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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Quando o telefone toca

De visita a casa de uma senhora de muita idade testemunhei uma cena incrível. O telefone fixo tocou, a senhora fez um ar aterrado e disse: - “São eles, são eles outra vez!”, mas o telefone não se calava e ela atendeu. Ouvi-a balbuciar “já lhe disse que ele não mora aqui”, “eu tenho quase 90 anos e não devo nada a ninguém”, “já lhe disse que não sei”, enfim, visivelmente do outro lado ameaçavam-na, falavam com rispidez, eu ouvia o timbre da voz, agressiva, impositiva, a senhora calou-se e ficou a ouvir, a abanar a cabeça trémula, quase a chorar, do outro lado do fio uma torrente de palavras, por fim fui eu que desliguei de repente o telefone para pôr termo àquilo. Contou-me então que um filho é procurado por um credor, uma daquelas empresas que dantes satisfazia todos os caprichos, agora nem caprichos nem dinheiro, só dívidas e cobradores, não sabe como descobriram o telefone dela e ligam vezes sem conta, a horas diferentes, insistem para que a senhora lhes dê o contacto do filho o qual, por sua vez, pouco ou nada lhe aparece. Ela acaba por ter medo de um e de outro, de quem telefona e do que foge de lhe aparecer, vive aterrorizada porque lhe dizem que vão lá a casa, que sabem a morada, enfim, um cardápio estudado para conseguirem chegar a quem querem. Um abuso, uma violência sobre pessoas que nem sabem quem são, a quem causam um sofrimento terrível, pessoas sozinhas, já ignorantes do que se passa neste mundo confuso, “veja só”, dizia-me ela envergonhada, “para o que eu estava guardada, ver o meu filho falido e eu a passar por mentirosa. Até me salta o coração quando toca o telefone”.
Com que direito é que estes cobradores ligam para pessoas que nem conhecem para os fazer “reféns” para cobrar o que nunca deviam ter emprestado? São empresas ou são malfeitores?
Mas o telefone também é via fácil para abusos bem intencionados mas não menos danosos. Há dias ligaram-me de uma associação de que eu nunca ouvi falar a “comunicar-me” que a minha mãe iria lá a uma consulta de cardiologia e mais não sei quê, fazer análises e testes. Fiquei estupefacta, mas a que propósito e a mando de quem, perguntei alarmada, porque eu não tinha marcado nada. Explicou-se a senhora, um tanto impaciente, que fazem rastreios da população idosa, coração e ossos, dizia ela, “combinei a consulta para 2ª feira com a sua mãe mas ela disse-me que a filha é que a leva e deu-me este número”. Fiquei furiosa, a imaginar a trapalhada que já se teria instalado, a minha mãe a pensar que doenças eu estaria a ocultar-lhe, a lista de testes impressionava, enfim, acabei a gritar ao telefone que não a levaria a lado nenhum e a exigir que me dissesse quem era e como tinha obtido o telefone e como se atreviam a ligar com conversas daquelas sem saber quem estava do outro lado e da sua capacidade de entender o recado. Não me disse como tinha o telefone e insistiu que era um rastreio nacional. Não sei se é, prefiro nem saber, mas espero sinceramente que os rastreios a sério se façam com outro profissionalismo no contacto com as pessoas e não andem a telefonar à toa a criar medos e sustos onde eram bem escusados, a partir daí todos os dias tenho que ouvir “sintomas” de mal no coração.
O uso do telefone pode ser uma forma de intrusão e de abuso, por mal ou por bem intencionados que sejam o facto é que entram na casa alheia sem pedir licença e fazem estragos a quem não pode ou não sabe defender-se.

14 comentários:

Catarina disse...

Para quem não sabe ou não pode defender-se, eu aconselharia desligar o telefone sem tão pouco pedir licença! Ser ou não educada não está em questão nestas circunstâncias.
Imagino o terror dessa pobre senhora quando o telefone toca.

Frederico Lucas disse...

Estas situações devem ser denunciadas à policia para que se possa iniciar um processo de gravação das conversas telefónicas e identificação do "cobrador".
Há vários atentados à Lei nestes processos a começar pelo atentado ao bom nome do filho.

Bartolomeu disse...

A minha mãe também foi vítima de uma situação idêntica com uma operadora telefónica, a qual começou a facturar, antes de instalar o serviço.
Neste caso, aplica-se o ditado "ha males que chegam por bem" porque já a tinha alertado inúmeras vezes para não atender angariadores de serviços nem pelo telefone e muito menos à porta. Isto fêz com que definitivamente, a minha mãe percebesse que, apesar de todo o aliciamento e de todas as formulas simpáticas de abordagem, apesar de parecer, ninguém dá nada a ninguém.
E então, o assédio telefónico a exigir o pagamento das facturas que íam vencendo, era constante.
Falei meia-dúzia de vezes para o número de atendimento ao público e expliquei o insólito de estarem a cobrar por um serviço que não estava instalado. Respondiam-me que no sistema informático deles, estava activo, e que portanto havia lugar a pagamento. Decidi então usar do mesmo métudo deles e respondi-lhes: muito bem, vamos então combinar um dia e uma hora para os senhores enviarem um cobrador ao local, mas mandem um bem forte, porque eu tenciono pagar-lhe cada factura com um valente murro na cara.
Passado alguns dias recebi uma carta da empresa a avisar-me de que iriam proceder á notificação das restantes operadoras, para que ninguém estabelecesse qualquer contrato com a minha mãe.
Tá bem abelha...

Tonibler disse...

Telefone fixo, hoje em dia, só serve para as operadoras de telefone nos ligarem para nos dizer que escolhemos a operadora errada para ter telefone fixo. Objecto irradiado da minha casa faz mais de 3 anos.

jotaC disse...

Estou com o caro Tonibler. No entanto há que fazer pedagogia no sentido de que telefonar para quem não se conhece é, além de abuso, uma forma de intrusão em casa alheia. E isto também se aplica aos operadores de telemóveis quando bombardeiam com mensagens não solicitadas, como é o caso da TMN, que me "convenceu" por enfado a mudar para a vodafone, muito mais contida nestas coisas.

Pinho Cardão disse...

O telefone, nomeadamente o fixo, ampliou funções e passou a ser instrumento de marketing, de pressão e até de ameaças.
E não vejo como é que se pode sair disto. O Tonibler cortou radicalmente com o fixo. Mas o mal chegará em breve aos telemóveis.

Tonibler disse...

Os móveis tem uma solução muito mais fácil...

jotaC disse...

Então faça o favor de nos dizer, caro Tonibler...

Tonibler disse...

Muda a porcaria do cartão e, simultaneamente, actualiza a agenda de contactos por aqueles que quer avisar que mudou de número...:)

Tonibler disse...

Note-se, também, que o primeiro dos critérios das empresas de crédito ao consumo na sua autorização é a existência de um telefone fixo. Não há telefone fixo, não há crédito.

Suzana Toscano disse...

Não fazia ideia disso, caro Tonibler, assim compreende-se que alguém se lembre de dar o número de telefone de outra pessoa, como a mãe, sabendo que ficará a salvo das perseguições. É claro que isso implica muito pouco amor filial, mas a sobrevivência dita muita desgraça.

Suzana Toscano disse...

Catarina, é também esse o meu conselho, passo a vida a dizer à minha mãe que mais vale ser mal educada do que ser vítima e que se for alguém conhecido de certeza que entende a reacção. Mas não resulta porque as pessoas são "enroladas" por estes autênticos burlões, que se servem das pessoas para os seus fins, então os idosos têm uma espécie de reverência pelo telefone e muitos deles não têm mesmo outro contacto com o mundo.
Caro frederico Lucas, quando sugeri uma coisa semelhante sabe o que me responderam? pois que se "eles souberem disso" ainda se vingam de quem fez a queixa! E se calhar até têm razão...
Caro Bartolomeu, então desses nem se fala, já tive um problema semelhante por, através do telefone, a minha mãe ter aceite trocar de fornecedor e apareceram lá em casa para instalar fibra óptica e mais não sei quê, tive um trabalhão para os mandar de volta, é claro que a culpa é deles, como é que sabem que estão a falar com quem pode assumir esses compromissos ou está em condições de o fazer?E há muitos outros abusadores do telefone, é só começar a desfiar casos...
Caros Pinho cardão e Tonibler, também acho que é quase impossível lutar contra esta torrente invasiva a que chamam "marketing", é talvez um caso em que o movimento cívico poderá condenar os que não cumprem regras mínimas de decência e respeito pelos outros.

Tonibler disse...

Há sempre aquela táctica do "Ai fala daí? Ainda bem que liga porque queria fechar um contrato que tenho com vocês. Posso tratar consigo?.."

JM Ferreira de Almeida disse...

Estes comportamentos configuram crime. E tem de se começar a denunciá-los como tal a quem tem o dever de os perseguir.