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terça-feira, 6 de novembro de 2012

A crise e os ciclos económicos

Hoje o texto é mais longo. As minhas desculpas. 
Para o Partido Socialista e economistas aparentados, a teoria é simples: a “aposta no crescimento" (expressão pitoresca) exige que não haja cortes na despesa, para não diminuir o consumo, para sustentar o PIB, para cobrar mais impostos, para induzir mais despesa, para fazer subir o consumo e o PIB e assim sucessivamente, num círculo virtuoso interminável. Isto contrariamente à política de cortes orçamentais, que induzem uma diminuição do consumo, que traz uma diminuição do PIB e da receita dos impostos, que acarreta mais cortes orçamentais, menos consumo e menos PIB, num círculo vicioso interminável também. 
Independentemente do facto comezinho de que mais despesa exige mais dinheiro, e o PS não o apresenta, a análise é de uma pobreza confrangedora. Se as coisas assim acontecessem dessa forma mecanicista e simplória, muitas (todas…) as economias e povos já há muito teriam desaparecido, e muitas já andariam pelo infinito, as que, apanhando a inércia da subida, teriam, por isso, adquirido a condição de não mais voltar a uma situação de crise.
Mas não é assim, como a prática evidencia e a teoria há muito demonstra, com o conceito dos ciclos económicos. O conceito de ciclo económico envolve uma enorme multiplicidade de variáveis, que se vêm a traduzir na evolução do nível da actividade económica. Os ciclos há muito que são estudados e comprovados, mas por cá absoluta e convenientemente esquecidos. Mas ciclos económicos houve sempre, independentemente de mais ou menos intervenção do Estado. 
Schumpeter, já em 1939, definiu mesmo quatro fases para um ciclo econômico: boom, recessão, depressão, recuperação. E é consensual a existência de ciclos longos, médios e curtos, estes caracterizados por um espaço temporal de 3 a 5 anos, embora com naturais diferenças para os países estudados.
Em Portugal, estaremos a meio, porventura entre a recessão e a depressão. Na miríade de variáveis a ter em consideração (e nunca apenas o consumo, público ou privado) e para não me alongar, apresento o das trocas com o exterior e a dos saldos positivos ou negativos por elas gerado, e que se traduzem nos meios financeiros que, respectivamente, disponibilizam ou exigem. 
Aliás, a importância do tema tem sido bastas vezes referida prelo Tavares Moreira neste Blog, por exemplo aqui (Balança de Pagamentos com um superavit de 850 milhões de Janeiro a Agosto, comparável com o deficit de 9.000 milhões, em 2011). 
O que comprova que a economia tem evoluído no sentido de resolver um dos principais constrangimentos que a vem bloqueando, o do endividamento; o superavit que estamos em vias de atingir diminuirá o endividamento externo e possibilitará condições para uma reabertura dos mercados financeiros, quer aos privados, quer ao próprio estado.
Paralelamente, e a pouco e pouco, o processo de reequilíbrio gerará impulsos favoráveis múltiplos, pouco visíveis, mas muito disseminados, mas que, reunidos, irão dar início, como sempre deram, a um novo ciclo de crescimento e de bem -estar, agora com o estado já aliviado de algumas gorduras nocivas.
Não há outra via. Não vale a pena querer o aumento do PIB através do aumento do consumo interno privado ou público; aliás, no ciclo, esse aumento impediria outros equilíbrios macroeconómicos, sem o que o crescimento é uma utopia. 
Mas pouco o ver afirmado é preocupante sinal de que a crise no ensino da economia é bem maior do que a do país.

8 comentários:

Suzana Toscano disse...

Caro Pinho Cardão, muito tempos aqui aprendido com o que os economistas do 4r pacientemente nos têm ensinado e explicado.No entanto, esses ciclo que com tanta clareza aqui nos mostra são claramente percebidos e desenhados DEPOIS de se terem completado. ora, o porblema é que 1) quando começam não se percebe logo e, portanto, não se previnem (na lógica de que ainda se está no crescimento)antes se tenta negá-lo.2) Não se sabe se vai ser longo, médio ou curto e afirma-se a pés juntos que será curto e tenta-se combatê-lo com medidas de crescimento, sob pena de se ser acusado de estar a cavar a depressão.3)Nunca se sabe quando vai acabar,uma vez instalada a fase descendente, o que causa uma natural angústia, impaciência e desespero 4) Ninguém sabe como inverter a situação, há inúmeros factores que não se controlam, por mais quadros e modelos que se desenhem. Logo, se o movimento é perceptível e se pode traduzir numa linha lógica, tudo o que ele implica é muito menos lógico e previsível nos seus resultados. A História é muito rica e variada nos modelos, contextos, consequências, erros e aprendizagens que decorreram durante os vários ciclos.Não há como pedir paciência, resignação e confiança quando a linha vai a pique...

Suzana Toscano disse...

..."problema", claro, desculpem as gralhas mas não sei onde deixei os óculos :)

Gonçalo disse...

Pois. Um dia, os ciclos deixam de ser ciclos que acabam sempre em cima. E temo bem que esse dia chegou.
http://existenciasustentada.blogspot.com/2010/11/6-desenvolvimento.html

Tonibler disse...

A regra é simples, cara Suzana, e parece ser isso que os sociais-democratas desta terra parecem não entender: economia não é feita com recurso à violência. Obrigarem-me a pagar impostos para "fazer" economia vai DE CERTEZA dar em crise mais tarde. Portanto, diria até que se têm previsto aqui as coisas com bastante antecedência, parece-me que não está a ser justa com os seus colegas economistas.

Caro Pinho Cardão,

parece não haver solução para o maior dos problemas que é convencer as pessoas que estado é o conjunto de serviçais que facilitam as trocas, não é o promotor das trocas. Estado e economia são coisas que só se juntam quando há asneira porque o estado significa violência e poder. Agora, o PS está a dizer aquilo que as pessoas querem ouvi, por isso... é deixar morrer. Quando morrer as pessoas aprendem.

Pinho Cardão disse...

Cara Suzana:
Diz bem: se o modelo "pode traduzir numa linha lógica, tudo o que ele implica é muito menos lógico e previsível nos seus resultados. A História é muito rica e variada nos modelos, contextos, consequências, erros e aprendizagens que decorreram durante os vários ciclos.Não há como pedir paciência, resignação e confiança quando a linha vai a pique...".
Diz bem e está certo. Mas também está certo, e aqui seguramente, que continuar a tomar do veneno que destruiu não pode construir nada. Pelo contrário, só levará a um estado cada vez pior.

Caro Gonçalo:
Concorde-se ou não, um excelente post, caro Gonçalo.

Caro Tonibler:
Modéstia à parte, aqui no 4R antecipou-se tudo o que veio a acontecer. Melhor que o Oráculo de Delfos, pois foi tudo sempre clarinho e claramente dito. E sensibilizados por o reconhecer.
Quanto ao fundamental, voltamos sempre ao mesmo. A grande crise nasceu do facto de o Estado transbordar das suas funções essenciais para se tornar produtor, distribuidor, empresário, intermediário, etc, etc. Ao mesmo tempo que assimilou o assegurar do serviço público com a prestação concreta desse serviço. Descurou o que lhe competia e engordou com o que não devia fazer. O que criou hábitos e cultura difíceis de erradicar. Mesmo quando se está a ver o desastre a entrar porta dentro.

Freire de Andrade disse...

Seguro disse ontem na entrevista que deu à SIC que não está de acordo com o corte de 4000 milhões de euros na despesa porque o que preconiza é crescimento em vez de austeridade, visto que sendo o défice uma dada percentagem do PIB se pode reduzir o défice pelos crescimento em vez de ser pela redução da despesa. Matematicamente o raciocínio é rigoroso, mas experimentei fazer umas contas, a partir do PIB previsto para 2012, para saber quanto teria de ser o crescimento se se pretendesse obter um défice de 4,5% em 2013 sem o efeito correctivo dos 4 mM. Cheguei a um crescimento absolutamente absurdo de 55%. Não vejo onde possa estar o erro, se é que há erro. As contas estão explicadas no meu blog "Será que os anjos têm sexo?".

Pinho Cardão disse...

Caro Freire de Andrade:
Não consegui encontrar o texto que refere no seu excelente Blog que, aliás, faz parte da reduzida lista do 4R. Podia dar-me o link?
Mas os valores a que chega, mais percentagem, menos percentagem, estão certoss. Uma enormidade que traduz uma demagogia selvagem.

Freire de Andrade disse...

Caro Pinho Cardão
Peço imensa desculpa, mas não contava com a sua rapidez e, quando afirmei que as contas estavam no meu blog, afinal ainda não as tinha inserido, porque descobri um pequeno erro no cálculo do PIB previsto para 2013 (recessão de 3% quando para 2013 se prevê 1%). Agora já lá estão. O link é:
www.seraqueosanjostemsexo.blogspot.pt/2012/11/reduzir-o-defice-pelo-crescimento.html
Alegro-me que diga que os valores estão certos. É mesmo uma enormidade.