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sábado, 3 de novembro de 2012

A cigarra e a formiga (versão moderna) II

Nota prévia: Adaptação muito livre de versão francesa cuja origem desconheço. Como tal, limite-se o leitor a aceitá-la na precisa situação concreta, não extrapolando para situações de diferente natureza.
Resumo do 1º capítulo: chegado o inverno, a cigarra, sem abrigo nem comida e cheia de frio, organizou uma conferência de imprensa a relatar a sua situação, comparando-a com a da formiga, bem nutrida, agasalhada e de dispensa cheia. Emissões em directo e debates televisivos sobre tão precária e miserável situação, assim como as greves e manifestações de solidariedade que se seguiram levaram o governo a ter que intervir.
 
Sob pressão das greves e manifestações, logo um pacote adicional de impostos recaiu sobre as formigas: taxas maiores no IRS, um novo imposto sobre a riqueza acumulada e ainda uma fortíssima multa justificada por sabotagem económica devida ao açambarcamento de bens. 
Sem dinheiro suficiente para pagar ao estado, e tendo visto a sua casa apreendida pelas autoridades fiscais, a formiga resolveu imigrar para a Suíça e aí refazer a sua vida, contribuindo também para a riqueza do seu novo país.
O estado transformou então a casa da formiga em bairro social das cigarras e a dispensa cheia permitiu a realização de grandes festarolas, ainda mais animadas pela adesão de muitos artistas e cantores da esquerda cultural subsidiada. Grafitis monumentais assinalavam o novo “campus” das cigarras, e a sua situação foi de imediato publicitada pelo governo e pelas televisões como um exemplo conseguido de inclusão social. E muitas canções de intervenção iam surgindo, condenando a formiga e saudando as irreversíveis conquistas cigarrais. Na longa invernia, a vida corria alegre.
Mas entretanto as instalações iam-se degradando por falta de manutenção, já os tectos não aguentavam a água das chuvas e, estando ainda longe a primavera, as provisões acabaram, muitas delas, por troca directa, nas mãos dos dealers da droga que ali viram um novo mercado para o seus produtos. Em pouco tempo, chegaram a uma absoluta falta de meios. E os artistas e cantores da esquerda solidária, privados dos bens que os atraíram, foram os primeiros a meter a viola no saco e a abandonar as cigarras à sua sorte.
(continua)

6 comentários:

MM disse...

Sem o humor cáustico de Vexa (mas que muito aprecio!)a retratar a realidade, permito-me colocar, aqui, um post "roubado" do blog corta-fitas, que complementa/ilusta o raciocínio sobre a distribuição da riqueza:

"Quando o número de beneficiários exceder o dos contribuintes...

Estou profundamente convencido de que todo o sistema administrativo regular e permanente que tenha por fim aliviar as necessidades dos mais pobres criará mais misérias do que as que curará, depravará a população que pretende ajudar e confortar, reduzirá progressivamente os ricos a simples fornecedores dos pobres, secará as fontes de poupança, cessará a acumulação de capital, retardará o desenvolvimento do comércio, entorpecerá a actividade e a industria humanas e, quando o número de beneficiários exceder o dos contribuintes, culminará na realização de uma violenta revolução do Estado."

(Mémoire sur le Paupérisme, Alexis Tocqueville.

in Pensar a Democracia com Tocqueville, Lívia Franco – Principia 2012).

E olhando para o número de "ricos", segundo os dados + recentes do Eurostat...

Bonaparte disse...


Essa da Suiça, por acaso está a refeir-se às contas do seu companheiro de partido, Isaltino de Morais? Que durante anos andou a mealhar uns tostões... que formiguinha obreira.

T disse...

O quê? Há 223 mil Isaltinos na Suíça? Boa forma de desviar as atenções do óbvio. Da próxima chame-lhe país X, para evitar spins.

A. João Soares disse...

Boa tarde

Por apreciar este blogue e como as regras do Prémio DARDOS referem que devemos indicar os blogues a que o atribuiríamos, decidi inclui-lo no conjunto de blogues a que o atribuí.

O Prémio pode ser visto aqui: http://joaobarbeita.blogspot.pt/2012/11/agradeco-o-premio-dardos.html

Deixo ao seu critério a exibição, ou não, do referido Prémio.

João

Joao Jardine disse...

Caro Pinho Cardão

A sequela da sua estória começa a assemelhar-se ao que se passou num certo país dos grandes lagos, entre os finais da década de 60 e o início da década de 70 do século passado.
Cumprimentos
joão

Bartolomeu disse...

Mas eis que mansa e lentamente, as formigas vão regressando da Suiça ao formigueiro. Aproveitando a letargia das cigarras e o adormecimento dos cantores de intervenção, assentam de novo arraiais. As cigarras, convencidas que os tempos haviam mudado e que as formigas não voltariam a xupar-lhes o tutano com que enchiam as dispensas, com que construíam os palacetes e compravam os mercedes, em suma, convencidas que finalmente tinham chegado os tempos de igualdade e de democracia, aceitaram o regresso das formigas.
Mas rápidamente se acharam de novo ao serviço das espertas formigas. Tão espertas eram as "bichinhas" que, para além de as colocarem de novo ao seu serviço, pediram em seu nome, a outras formigas, dinheiro emprestado. E as formigas de outros formigueiro enviaram-lhes carradas de dinheiro com que encheram de novo as dispensas, construíram enormes palácios em condomínios privados e adquiriram carros de luxo para toda a família.
Quando todo este dinheiro foi gasto, sem que as espertas formigas se importassem em construir com ele a sustentabilidade que lhes permitisse paga-lo, decidiram acusar as cigarras-cantadeiras de ter contraído empréstimos acima das suas capacidades de endividamento e então, para castigo, impuseram-lhes impostos. Passado algum tempo, como dos formigueiros estrangeiros, continuavam a chegar empréstimos que acumulavam com os que já tinham sido enviados anteriormente, e as formigas continuavam a gasta-lo sem criar forma de o rentabilizar, decidiram agravar os impostos às inconscientes cigarras.
Agora as cigarras estafadas andam "à nora", sabem de antemão que vão ser elas a ter de pagar a dívida que as formigas contraíram, dê por onde der e "nem que a vaca tussa". Os cantores de intervenção cansaram-se de cantar, acham que as cigarras estão atoladas na trampa até dois palmos acima da testa e nem com uma orquestra sinfónica a tocar medly's revolucionários, conseguiriam voltar a respirar...
(não sei se continua... mas se continuar, so pode ser mais para o fundo)