhã podemos ser nós. A conversa, sobre a ajuda alimentar, continuou e pelos vistos todos ficaram surpreendidos com a desenvoltura e o alcance de uma garota de 4,5 anos a debitar, com o mais à-vontade possível, a sua opinião. Foi então que uma senhora lhe aplicou no peito um autocolante. A miúda ficou muito orgulhosa por esse gesto e pediu à mãe para contar ao avô. Em seguida tive de ouvir a versão da menina que explicou o que se tinha passado, dizendo que estava muito feliz e orgulhosa! Contou, contou, recontou, falou sobre o que compraram, sobre o autocolante que tinha no peito e que iria levar amanhã para a escolinha para contar aos colegas o que se tinha passado e como deveríamos ajudar os que são pobres e passam fome. Uma delícia ouvir o cantarolar de uma cachopa. Ouvia e reforçava o seu comportamento, até que no final, me pediu: - Vovô. Podes escrever uma história? - Se posso? Claro que posso. Aqui está ela, pequenina, simples, mas suficientemente forte e interessante para que mais tarde possa recordar um momento, um gesto e a criação de um valor que a possa ajudar, não a matar a fome do corpo, mas a eterna fome do espírito.
Deve ter dormido com o autocolante, a sua medalha de honra, uma condecoração que deve valer mais do que muitas comendas...

4 comentários:

Bartolomeu disse...

«A menina disse que temos de ajudar os pobres, que têm de comer e que todos devem ajudar porque hoje são eles que precisam, mas amanhã podemos ser nós.»
A menina possui um senso raro. Um senso que a maioria dos adultos não possui. Possui também a sensibilidade que falta a muitos adultos, sobretudo àqueles que tÊm a tarefa e responsabilidade de decidir as vidas dos mais frágeis e desprotegidos.
A menina mereceu a medalha que tanto orgulho lhe causou, e merece a adimiração de todos nós, ela irá certamente contagiar os coleguinhas da escola com o espírito da solideriedade; os futuros agentes sociais deste país.
Parabéns à menina e que o bom senso lhe permita colocar, sempre, durante toda a sua vida, o bom senso e os bons sentimentos, à frente da recompensa e das condecorações. Que o sentido do altruísmo nunca lhe abandonem a vontade de contribuir para a felicidade e bem-estar dos seus semelhantes.
As medalhas, são rodelas de metal que se prendem com alfinetes. Os actos, são manifestações da vontade e da capacidade para ser sensível ao sofrimento alheio. A gratidão é a medalha mais valiosa, mais durável e incorruptível.

Salvador Massano Cardoso disse...

É verdade, Bartolomeu.

Manuel Silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manuel Silva disse...

Nota prévia: Como o meu comentário, educado, cordato, posto em termos sérios foi censurado pelo Dr. Tavares Moreira (pela 2.ª vez, já o tinha feito há dias), deixo ao vosso conhecimento esse facto. O comentário propriamente dito não o guardei, mas sou capaz de o reconstituir. Mas porque não o Dr. Tavares Moreira repô-lo, para que possam aquilatar da verdade do que digo?
Aqui vos deixo o desafio, de um social-democrata (verdadeiro) para outros sociais-democratas, igualmente amantes da liberdade.
E aqui vos deixo o link do vídeo de 3:58 de que o Dr. Tavares Moreira não gostou:
http://www.youtube.com/watch?v=RFEf9_swh3s
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Sr. Dr. Tavares Moreira:
O execrável acto de censura que o senhor acabou de fazer com o meu comentário é bem revelador dos tempos que vivemos.
Tanto mais que é perfeitamente injustificado, na medida em que, quer os termos formais do comentário, quer o conteúdo não o justificam.
Trata-se, portanto, de um acto da mais pura e dura censura.
Motivada apenas pelo facto de o senhor não suportar o contraditório, um contraditório que, de forma eloquente, põe a nu as historietas dos juros amigáveis que os mercados nos cobram.
O Dr. Moreira Rato já tinha ficado embatucado com as perguntas de José Gomes Ferreira, mas, ou por impossibilidade real ou por uma razão de ética, aguentou o incómodo.
O senhor não, não o suportou: logo, censurou.
Se o que prefere é tem um público fiel que se limita a aplaudir o que diz, que fique com esse público e que seja muito feliz.
Mas não me venha com a treta da social-democracia, clamando-se daquilo que não é.
Passe muito bem.
Conseguiu o que queria.