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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Despedida da vida

O dia amanheceu coberto de nuvens que lançavam pesadas gotas, frias e cinzentas. O chão esfriou, o calor da terra desapareceu. O dia estava traçado, permitindo adivinhar uma invasão de tristeza.
Os primeiros que entraram no consultório queixavam-se da vida, mais do que do corpo, queriam falar, queriam curar as maleitas das suas almas. Pequenas tragédias, pequenos desentendimentos, incompreensões acumuladas ao longo do tempo, choques de personalidades, enfim, o trivial da existência que magoa e angustia qualquer um.
Avisaram-me que uma senhora de idade, acompanhada pela nora e neta, estava à espera da consulta. - Sabe, a filha morreu subitamente este fim de semana em França. Antevi o que se iria passar. Entrou. Depois de descrever o seu historial, e o problema que a vinha afligindo há algum tempo, rompe num choro, passando a contar o drama que estava a viver. Morreu-lhe a filha. Morte súbita. Morte solitária. É difícil desenhar em palavras a experiência da morte de um filho, algo que considero uma iniquidade da existência. Estava à espera do seu corpo. O seu sofrimento entrou-me pelos poros, rasgando-me em fibras dolorosas, senti a foice da morte, fria e cruel. Partilhei a sua dor, não podia fazer mais. Ao aperceber-se da minha reação, ficou tranquila e agradeceu-me de uma forma que nunca irei esquecer.
Passado pouco tempo o filho e a neta de uma senhora idosa e acamada, que nunca vi, vieram consultar-me para que os pudesse ajudar e orientar. Tinham andado em bolandas nos serviços de urgência. Com base nos elementos que me forneceram, e na história da situação da senhora, não me foi difícil perceber que tinha entrado na reta final. Estão a cuidar da senhora em casa como muito amor e carinho. Cuidadores de excelência. Depois de os ouvir expliquei-lhes que o melhor para todos  seria colocá-la num local mais adequado às suas necessidades, porque os cuidados iriam ser cada vez mais exigentes. A morte tinha entrado em cena, e quando isto acontece é imperioso saber acompanhá-la, com dignidade e muito respeito. Tinha passado em pouco tempo da morte súbita para a morte anunciada. Ficaram tranquilos, a serenidade invadiu-lhes os rostos. Agradeceram.
Esta estranha sequência de acontecimentos relacionados com a morte teve mais uma protagonista, uma senhora que conheço há muito tempo e a quem ajudei em múltiplos momentos. Teve um cancro da mama, mas nunca conseguiu libertar-se do medo da morte. Inculquei-lhe sempre esperança e a certeza de que iria ultrapassar o problema. A morte esteve sempre presente nas suas conversas de forma direta ou indireta. Hoje vi-a um pouco em baixo. Perguntei-lhe por que razão é que estava assim. - Faz hoje oito anos que fui operada à mama. - E depois? Não lhe disse que tudo iria correr bem? - Pois disse, mas não consigo afastar o medo de morrer por causa desta doença. Pronto, não vou falar mais disso. Sorri. Sempre a mesma expressão. A filha também teve um cancro da mama. - Sabe que a minha filha já fez a reconstrução? Já tem mamilo e tudo. Hoje foi ao hospital. Aquela rapariga é tão otimista! - Siga o seu exemplo. Depois da morte súbita e da morte anunciada o medo da morte.
A seguir entra o meu velho amigo que, teimosamente, consegue estar vivo contra todas as expectativas e prognósticos. Falámos. Falámos da morte recente da sua mulher devido a queda. Falámos dos exames que vai fazer para a semana. Apontou para o seu hipocôndrio direito e disse-me: - Esta coisa está cada vez maior! - Claro que está, pensei. Um fígado cheio de metástases. Levanta a mão direita e com os dedos faz o sinal do medo. Em seguida faz sinal de levantar voo e aponta para o teto, dizendo em linguagem gestual a sua próxima partida. Tentei contrariá-lo, dizendo-lhe que o queria ver muito mais vezes. Mantendo o seu tradicional sorriso, agora triste, deixou derramar duas pesadas gotas frias e cinzentas idênticas às que caiam no exterior. Aproximou-se de mim com os braços levantados. Deu-me um forte abraço, o mais doloroso dos abraços, o da despedida.
Uma tarde triste, tarde de morte, morte súbita, morte anunciada, medo da morte e despedida da vida.

4 comentários:

Bartolomeu disse...

De outro grande Mestre; da "arte" e da Vida:
http://sopasdepedra.blogspot.pt/2012/11/castanhas-assadas-vinho-tinto-e-duas.html

Tavares Moreira disse...

Caro Professor,

Sou de oipinião que nós só podemos conceber a morte como um prolongamento da vida - uma vida distinta daquela que hoje desfrutamos, mas uma vida.
De outra forma, a vida que hoje experimentamos e que o meu ilustre Amigo relata com tão notável expressão linguística, seria na minha perspectiva apenas uma tragédia e como tal uma coisa sem sentido, incompatível com a inteligência humana...

Impaciente disse...

Caro amigo
Interrogo-me regularmente sobre o tempo e a morte, espero que de uma forma saudável, e reconheço a importância da religião independentemente da crença que exista em cada um dos humanos.
Pergunto-me também como é que os médicos encaram o convívio com a morte, admitindo que possam ter uma relação mais "burocratizada", o que até poderá ser uma enorme injustiça.
Por isso, fico genuinamente maravilhado com a sensibilidade e delicadeza com que aborda este tema.
Um abraço amigo

Suzana Toscano disse...

Foi um dia mesmo muito pesado, com o cinzendo do dia a ajudar, cá esperamos notícia dos raios de sol que também lhe entram pelas consultas adentro. Um abraço