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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Os nossos idosos


Foi hoje anunciado que o Governo pretende responsabilizar as famílias que abandonem os seus idosos em lares, hospitais ou nas suas casas. Não conheço o conteúdo concreto de tais medidas e é indiscutível que há situações de grande desumanidade ou de negligência no acompanhamento de quem tantas vezes, dedicou a vida inteira a cuidar dos seus filhos e netos. Mas é fácil fazer juízos, difícil é encontrar a maneira certa de fazer as coisas bem. É muito pouco realista pensar que as famílias têm sempre condições para tomar devida conta dos seus idosos, tantas vezes totalmente dependentes, necessitando de cuidados permanentes, mesmo quando têm a sorte de não estar doentes. Se há quem seja capaz de os ignorar e abandonar, quando não de os maltratar, acredito que a grande maioria das pessoas não tem essa coragem e tenta por tudo dar o que pode para minorar as limitações que a parte final da vida em geral acarreta. Não conheço, felizmente, nenhum caso de famílias que abandonam os seus velhinhos, mas conheço muitos, mesmo muitos casos, em que as dificuldades para os assistir são imensas e não são só as financeiras que, por natureza, complicam tudo até um ponto quase ingovernável. Cuidar de uma pessoa de idade implica uma grande alteração de vida, é muito difícil, reparamos da pior maneira que não estamos preparados para isso, não sabemos nada, nem da psicologia própria de quem já viveu a sua vida e não está na disposição de deixar que outros a governem, nem dos cuidados mais elementares, como dar banho e tratar da higiene, limpar uma ferida, preparar as refeições para o dia, ter mil cuidados para que não caia sem que pareça que estamos a limitar-lhe a liberdade. Mesmo havendo com que pagar a uma empregada permanente, - e é preciso o milagre de encontrar alguém competente e de confiança que se mantenha o tempo razoável para gerar simpatia e laços de humanidade - uma pessoa de idade sem autonomia que, por exemplo e no caso mais simples, vive na sua casa, tem que ter quem lhe faça as compras diárias, quem oriente a casa, quem a leva ao médico, quem vigie os remédios, quem a vá buscar ao fim de semana ou fique a fazer companhia, quem a ajude nos mil e assuntos que fazem parte da vida, é como levar a vida de outra pessoa às costas até ao mais pequeno detalhe e ter a responsabilidade de não fazer ruturas, de parecer que está tudo como ela quer. Tantas e tantas vezes a alternativa de a trazer para casa de um filho, ou de alternar pelos filhos, é um fonte de contrariedade, de desconforto para o idoso e, em geral, de grandes desarmonias familiares, se há vários irmãos. Não sei, sinceramente, como é que se “avalia a responsabilidade” das famílias, salvo em casos extremos de que a lei já se ocupa, maus tratos, abandono e negligência. O que sei é que, para tratar com carinho e sem faltar com nada é preciso muito mais que responsabilidade e amor. Tantas e tantas vezes os problemas entre irmãos começam precisamente a propósito dos pais idosos, com a partilha de trabalhos, a dificuldade de se coordenarem, a diferente forma de cada um assumir as suas responsabilidades, incluindo financeiras, mas nem sempre são estas as que criam mais problemas. A partilha da responsabilidade para cuidar de um pai ou mãe idosos oferece inúmeros pretextos para ajuste de contas antigas. E a crescente dificuldade das famílias de hoje, tantas elas disfuncionais, tantas vezes distantes nos laços que não souberam manter, torna este problema um verdadeiro quebra-cabeças. E é arriscado fazer com que os idosos sejam vistos como uma ameaça ou uma imposição legal, as famílias que se entendem não precisam disso e para as que se desentendem só poderá piorar as coisas.

5 comentários:

JM Ferreira de Almeida disse...

Um verdadeiro quebra-cabeças, diz muito bem, Suzana. Mas não sei se temos Estado preparado para distinguir trigo e joio, situações de idosos abandonados por crueldade ou por cruel impossibilidade de filhos e familiares, eles também vítimas de dificuldades.
Um tema muito delicado, onde os agentes políticos devem ter cautelas com o discurso.

Suzana Toscano disse...

Exactamente, caro Zé Mário.

alberico.lopes disse...

Que artigo excelente e que deve deixar-nos todos bem conscientes da complexidade deste assunto,por vezes tratado de maneira superficial!
É que realmente é um problema muito sério e que,como tal,deve ser tratado!
Parabéns à autora,a quem saudo!

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
Trata-se de um assunto muito difícil, multifacetado. Como alguém dizia "os afectos não se decretam". Evidentemente que é preciso proteger os diosos e o Estado tem uma tutela importante neste domínio da qual não se pode descartar. Os crimes de negligência, violência e maus tratos já têm moldura legal. Mas as questões vão muito para além desta tutela jurídica. O Estado nem sempre responde como deveria no apoio aos idosos, o que significa também não apoiar devidamente as respectivas famílias. Não se trata de pedir uma maior intervenção do Estado na vida das famílias, nada disso, trata-se de o Estado proporcionar um conjunto de meios - económicos e técnicos - que auxiliem as famílias e os idosos através de estruturas especializadas e de não adoptar políticas que incentivem comportamentos de sentido inverso. Exemplos não faltam.
A solidariedade é praticada pelas pessoas e famílias, e também pela comunidade, a aposta vai justamente em as aproximar dos seus idosos mas ajudando-as e não as penalizando e dificultando-lhes a vida. O assunto é muito delicado, deveria ser amplamente estudado e debatido no âmbito de um tema mais vasto que é o envelhecimento. Continuamos a tratar os assuntos fundamentais do nosso futuro de forma avulso.

Suzana Toscano disse...

Caro alberico.lopes, muito obrigada, este é um tema ao qual somos todos chamados e, tal como gostamos de fazer aqui na 4ré preferível contribuir enquanto e tempo, mais do que crticar deposi de feito.
Margarida, temos falado tantas vezes de como cada pessoa que tem que se ocupar dos seus mais velhos se sente tantas vezes desnorteada, sem saber a quem recorrer já nem digo para ajuda, mas ao menospara um conselho amigo. Nem imagino o que pode acontecer se a lei gerar mais conflitos e mais hostilidade em relação a quem já tem tantas dificuldades em fazer o melhor que pode e sabe, e são muitos,felizmente,por enquanto.