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domingo, 30 de setembro de 2012

Recusar a mão, mas aceitar o que lá vem dentro

“Sempre fui uma mulher coerente; as minhas ideias e aquilo que eu faço têm uma coerência. Sou uma mulher de esquerda, sempre fui, sempre lutei pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores”.
Maria Teresa Horta
Palavras de Maria Teresa Horta ao recusar receber das mãos do 1º Ministro o prémio que lhe foi atribuído pela obra “As luzes de Leonor”.
Recusou as mãos, mas não recusou o cheque. Um cheque que essas mesmas mãos assinaram, ao subsidiar a Fundação Casa Mateus precisamente no valor do prémio e com tal finalidade.
Mas Teresa Horta é de esquerda e corente: fez a tradicional rábula, recusou a mão, mas aceitou o que lá vinha dentro.

16 comentários:

Jorge Lucio disse...

Caro Pinho Cardão,
1. Se o Estado deu o dinheiro à fundação, a partir desse momento deixou de ser dele, correcto?
2. O prémio não é de Passos Coelho ou do Governo, é da fundação. Que o Estado dê dinheiro a alguém, para este atribuir um prémio em nome próprio, em vez do Estado o atribuir directamente, é um bom exemplo do que havia para cortar nestas instituições... E o que o Governo fez foi tíbio, para ser simpático!
3. A fundação poderia ter retirado o prémio à autora, mas o direito a este estava submetido a aceitar a cerimónia? Woody Allen nunca foi à cerimónia dos Óscares.
4. O prémio foi atribuído por unanimidade, por um júri presidido por Vasco Graça Moura "notório simpatizante de esquerda", a quem não ouvi qualquer declaração de desagrado pela posição da vencedora.
5. Não vejo porque deveria a autora recusar um prémio de prestígio, outorgado pelos seus pares.

Declaração de "não interesse": não gosto especialmente da obra de Maria Teresa Horta

Impaciente disse...

Entre a substância e o veículo haverá uma certa diferença...
Que, no caso, será julgar que o prémio é merecido mas não reconhecer dignidade correspondente a quem o entrega.
A questão está em diferenciar entre a entidade que entrega e quem exerce a função, mas nisso não será apenas da responsabilidade de quem recebe, a menos que se trate de mera bravata política.

Pinho Cardão disse...


Caro Jorge Lúcio:
Afinal o 1º Ministro é um troglodita "uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país”, e não merece que Teresa Horta dele se aproxime; mas é esse mesmo 1º Ministro que possibilita o cheque e do cheque Teresa Horta aproxima-se sem hesitação. Porque o cheque afinal não é assim tão destrutivo como isso.
Tudo bem, portanto.
Quanto a Hollywood, quem não vai à cerimónia não recebe o óscar.

Pinho Cardão disse...

Caro Impaciente:
Pois claro que é mera bravata política.

Jorge Lucio disse...

Caro Pinho Cardão,

Acha que o "Óscar" é a estatueta, que às vezes até é vendida pelos vencedores? Convido-o a ver a lista dos oscarizados de 1978. "Annie Hall", lembra-se?

E desculpe a franqueza, mas se alguém passou o cheque foi você e fui eu, não o primeiro ministro.
E estou seguro que, como eu, quando você faz algum donativo, deixa de se considerar "dono" desse metal.

Se o prémio fosse do Governo, a postura do "recuso o entregador, mas quero o cheque" estaria errada, concordo. Mas não foi o caso. Bem esteve a fundação ue soube distinguir o essencial do acessório.

(e deixe lá a esquerda em paz: quando Sartre recusou o Nobel, recusou-o mesmo, diploma e dinheiro)

Massano Cardoso disse...

Há certas coisas que eu não entendo. A senhora não quer que o PM lhe entregue o prémio? Se não quer, não quer, ponto final. A razão é a senhora ser de esquerda e o PM ser de direita? Que raio de razão! E se fosse ao contrário? O PM recusar-se a entregar o prémio? Então é poderia ser uma chatice, e das grandes, mas é improvável que tal acontecesse, haveria sempre chefes de gabinete, um ministro de férias, um secretári de estado que, por acaso, até andava por aquelas bandas na altura e, se não houvesse ninguém do "governo" arranjava-se o presidente da câmara local, o presidente da junta de freguesia ou qualquer bicho-careta sempre disponível para fazer parte da cerimónia, dizer meia dúzia de palavras, beber um copo de qualquer coisa, almoçar, se estivesse programado, e aproveitar o resto da tarde para ir à pesca, à caça ou ao shopping center. Uma fantochada. Cada vez ligo menos a estas "coisas". A esta hora a senhora já deve ter recebido o cheque, comprou uma garrafa de champanhe, ou umas minis ou águas das pedras e gastou-o ou vai gastá-lo da maneira que lhe apetecer. Que lhe faça muito bom proveito.

Bartolomeu disse...

Na Constituição Portuguesa existem 3 artigos que consagram a todos os cidadãos, o direito à objecção de consciência.
Se bem entendo, o sentido do post dirige-se a duas objecções distintas; uma relacionada com o materialísmo que premeia o mérito e a outra com a participação numa "praxe" em que, acredito, ambos os principais intervenientes não desejavam participar. O problema para as nossas consciências (inquisidoras), reside no facto de só uma das parte (a mais fraca) ter manifestado objecção nesse ponto, o que ilibou a outra parte e até a absolveu.
Imagino que o caro Dr. Pinho Cardão, se der atenção e este comentário, vá pegar no termo que coloquei entre parêntesis, para me "puxar as orelhas", mas... se não o relacionar com os tribunais da idade média, irá atribuir-lhe somente o significado de "averiguador".
;))

João Pais disse...

Caro Pinho Cardão,

não quero estar a voltar aqui sempre para "reclamar", mas sugiro (outra vez) um pouco mais de pesquisa:
http://www.casademateus.com/actividades_dinis.htm - o prémio D. Dinis existe desde 1981. Já agora, com o ferrenho esquerdista Graça Moura sempre à frente do júri (já que o senhor coloca isto numa questão de esquerdas e direitas).

Ora sendo que o prémio existe desde há 30 anos, e agora que este governo o vai extinguir, sugiro que o seu texto seja corrigido de "... essas mesmas mãos assinaram, ao subsidiar a Fundação Casa Mateus" para "essas mesmas mãos assinaram o final do prémio D. Dinis, ao cortar o seu apoio".

Pense bem: aceitaria receber um prémio de alguém que ditou o fim desse mesmo prémio? (sendo que neste caso a posição dela seja não em posição ao prémio, mas ao pais)

E também: é o próprio primeiro ministro que assina os trâmites para este apoio? Eu duvido.

(já que o debate está inquinado de esquerdas-vs.direitas, talvez seja melhor também dar uma declaração de interesses: de T Horta apenas li as Cartas Portuguesas, e gostaria de encontrar uma edição das Novas cartas. De resto não conheço nada)

João Pais disse...

E ainda mais: nunca visitei a Casa de Mateus, infelizmente :)

Pedro disse...

Caro Pinho,

independentemente do que eu penso sobre a MTeresa Horta e a sua postura, li algo sue que me ficou atravessado.

Então "é esse mesmo 1º Ministro que possibilita o cheque " ?

Acha mesmo ? julgo que confunde mais uma vez Primeiro-Ministro com Estado.

Mais: acha plausivel que assinando um cheque, se obtem a subserviencia e a vassalagem de todo aquele que discorda de nós ?

Volto a frizar, não manifesto enm tomo partido pelo PM ou pela autora...

...mas o que li sobre o "cheque" deixa-me estupefacto.

Fenix disse...

Subscrevo inteiramente o comentário de Pedro, e lamento que a conjuntura política actual esteja a desorientar alguns seres bem-pensantes, e que se digladiem argumentos que penso não estarem ao nível dos debates a que nos habituou o 4R.

Tavares Moreira disse...

Caro Pinho Cardão,

Não entrando na polémica em torno do gesto heroico, da ilustre prosadora um gesto quase suicida, próprio de quem está disposto a suportar os mais duros sacrifícios e mesmo a arriscar a vida em nome de uma causa - gostaria de recordar o contraste com a atitude de J. Saramago que, sendo um arqui-inimigo das ideias monárquicas, não se recusou a receber o prémio Nobel da literatura das mão do rei da Suécia...

Jc G disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno Cruces disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Robert Musil disse...

E quem assinou o cheque que permite a Passos desbaratar o País? Foi muito além do programa eleitoral e do pacto estabelecido com os portugueses. Passos ultrapassou os limites da confiança representativa que o povo delegou nas eleições. A Teresa Horta ficou aquém do limite crítico que a essência daquele prémio possibilita. O que não diria um Eça?

Luís Lavoura disse...

Calma.
Parece, por este post, que o primeiro-ministro ofereceu um prémio a MTH.
Tal não é verdade. Quem ofereceu o prémio foi a Fundação Casa de Mateus. Foi ela quem instituiu o prémio e quem decidiu que ele seria atribuído a MTH.
Logo, MTH aceitou um prémio que lhe foi atribuído pela Fundação Casa de Mateus. Não pelo primeiro-ministro. MTH apenas exigiu que o cheque lhe fosse entregue por quem lhe atribuiu o prémio, e não por terceiros.